Ditadura - Adam Mattos
Adam Mattos
Sou advogado, aficcionado por leitura de todos os gêneros, e a minha grande paixão recém descoberta é a escrita.
Já publiquei em algumas antologias de terror e de temas variados, além de ter publicado também em antologias de poesias.
O maldito me fascina, tanto na leitura quanto na escrita, meu objetivo é causar calafrios em quem lê, e em mim mesmo que escrevo.
O feio, subversivo e errante é o mal aglutinador da espécie humana, que merece ser dominado pelo medo. Cuidado, aprecie minhas obras com a mente aberta e o estômago forte.







Ditadura

Abri os olhos e imediatamente senti a dor excruciante que sentia antes de apagar. Aos poucos as memórias foram voltando, com isso o desespero crescendo e a esperança se esvaindo. Continuo preso nesse porão sujo e escuro. O que eu fiz para merecer isso? Eles me perguntam um monte de coisas que eu não sei a resposta, e independente do que eu diga, levo choque, soco, paulada… eu não aguento mais. Antes de apagar, um soldado fardado me perguntava quem eram os meus companheiros, com quem eu estava e onde nós nos reuníamos, e eu respondia com total sinceridade que sou um mero professor, nunca fiz mal a ninguém, tenho uma filha pequena e não sei do que ele está falando. Não adiantou, ele se aproximou, pegou minha mão direita e com um alicate grande, arrancou todas as unhas da minha mão. Foi nessa hora que eu apaguei.

***

            Eu era professor de história, adorava o que fazia e os alunos também me adoravam. Meu maior prazer era chegar na sala de aula e ser recebido com entusiasmo por eles, apesar de muitos não levarem a matéria a serio, os que levavam faziam todo o esforço valer a pena. Tenho quarenta anos, sou casado há dez e tenho uma filha linda de cinco. Depois do expediente na escola, chego em casa por volta das dezoito horas e mais uma vez sou recebido com entusiasmo, dessa vez pela minha menina, que quando ouve o barulho da porta, larga o que estiver fazendo e corre em minha direção, pula no meu colo e me enche de beijos. Não existe no mundo sensação melhor. Choro ao lembrar e imaginar que nunca mais vou sentir os seus bracinhos em volta do meu pescoço.

            Moro em Curitiba e nunca me interessei por política, quer dizer, acompanho o que está acontecendo no país, assisto telejornais, mas nunca militei em nada, sempre procurei permanecer neutro e não me envolver na polarização ideológica que começou há uns anos. Quando os militares tomaram o poder eu fiquei preocupado, claro, como todos que querem um lugar agradável e seguro para viver, mas nunca imaginei que chegaríamos a esse ponto, onde não existe mais democracia, e pessoas são perseguidas apenas por não concordar em como o país está sendo governado. Comecei a ouvir casos de gente desaparecendo sem deixar rastros, pessoas fugindo exiladas para salvar a vida, mas como sempre fiquei quieto e não expus meu descontentamento para ninguém, achei que estivesse seguro. Como estava enganado.

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Adam Mattos
Ditadura

Abri os olhos e imediatamente senti a dor excruciante que sentia antes de apagar. Aos poucos as memórias foram voltando, com isso o desespero crescendo e a esperança se esvaindo. Continuo preso nesse porão sujo e escuro. O que eu fiz para merecer isso? Eles me perguntam um monte de coisas que eu não sei a resposta, e independente do que eu diga, levo choque, soco, paulada… eu não aguento mais. Antes de apagar, um soldado fardado me perguntava quem eram os meus companheiros, com quem eu estava e onde nós nos reuníamos, e eu respondia com total sinceridade que sou um mero professor, nunca fiz mal a ninguém, tenho uma filha pequena e não sei do que ele está falando. Não adiantou, ele se aproximou, pegou minha mão direita e com um alicate grande, arrancou todas as unhas da minha mão. Foi nessa hora que eu apaguei.

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            Eu era professor de história, adorava o que fazia e os alunos também me adoravam. Meu maior prazer era chegar na sala de aula e ser recebido com entusiasmo por eles, apesar de muitos não levarem a matéria a serio, os que levavam faziam todo o esforço valer a pena. Tenho quarenta anos, sou casado há dez e tenho uma filha linda de cinco. Depois do expediente na escola, chego em casa por volta das dezoito horas e mais uma vez sou recebido com entusiasmo, dessa vez pela minha menina, que quando ouve o barulho da porta, larga o que estiver fazendo e corre em minha direção, pula no meu colo e me enche de beijos. Não existe no mundo sensação melhor. Choro ao lembrar e imaginar que nunca mais vou sentir os seus bracinhos em volta do meu pescoço.

            Moro em Curitiba e nunca me interessei por política, quer dizer, acompanho o que está acontecendo no país, assisto telejornais, mas nunca militei em nada, sempre procurei permanecer neutro e não me envolver na polarização ideológica que começou há uns anos. Quando os militares tomaram o poder eu fiquei preocupado, claro, como todos que querem um lugar agradável e seguro para viver, mas nunca imaginei que chegaríamos a esse ponto, onde não existe mais democracia, e pessoas são perseguidas apenas por não concordar em como o país está sendo governado. Comecei a ouvir casos de gente desaparecendo sem deixar rastros, pessoas fugindo exiladas para salvar a vida, mas como sempre fiquei quieto e não expus meu descontentamento para ninguém, achei que estivesse seguro. Como estava enganado.

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