Ditadura - Adam Mattos
Adam Mattos
Sou advogado, aficcionado por leitura de todos os gêneros, e a minha grande paixão recém descoberta é a escrita.
Já publiquei em algumas antologias de terror e de temas variados, além de ter publicado também em antologias de poesias.
O maldito me fascina, tanto na leitura quanto na escrita, meu objetivo é causar calafrios em quem lê, e em mim mesmo que escrevo.
O feio, subversivo e errante é o mal aglutinador da espécie humana, que merece ser dominado pelo medo. Cuidado, aprecie minhas obras com a mente aberta e o estômago forte.







Ditadura

            O soldado acabou de sair do porão e levou com ele minha sanidade. Há algumas horas ele entrou dizendo:

            – E aí verme. Está pronto para falar?

Eu não consegui responder de primeira, estava muito assustado e cansado. Ele então chegou perto e deu um soco na minha boca. Engoli um dente. Com a boca cheia de sangue e muita dor só consegui murmurar que não sabia de nada, que não sabia porque estava ali e nem porque estavam fazendo isso comigo. Ele se aproximou, chegando bem perto do meu ouvido e disse:

            – Eu trouxe uma surpresa para você. Vamos ver se isso te ajuda a se lembrar.

Saiu do porão e voltou alguns segundos depois. Quando vi, comecei a gritar e chorar compulsivamente. Ele trazia, segurando pela mão, minha filha, que ao me ver amarrado, machucado e coberto de sangue, começou a chorar também e tentou correr em minha direção, mas o militar segurou mais forte e não a deixou se mexer. Ele pegou a minha princezinha, tirou toda a sua roupa e a amarrou em uma cadeira na minha frente. Ela chorava muito e não entendia o que acontecia. Ele praticou todos os tipos de torturas em mim enquanto ela assistia e implorava para que o homem parasse de machucar o pai dela. Ele enfiou agulhas embaixo das minha unhas, jogou agua gelada e quente em meu corpo, me afogou com pano molhado, colocou saco plástico na minha cabeça até eu desmaiar, e quando isso acontecia, me dava choques para que eu acordasse. Depois disso tudo, pegou uma bateria de carro e com os cabos desencapados deu choques nas genitálias da minha menininha. Em meio a urros dela e meus, ela acabou desmaiando. Ele a desamarrou e saiu do porão com ela desacordada em seus braços, me deixando física e emocionalmente destruído. Fechei os olhos e chorei.

            Fiquei no escuro absoluto pelo que imagino terem sido dias, já faz tempo que eu perdi a noção do tempo. Pode ser que eu tenha ficado nesse porão por semanas ou meses, não tenho como saber. No começo eu tentava distinguir os dias com as vindas dos meus torturadores, achava que vinham duas vezes por dia, mas as visitas passaram a ser cada vez mais inconstantes. As vezes parecia que vinham novamente depois de apenas alguns minutos, outras vezes eu achava que já haviam passado dias desde a ultima seção de tortura. Água e comida era coisa rara, já estava em um estado de tamanha fraqueza que quando me davam um pedaço de pão, eu vomitava em seguida. A vantagem de não ter comida é que quase não precisava mais defecar, pois quando ainda precisava, tinha que fazer ali no chão mesmo, e as fezes ficavam em baixo de mim, apodrecendo e me torturando com o cheiro. Mas apesar disso tudo, não penso em outra coisa, se não a minha filha sendo eletrocutada e levada nos braços daquele monstro. A angustia de não saber o que aconteceu com ela, e nem se continua viva é pior do que qualquer porrada, afogamento ou objetos me cortando ou furando. Ouço um barulho de passos se aproximando da porta e me encolho todo, já prevendo mais humilhação e dor.

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Adam Mattos
Ditadura

            O soldado acabou de sair do porão e levou com ele minha sanidade. Há algumas horas ele entrou dizendo:

            – E aí verme. Está pronto para falar?

Eu não consegui responder de primeira, estava muito assustado e cansado. Ele então chegou perto e deu um soco na minha boca. Engoli um dente. Com a boca cheia de sangue e muita dor só consegui murmurar que não sabia de nada, que não sabia porque estava ali e nem porque estavam fazendo isso comigo. Ele se aproximou, chegando bem perto do meu ouvido e disse:

            – Eu trouxe uma surpresa para você. Vamos ver se isso te ajuda a se lembrar.

Saiu do porão e voltou alguns segundos depois. Quando vi, comecei a gritar e chorar compulsivamente. Ele trazia, segurando pela mão, minha filha, que ao me ver amarrado, machucado e coberto de sangue, começou a chorar também e tentou correr em minha direção, mas o militar segurou mais forte e não a deixou se mexer. Ele pegou a minha princezinha, tirou toda a sua roupa e a amarrou em uma cadeira na minha frente. Ela chorava muito e não entendia o que acontecia. Ele praticou todos os tipos de torturas em mim enquanto ela assistia e implorava para que o homem parasse de machucar o pai dela. Ele enfiou agulhas embaixo das minha unhas, jogou agua gelada e quente em meu corpo, me afogou com pano molhado, colocou saco plástico na minha cabeça até eu desmaiar, e quando isso acontecia, me dava choques para que eu acordasse. Depois disso tudo, pegou uma bateria de carro e com os cabos desencapados deu choques nas genitálias da minha menininha. Em meio a urros dela e meus, ela acabou desmaiando. Ele a desamarrou e saiu do porão com ela desacordada em seus braços, me deixando física e emocionalmente destruído. Fechei os olhos e chorei.

            Fiquei no escuro absoluto pelo que imagino terem sido dias, já faz tempo que eu perdi a noção do tempo. Pode ser que eu tenha ficado nesse porão por semanas ou meses, não tenho como saber. No começo eu tentava distinguir os dias com as vindas dos meus torturadores, achava que vinham duas vezes por dia, mas as visitas passaram a ser cada vez mais inconstantes. As vezes parecia que vinham novamente depois de apenas alguns minutos, outras vezes eu achava que já haviam passado dias desde a ultima seção de tortura. Água e comida era coisa rara, já estava em um estado de tamanha fraqueza que quando me davam um pedaço de pão, eu vomitava em seguida. A vantagem de não ter comida é que quase não precisava mais defecar, pois quando ainda precisava, tinha que fazer ali no chão mesmo, e as fezes ficavam em baixo de mim, apodrecendo e me torturando com o cheiro. Mas apesar disso tudo, não penso em outra coisa, se não a minha filha sendo eletrocutada e levada nos braços daquele monstro. A angustia de não saber o que aconteceu com ela, e nem se continua viva é pior do que qualquer porrada, afogamento ou objetos me cortando ou furando. Ouço um barulho de passos se aproximando da porta e me encolho todo, já prevendo mais humilhação e dor.

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