O.B. - Adam Mattos
Adam Mattos
Sou advogado, aficcionado por leitura de todos os gêneros, e a minha grande paixão recém descoberta é a escrita.
Já publiquei em algumas antologias de terror e de temas variados, além de ter publicado também em antologias de poesias.
O maldito me fascina, tanto na leitura quanto na escrita, meu objetivo é causar calafrios em quem lê, e em mim mesmo que escrevo.
O feio, subversivo e errante é o mal aglutinador da espécie humana, que merece ser dominado pelo medo. Cuidado, aprecie minhas obras com a mente aberta e o estômago forte.







O.B.

Por que eu fui sair justo agora? Pensou o pobre e angustiado herói da nossa historia. Não havia nada a fazer, a não ser sorrir e fingir alegria. Eles estavam passando por um processo judicial de divorcio, e ele não queria irritá-la, o advogado dela era bom, e ele não queria perder o Dodje Challenger 1970 que tinha, depois de muito custo, reformado e deixado igualzinho ao do seu filme preferido, Vanishing Point.

                – Pode parar com esse fingimento, eu sei que você deve estar puto de me ver, mas não interessa, a gente precisa conversar.

                – Tá ok, vamos ali no bar do Charles, a essa hora não tem ninguém.

                – Tem que ser num bar? Porra Vicente, não é nem 11 horas.

                – Pra aguentar a tua cacarejada só tomando uma pinga

                – Grosso.

                – Você que é muito apertada.

                – Vai tomar no cu. Eu já odiava essa piada escrota quando era casada com você, agora então, me da vontade de enfiar um graveto no teu olho. Imbecil.

Passado esse primeiro instante de elogios e amenidades, foram para o bar e conversaram por umas duas horas sobre a divisão de bens. Nesse tempo João tomou 3 pingas, e quatro litrões de cerveja. Se despediu com um singelo: Morra atropelada, vaca! E voltou cambaleando ao hospital.

Mesmo para ele, acostumado a beber, tinha sido um pouquinho além da conta. Ele não ia conseguir trabalhar daquele jeito. Foi direto para onde ficam os remédios e injetou em si um pouco de anfetamina, pra ver se sarava um pouco conseguia trabalhar. Mal tinha injetado, ouviu seu nome sendo solicitado com urgência na sala de cirurgia numero 5. “merda” gritou, sem se importar em que alguém ouvisse. Foi correndo até a dita cuja sala 5, no trajeto tropeçou, caiu de cara no chão e ficou com o nariz sangrando. “Deve ter quebrado”  pensou. Não parava de sangrar, e ele ouviu novamente o seu nome ser chamado com urgência. Ele sabia que naquela hora, era o único cirurgião no hospital, e tinha feito o juramento de Hipócrates, caralho, seja lá quem for esse filho da puta. Foi quando lembrou do absorvente que tinha no bolso da camisa. Não pensou duas vezes, abriu, enfiou no nariz e correu para a sala de cirurgia. Era um caso de ulcera estourada, que precisava ser cauterizada imediatamente. Já tinha feito dezenas de cirurgias iguais a essa, o que o aliviou. “Consigo fazer isso até bêbado”.  Os enfermeiros e anestesistas estranharam a cordinha saindo pelo seu nariz, mas não falaram nada, pois a fama que precedia o medico não era das melhores, e ninguém queria levar um murro no centro cirúrgico.

                Apesar de um pouco mais lento, a cirurgia foi um sucesso. Conseguiu cauterizar a ulcera, e deixar o paciente novo em folha. Nessa hora a anfetamina já tinha surtido efeito e ele não estava mais bêbado. Foi ate o banheiro se lavar, mas antes uma corajosa enfermeira lhe perguntou:

                – Doutor, onde esta o absorvente que estava no seu nariz?

                – Merda.

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Por que eu fui sair justo agora? Pensou o pobre e angustiado herói da nossa historia. Não havia nada a fazer, a não ser sorrir e fingir alegria. Eles estavam passando por um processo judicial de divorcio, e ele não queria irritá-la, o advogado dela era bom, e ele não queria perder o Dodje Challenger 1970 que tinha, depois de muito custo, reformado e deixado igualzinho ao do seu filme preferido, Vanishing Point.

                – Pode parar com esse fingimento, eu sei que você deve estar puto de me ver, mas não interessa, a gente precisa conversar.

                – Tá ok, vamos ali no bar do Charles, a essa hora não tem ninguém.

                – Tem que ser num bar? Porra Vicente, não é nem 11 horas.

                – Pra aguentar a tua cacarejada só tomando uma pinga

                – Grosso.

                – Você que é muito apertada.

                – Vai tomar no cu. Eu já odiava essa piada escrota quando era casada com você, agora então, me da vontade de enfiar um graveto no teu olho. Imbecil.

Passado esse primeiro instante de elogios e amenidades, foram para o bar e conversaram por umas duas horas sobre a divisão de bens. Nesse tempo João tomou 3 pingas, e quatro litrões de cerveja. Se despediu com um singelo: Morra atropelada, vaca! E voltou cambaleando ao hospital.

Mesmo para ele, acostumado a beber, tinha sido um pouquinho além da conta. Ele não ia conseguir trabalhar daquele jeito. Foi direto para onde ficam os remédios e injetou em si um pouco de anfetamina, pra ver se sarava um pouco conseguia trabalhar. Mal tinha injetado, ouviu seu nome sendo solicitado com urgência na sala de cirurgia numero 5. “merda” gritou, sem se importar em que alguém ouvisse. Foi correndo até a dita cuja sala 5, no trajeto tropeçou, caiu de cara no chão e ficou com o nariz sangrando. “Deve ter quebrado”  pensou. Não parava de sangrar, e ele ouviu novamente o seu nome ser chamado com urgência. Ele sabia que naquela hora, era o único cirurgião no hospital, e tinha feito o juramento de Hipócrates, caralho, seja lá quem for esse filho da puta. Foi quando lembrou do absorvente que tinha no bolso da camisa. Não pensou duas vezes, abriu, enfiou no nariz e correu para a sala de cirurgia. Era um caso de ulcera estourada, que precisava ser cauterizada imediatamente. Já tinha feito dezenas de cirurgias iguais a essa, o que o aliviou. “Consigo fazer isso até bêbado”.  Os enfermeiros e anestesistas estranharam a cordinha saindo pelo seu nariz, mas não falaram nada, pois a fama que precedia o medico não era das melhores, e ninguém queria levar um murro no centro cirúrgico.

                Apesar de um pouco mais lento, a cirurgia foi um sucesso. Conseguiu cauterizar a ulcera, e deixar o paciente novo em folha. Nessa hora a anfetamina já tinha surtido efeito e ele não estava mais bêbado. Foi ate o banheiro se lavar, mas antes uma corajosa enfermeira lhe perguntou:

                – Doutor, onde esta o absorvente que estava no seu nariz?

                – Merda.

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