O caçador de buzinas - Adam Mattos
Adam Mattos
Sou advogado, aficcionado por leitura de todos os gêneros, e a minha grande paixão recém descoberta é a escrita.
Já publiquei em algumas antologias de terror e de temas variados, além de ter publicado também em antologias de poesias.
O maldito me fascina, tanto na leitura quanto na escrita, meu objetivo é causar calafrios em quem lê, e em mim mesmo que escrevo.
O feio, subversivo e errante é o mal aglutinador da espécie humana, que merece ser dominado pelo medo. Cuidado, aprecie minhas obras com a mente aberta e o estômago forte.







O caçador de buzinas

Juca acordou no meio da noite, com a cabeça explodindo, como era habitual, mais do que ele gostaria. A sensação era a de agulhas dilacerando seu cérebro como se ele fosse apenas uma massa de modelar inútil cercada por um coco descascado. Ele se levantou, não teve a capacidade de calçar os chinelos, e foi até a cozinha tomar um analgésico com uísque, como fazia quase todas as manhãs. A cozinha era modesta, assim como o resto do seu apartamento, era o que podia pagar com o que sobrou após o divórcio — tinha uma mesa no centro com apenas duas cadeiras, apesar de apenas uma ser usada ele não se lembrava há quanto tempo. Juca encheu um copo com seu Wild Turkey, afinal de contas, como ele costumava dizer, “em algumas coisas não se economizava”, pegou dois comprimidos de analgésico e os tomou com o conteúdo do copo em um gole só. Depois de acender um cigarro Dunhill, ele começou a pensar na vida.

 

***

 

A vida de Juca nem sempre foi assim, ele era uma pessoa feliz, tinha uma esposa que o amava, um emprego razoavelmente bom, apesar de sempre odiar o que fazia, o pagamento era ótimo, e ele tinha muitos amigos que o adoravam e sempre o consideraram o palhaço da turma. Apesar de tímido, nada que uns bons litros de cerveja e umas doses de uísque não resolvessem. Juca se considerava uma pessoa feliz, e todos à sua volta também. Ele adorava contar piadas, era uma pessoa politizada e todos adoravam ouvi-lo. Mesmo não concordando, seus argumentos eram no mínimo interessantes. Sempre ajudava quem precisava, mesmo que não pudesse, não podia ver alguém necessitado na rua que fazia das tripas coração para ajudar a pobre pessoa.

Certa vez, ele levou um mendigo para a própria casa depois que este lhe contou uma história comovente de como havia sido assaltado quando chegou a Curitiba, apenas com uma mala e o dinheiro contado para iniciar a sua vida. Juca o abrigou por quase uma semana, arrumou um emprego para ele e emprestou dinheiro para que ele pudesse se manter no primeiro mês. Eram grandes amigos ainda, mesmo depois de tanto tempo.

Mas se Juca era essa pessoa tão maravilhosa, por que estava sendo buscado por mim, de uma maneira tão sofrível, e condenado a uma eternidade de sofrimento. O quê? Eu não me apresentei ainda? Oh, me desculpe, acho que me empolguei e esqueci o principal. Eu sou o demônio da morte que está acompanhando Juca.

 

***

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Adam Mattos
O caçador de buzinas

Juca acordou no meio da noite, com a cabeça explodindo, como era habitual, mais do que ele gostaria. A sensação era a de agulhas dilacerando seu cérebro como se ele fosse apenas uma massa de modelar inútil cercada por um coco descascado. Ele se levantou, não teve a capacidade de calçar os chinelos, e foi até a cozinha tomar um analgésico com uísque, como fazia quase todas as manhãs. A cozinha era modesta, assim como o resto do seu apartamento, era o que podia pagar com o que sobrou após o divórcio — tinha uma mesa no centro com apenas duas cadeiras, apesar de apenas uma ser usada ele não se lembrava há quanto tempo. Juca encheu um copo com seu Wild Turkey, afinal de contas, como ele costumava dizer, “em algumas coisas não se economizava”, pegou dois comprimidos de analgésico e os tomou com o conteúdo do copo em um gole só. Depois de acender um cigarro Dunhill, ele começou a pensar na vida.

 

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A vida de Juca nem sempre foi assim, ele era uma pessoa feliz, tinha uma esposa que o amava, um emprego razoavelmente bom, apesar de sempre odiar o que fazia, o pagamento era ótimo, e ele tinha muitos amigos que o adoravam e sempre o consideraram o palhaço da turma. Apesar de tímido, nada que uns bons litros de cerveja e umas doses de uísque não resolvessem. Juca se considerava uma pessoa feliz, e todos à sua volta também. Ele adorava contar piadas, era uma pessoa politizada e todos adoravam ouvi-lo. Mesmo não concordando, seus argumentos eram no mínimo interessantes. Sempre ajudava quem precisava, mesmo que não pudesse, não podia ver alguém necessitado na rua que fazia das tripas coração para ajudar a pobre pessoa.

Certa vez, ele levou um mendigo para a própria casa depois que este lhe contou uma história comovente de como havia sido assaltado quando chegou a Curitiba, apenas com uma mala e o dinheiro contado para iniciar a sua vida. Juca o abrigou por quase uma semana, arrumou um emprego para ele e emprestou dinheiro para que ele pudesse se manter no primeiro mês. Eram grandes amigos ainda, mesmo depois de tanto tempo.

Mas se Juca era essa pessoa tão maravilhosa, por que estava sendo buscado por mim, de uma maneira tão sofrível, e condenado a uma eternidade de sofrimento. O quê? Eu não me apresentei ainda? Oh, me desculpe, acho que me empolguei e esqueci o principal. Eu sou o demônio da morte que está acompanhando Juca.

 

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