O caçador de buzinas - Adam Mattos
Adam Mattos
Sou advogado, aficcionado por leitura de todos os gêneros, e a minha grande paixão recém descoberta é a escrita.
Já publiquei em algumas antologias de terror e de temas variados, além de ter publicado também em antologias de poesias.
O maldito me fascina, tanto na leitura quanto na escrita, meu objetivo é causar calafrios em quem lê, e em mim mesmo que escrevo.
O feio, subversivo e errante é o mal aglutinador da espécie humana, que merece ser dominado pelo medo. Cuidado, aprecie minhas obras com a mente aberta e o estômago forte.







O caçador de buzinas

No dia seguinte, ele, assim como todos os outros colegas de escola, recebeu o vídeo de Clara nua, desacordada na cama de Carlos. Sentiu um embrulho no estômago e foi correndo vomitar, não por causa da bebida, mas pelo asco que estava sentindo por não ter feito nada para evitar aquilo. Você deve estar se perguntando se Juca não queria e não abusou da menina, teoricamente, não deve ser punido, certo? E você está certo, o caso é muito mais complexo. Veja bem, esse foi o primeiro contato que ele teve com algo que abriu um pouco o seu eu interior para mim, e, acredite, eu fico à espreita apenas aguardando para que alguém me dê uma chance. E quando alguém me dá… ahhh, aí eu pulo em cima e não largo mais. Mas voltando ao Juca, após vomitar, ele rapidamente apagou o vídeo do celular e ficou rezando para que aquilo não sobrasse para ele, para que ela não se lembrasse que ele estivera lá. Mas nem tinha como, pois ela estava completamente desacordada, ou tinha?

Naquela manhã ele saiu de casa apressado, sem tomar café da manhã, apesar dos protestos da mãe, e foi direto para a escola, determinado a saber de algo, a descobrir de uma vez por todas se aquilo ia ter consequências, pois a angústia o estava matando. No trajeto, ele não aguentou esperar pelo ônibus e foi correndo, a distância não era muito longa, mas no frio de julho, em Curitiba qualquer distância se torna uma tortura, mas não naquele dia, naquela manhã. Juca estava suando frio, tremendo de nervoso, e ignorava tudo à sua volta. Como ele pôde não fazer nada? Como pôde deixar aqueles idiotas fazerem aquilo com aquela pobre menina? E ele não sabia bem o que sentia, se era culpa, se era medo, tristeza ou uma mistura de tudo isso, somado a uma inocência perdida, que aos treze anos de idade ele sabia que nunca mais seria recuperada.

 

***

 

Juca agora tinha quarenta e dois anos e vivia uma vida repleta de arrependimentos e de rancores. Ele se lembrava da infância com certa nostalgia e saudade, da adolescência com confusão e arrependimento, e da vida adulta com desprezo e irresponsabilidade. Ele foi casado com uma mulher maravilhosa que o amava, mas tudo mudou em uma noite chuvosa de sábado, quando os dois voltavam para casa de um bar. O que nenhum deles sabia era que eu estava com eles dentro do carro. Na verdade, eu estava com Juca há um bom tempo, desde os treze anos de idade eu passei a monitorá-lo, indo e vindo, mas ultimamente eu estava continuamente ao seu lado.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7

Adam Mattos
O caçador de buzinas

No dia seguinte, ele, assim como todos os outros colegas de escola, recebeu o vídeo de Clara nua, desacordada na cama de Carlos. Sentiu um embrulho no estômago e foi correndo vomitar, não por causa da bebida, mas pelo asco que estava sentindo por não ter feito nada para evitar aquilo. Você deve estar se perguntando se Juca não queria e não abusou da menina, teoricamente, não deve ser punido, certo? E você está certo, o caso é muito mais complexo. Veja bem, esse foi o primeiro contato que ele teve com algo que abriu um pouco o seu eu interior para mim, e, acredite, eu fico à espreita apenas aguardando para que alguém me dê uma chance. E quando alguém me dá… ahhh, aí eu pulo em cima e não largo mais. Mas voltando ao Juca, após vomitar, ele rapidamente apagou o vídeo do celular e ficou rezando para que aquilo não sobrasse para ele, para que ela não se lembrasse que ele estivera lá. Mas nem tinha como, pois ela estava completamente desacordada, ou tinha?

Naquela manhã ele saiu de casa apressado, sem tomar café da manhã, apesar dos protestos da mãe, e foi direto para a escola, determinado a saber de algo, a descobrir de uma vez por todas se aquilo ia ter consequências, pois a angústia o estava matando. No trajeto, ele não aguentou esperar pelo ônibus e foi correndo, a distância não era muito longa, mas no frio de julho, em Curitiba qualquer distância se torna uma tortura, mas não naquele dia, naquela manhã. Juca estava suando frio, tremendo de nervoso, e ignorava tudo à sua volta. Como ele pôde não fazer nada? Como pôde deixar aqueles idiotas fazerem aquilo com aquela pobre menina? E ele não sabia bem o que sentia, se era culpa, se era medo, tristeza ou uma mistura de tudo isso, somado a uma inocência perdida, que aos treze anos de idade ele sabia que nunca mais seria recuperada.

 

***

 

Juca agora tinha quarenta e dois anos e vivia uma vida repleta de arrependimentos e de rancores. Ele se lembrava da infância com certa nostalgia e saudade, da adolescência com confusão e arrependimento, e da vida adulta com desprezo e irresponsabilidade. Ele foi casado com uma mulher maravilhosa que o amava, mas tudo mudou em uma noite chuvosa de sábado, quando os dois voltavam para casa de um bar. O que nenhum deles sabia era que eu estava com eles dentro do carro. Na verdade, eu estava com Juca há um bom tempo, desde os treze anos de idade eu passei a monitorá-lo, indo e vindo, mas ultimamente eu estava continuamente ao seu lado.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7