O caçador de buzinas - Adam Mattos
Adam Mattos
Sou advogado, aficcionado por leitura de todos os gêneros, e a minha grande paixão recém descoberta é a escrita.
Já publiquei em algumas antologias de terror e de temas variados, além de ter publicado também em antologias de poesias.
O maldito me fascina, tanto na leitura quanto na escrita, meu objetivo é causar calafrios em quem lê, e em mim mesmo que escrevo.
O feio, subversivo e errante é o mal aglutinador da espécie humana, que merece ser dominado pelo medo. Cuidado, aprecie minhas obras com a mente aberta e o estômago forte.







O caçador de buzinas

Desceu pelo elevador do prédio, com suas luzes piscando, era velho, e isso fez com que passasse em sua cabeça um cenário de filme de terror, onde alguém, na calada da noite, descia por um elevador ou subia escadas com as luzes piscando, dando um ar sombrio à cena. E ele não conseguiu deixar de pensar se nesse cenário ele seria a vítima ou o perseguidor. Ele se aproximou do seu carro, um Peugeot 206 prata, 2002, bem surrado, mas que era o seu xodó mesmo não se importando em cuidar e muito menos lavá-lo. Ele passou por tantas coisas com esse carro, que sentia como se fosse alguém da família, e de alguma forma era, já que depois do divórcio ele não ficou nem com os amigos, que ficaram do lado da ex-mulher, restando para ele apenas aquele carro velho, caindo aos pedaços.

Juca pegou a estrada e dirigiu em direção à única farmácia que sabia que estaria aberta naquele horário, pois ele não estava em condições de dirigir em vão. Caso você esteja se perguntando, sim, eu estava com ele. A dor era terrível e ele mal conseguia olhar para as ruas, estava difícil distinguir as luzes do sinaleiro e as dos freios dos carros à sua frente, que mesmo de madrugada eram frequentes. Chegando à avenida Batel, onde encontrava-se a farmácia, Juca pegou um cigarro do bolso do roupão, levou até a boca e acendeu. Naquele momento, ele se distraiu e avançou para a pista contrária por apenas um segundo, tempo suficiente para um carro que vinha na direção contrária buzinar para ele. Só que dessa vez uma buzinada longa, com raiva, seguida de um dedo do meio em riste e alguns xingamentos inaudíveis. Juca firmou o cigarro entre os lábios, jogou o isqueiro no banco ao lado e puxou o freio de mão, dando um cavalinho do pau e virando o carro em 180 graus antes de partir em disparada em direção ao carro que havia buzinado. O motorista do carro, assustado e sem saber o que estava acontecendo — pois é comum buzinar para os outros sob a proteção do carro, incomum é ter que enfrentar a consequência desse ato quando atrás do volante do carro contrário está um louco sob a minha influência —, tentou fugir furando o próximo sinal vermelho. Só que ele teve que frear bruscamente, uma vez que na esquina da Francisco Rocha um carro vinha a toda velocidade e não bateu por pouco, pois o carro do motorista buzinador, um Fiat Punto amarelo, parou de lado na pista após derrapar.

Juca parou na frente dele, com seu carro encostado no Punto, deixando-o colado entre o seu veículo e o meio-fio, evitando assim uma fuga. O motorista fechou todos os vidros e ficou do lado de dentro tentando se desculpar, olhando boquiaberto enquanto Juca descia com seu roupão aberto, cueca samba canção e barriga que caía por cima dela. Ele se dirigiu até o porta-malas do seu carro, pegou um pé de cabra e foi na direção do outro veículo, subindo no capô do carro e arrebentando o vidro a pancadas, fazendo voar estilhaços no rosto do sujeito que desesperadamente tentava se proteger dos cacos que voavam e lhe cortavam a face.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7

Adam Mattos
O caçador de buzinas

Desceu pelo elevador do prédio, com suas luzes piscando, era velho, e isso fez com que passasse em sua cabeça um cenário de filme de terror, onde alguém, na calada da noite, descia por um elevador ou subia escadas com as luzes piscando, dando um ar sombrio à cena. E ele não conseguiu deixar de pensar se nesse cenário ele seria a vítima ou o perseguidor. Ele se aproximou do seu carro, um Peugeot 206 prata, 2002, bem surrado, mas que era o seu xodó mesmo não se importando em cuidar e muito menos lavá-lo. Ele passou por tantas coisas com esse carro, que sentia como se fosse alguém da família, e de alguma forma era, já que depois do divórcio ele não ficou nem com os amigos, que ficaram do lado da ex-mulher, restando para ele apenas aquele carro velho, caindo aos pedaços.

Juca pegou a estrada e dirigiu em direção à única farmácia que sabia que estaria aberta naquele horário, pois ele não estava em condições de dirigir em vão. Caso você esteja se perguntando, sim, eu estava com ele. A dor era terrível e ele mal conseguia olhar para as ruas, estava difícil distinguir as luzes do sinaleiro e as dos freios dos carros à sua frente, que mesmo de madrugada eram frequentes. Chegando à avenida Batel, onde encontrava-se a farmácia, Juca pegou um cigarro do bolso do roupão, levou até a boca e acendeu. Naquele momento, ele se distraiu e avançou para a pista contrária por apenas um segundo, tempo suficiente para um carro que vinha na direção contrária buzinar para ele. Só que dessa vez uma buzinada longa, com raiva, seguida de um dedo do meio em riste e alguns xingamentos inaudíveis. Juca firmou o cigarro entre os lábios, jogou o isqueiro no banco ao lado e puxou o freio de mão, dando um cavalinho do pau e virando o carro em 180 graus antes de partir em disparada em direção ao carro que havia buzinado. O motorista do carro, assustado e sem saber o que estava acontecendo — pois é comum buzinar para os outros sob a proteção do carro, incomum é ter que enfrentar a consequência desse ato quando atrás do volante do carro contrário está um louco sob a minha influência —, tentou fugir furando o próximo sinal vermelho. Só que ele teve que frear bruscamente, uma vez que na esquina da Francisco Rocha um carro vinha a toda velocidade e não bateu por pouco, pois o carro do motorista buzinador, um Fiat Punto amarelo, parou de lado na pista após derrapar.

Juca parou na frente dele, com seu carro encostado no Punto, deixando-o colado entre o seu veículo e o meio-fio, evitando assim uma fuga. O motorista fechou todos os vidros e ficou do lado de dentro tentando se desculpar, olhando boquiaberto enquanto Juca descia com seu roupão aberto, cueca samba canção e barriga que caía por cima dela. Ele se dirigiu até o porta-malas do seu carro, pegou um pé de cabra e foi na direção do outro veículo, subindo no capô do carro e arrebentando o vidro a pancadas, fazendo voar estilhaços no rosto do sujeito que desesperadamente tentava se proteger dos cacos que voavam e lhe cortavam a face.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7