Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Aislan Coulter
Escritor de horror, mistério e ficção-científica. É contra o preconceito linguístico, acredita que a mosca sobrevoou as cabeças dos cangaceiros, que Hitler enganou Stalin e que Nero incendiou Roma. Adepto e defensor do teste de empatia Voight-Kampff Principais influências: Stephen King, Clive Barker, William Hjortsberg, Bram Stocker, Anne Rice, Peter Straub, William Peter Blatty, Jason Dark, Jack Woods, Philip K. Dick, Chuck Palahniuk, Irvine Welsh, Jon Ronson, William Golding, Joseph Conrad…





Aspersão

“Como fede o milho quando tocado pelo diabo”

Severino se levantou, deu aquela sacudida na roupa para tirar a terra e foi até o meio do canteiro. A mangueira repousava sobre as hortaliças e estava entupida. Ele se abaixou, cortou e balançou o tubo de borracha; as vísceras que obstruíam a passagem caíram. Enrolou a fita unindo as partes e seguiu para o velho galpão.
A mesma rotina todas as noites: vistoriava toda a plantação e o equipamento — checava o manômetro, os tubos e o conjunto motobomba. Em seguida, ligava o sistema de irrigação. Após as primeiras horas de trabalho, os orifícios ficavam entupidos. O agricultor, então, interrompia o seu passeio noturno.
As duas primeiras ruas ficavam ensopadas, a terra sugava o sangue até virar barro. Ele descia, irrigando os sulcos, banhando-os em toda espessura e profundidade. Transbordava sobre as hortaliças enquanto o sistema de aspersão cobria os canteiros numa desarmônica chuva sangrenta.
As couves exalavam o cheiro de carne humana; as alfaces e os rabanetes conseguiam disfarçar.
As estrelas se desenrolavam no céu — era a primeira noite de outono — e o vento assobiava por entre as calhas. Severino contemplava as vespas noturnas e os pernilongos que sobrevoavam os sulcos e as poças. Olhava para o adubo esparramado no canteiro e para o estrume encapado pelos intestinos na tentativa de entender a praticidade dos insetos que se encarregavam de abrir e deixar as fezes curtirem o solo. As saúvas trabalhavam em sintonia com as minhocas. Um ecossistema perfeito. Tudo isso mostrava apenas uma coisa: hipoteca paga!
No abatedouro, Severino fatiava a carne em três partes iguais. A primeira — a gordura —, destinada aos suínos, os grandes cachaços. A segunda era oferecida ao Espantalho; a terceira, à Deguibá.
As coisas funcionavam assim: sangue para os vegetais, carne para devoradores de alma.
Severino abria os portões às seis da tarde. Os turistas assistiam ao espetáculo dos cardumes no manancial. Permaneciam maravilhados com o pomar, com o rebanho, com a pastagem.
Quando o sol se despedia, Severino apresentava o milho e a soja. Rápido, a passos largos, cortava as ruas da plantação num zigue-zague foge de cobra. Trancava-se em sua casa e ligava o rádio para não ouvir o massacre do Espantalho.
Adormecia.

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Aislan Coulter
Aspersão

“Como fede o milho quando tocado pelo diabo”

Severino se levantou, deu aquela sacudida na roupa para tirar a terra e foi até o meio do canteiro. A mangueira repousava sobre as hortaliças e estava entupida. Ele se abaixou, cortou e balançou o tubo de borracha; as vísceras que obstruíam a passagem caíram. Enrolou a fita unindo as partes e seguiu para o velho galpão.
A mesma rotina todas as noites: vistoriava toda a plantação e o equipamento — checava o manômetro, os tubos e o conjunto motobomba. Em seguida, ligava o sistema de irrigação. Após as primeiras horas de trabalho, os orifícios ficavam entupidos. O agricultor, então, interrompia o seu passeio noturno.
As duas primeiras ruas ficavam ensopadas, a terra sugava o sangue até virar barro. Ele descia, irrigando os sulcos, banhando-os em toda espessura e profundidade. Transbordava sobre as hortaliças enquanto o sistema de aspersão cobria os canteiros numa desarmônica chuva sangrenta.
As couves exalavam o cheiro de carne humana; as alfaces e os rabanetes conseguiam disfarçar.
As estrelas se desenrolavam no céu — era a primeira noite de outono — e o vento assobiava por entre as calhas. Severino contemplava as vespas noturnas e os pernilongos que sobrevoavam os sulcos e as poças. Olhava para o adubo esparramado no canteiro e para o estrume encapado pelos intestinos na tentativa de entender a praticidade dos insetos que se encarregavam de abrir e deixar as fezes curtirem o solo. As saúvas trabalhavam em sintonia com as minhocas. Um ecossistema perfeito. Tudo isso mostrava apenas uma coisa: hipoteca paga!
No abatedouro, Severino fatiava a carne em três partes iguais. A primeira — a gordura —, destinada aos suínos, os grandes cachaços. A segunda era oferecida ao Espantalho; a terceira, à Deguibá.
As coisas funcionavam assim: sangue para os vegetais, carne para devoradores de alma.
Severino abria os portões às seis da tarde. Os turistas assistiam ao espetáculo dos cardumes no manancial. Permaneciam maravilhados com o pomar, com o rebanho, com a pastagem.
Quando o sol se despedia, Severino apresentava o milho e a soja. Rápido, a passos largos, cortava as ruas da plantação num zigue-zague foge de cobra. Trancava-se em sua casa e ligava o rádio para não ouvir o massacre do Espantalho.
Adormecia.

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