Cuazada - Aislan Coulter
Aislan Coulter
Escritor de horror, mistério e ficção-científica. É contra o preconceito linguístico, acredita que a mosca sobrevoou as cabeças dos cangaceiros, que Hitler enganou Stalin e que Nero incendiou Roma. Adepto e defensor do teste de empatia Voight-Kampff Principais influências: Stephen King, Clive Barker, William Hjortsberg, Bram Stocker, Anne Rice, Peter Straub, William Peter Blatty, Jason Dark, Jack Woods, Philip K. Dick, Chuck Palahniuk, Irvine Welsh, Jon Ronson, William Golding, Joseph Conrad…





Cuazada

1

A manobra mais difícil: a esquina. O anão engatou a marcha à ré e deixou os pneus amassarem o chão. O areeiro segurou as rodas traseiras. O gnomo acelerou, girou o volante e tirou de leve o pé do acelerador.
O Fenemê invadiu a ruela, passou perto das casas empoleiradas — centímetros as separavam da carroceria. Atrás do gigantesco e desengonçado automóvel estavam duas Peruas Kombi, brancas e enferrujadas, um ônibus coberto de poeira e quatro trailers; um Massey Ferguson com uma cabine adaptada — com marcas grossas de solda — era o último da fila e puxava as jaulas.
— O mágico Celestino, a Mulher Barbada, o Homem de duas cabeças. Venham, venham, venham!
A voz do anão era estridente.
— O horripilante palhaço cigano Cuazada, o sarcófago de Tutancâmon, a feiticeira Jezabel! As cabeças de Lampião e Maria Bonita, a Vespa Humana, a Mulher Gorila.
Esse era o circo cigano Mascovick, o circo do fim do mundo. Por onde passava, espalhava o terror. Os homens se perdiam com as prostitutas babilônicas, o gado era roubado, as casas, saqueadas; mulheres e crianças desapareciam.
— Venham ver a Medusa, Mandias, o filhote de Leviatã, o espelho do futuro. As gêmeas siamesas, o homem que sepultou Lázaro, o cangaceiro Meia-Noite!
Uma microfonia ensurdecedora sacudia a voz do homenzinho no final de cada frase.
As engrenagens do caminhão soavam como a pomba diluviana. Aos poucos, os moradores saíram de suas casas. O gnomo puxou um saco que transbordava de guloseimas e as atirou contra os pequenos. As crianças comiam a goma que se misturava com a terra. A chuva de doces estabeleceu uma sólida confiança. O anão sorria em meio a um tranquilo olhar de satisfação.

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Aislan Coulter
Cuazada

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A manobra mais difícil: a esquina. O anão engatou a marcha à ré e deixou os pneus amassarem o chão. O areeiro segurou as rodas traseiras. O gnomo acelerou, girou o volante e tirou de leve o pé do acelerador.
O Fenemê invadiu a ruela, passou perto das casas empoleiradas — centímetros as separavam da carroceria. Atrás do gigantesco e desengonçado automóvel estavam duas Peruas Kombi, brancas e enferrujadas, um ônibus coberto de poeira e quatro trailers; um Massey Ferguson com uma cabine adaptada — com marcas grossas de solda — era o último da fila e puxava as jaulas.
— O mágico Celestino, a Mulher Barbada, o Homem de duas cabeças. Venham, venham, venham!
A voz do anão era estridente.
— O horripilante palhaço cigano Cuazada, o sarcófago de Tutancâmon, a feiticeira Jezabel! As cabeças de Lampião e Maria Bonita, a Vespa Humana, a Mulher Gorila.
Esse era o circo cigano Mascovick, o circo do fim do mundo. Por onde passava, espalhava o terror. Os homens se perdiam com as prostitutas babilônicas, o gado era roubado, as casas, saqueadas; mulheres e crianças desapareciam.
— Venham ver a Medusa, Mandias, o filhote de Leviatã, o espelho do futuro. As gêmeas siamesas, o homem que sepultou Lázaro, o cangaceiro Meia-Noite!
Uma microfonia ensurdecedora sacudia a voz do homenzinho no final de cada frase.
As engrenagens do caminhão soavam como a pomba diluviana. Aos poucos, os moradores saíram de suas casas. O gnomo puxou um saco que transbordava de guloseimas e as atirou contra os pequenos. As crianças comiam a goma que se misturava com a terra. A chuva de doces estabeleceu uma sólida confiança. O anão sorria em meio a um tranquilo olhar de satisfação.

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