A Maldição da Lua - Aislan Coulter
Aislan Coulter
Escritor de horror, mistério e ficção-científica. É contra o preconceito linguístico, acredita que a mosca sobrevoou as cabeças dos cangaceiros, que Hitler enganou Stalin e que Nero incendiou Roma. Adepto e defensor do teste de empatia Voight-Kampff Principais influências: Stephen King, Clive Barker, William Hjortsberg, Bram Stocker, Anne Rice, Peter Straub, William Peter Blatty, Jason Dark, Jack Woods, Philip K. Dick, Chuck Palahniuk, Irvine Welsh, Jon Ronson, William Golding, Joseph Conrad…





A Maldição da Lua

O papo das balas deixou Anjico preocupado. Nicinha tinha razão, a munição não acabava. E até sobre a menstruação também: ―Qui diabu di muié qui fica sem pingá?‖. Reconhecer que ela estava certa seria um problema.
— Tu tá mi ouvinu, hômi?
Anjico levou o indicador à frente da boca:
— Shiiii! — tirou o revólver e fez sinal para Nicinha se abaixar.
A fera se agitou e saiu do cerco das árvores. O luar descobriu a nudez da besta. O gigantesco lobo tinha uma pelagem densa e desgrenhada. Em cima, a cor se acentuava quase negra. A fraqueza da tonalidade se expandia dos lados. O focinho grande e a cauda magra se encarregavam de esticar a fera; os quadris, o abdômen e o peitoral apresentavam características humanas.
O lobo encarou a lua e uivou.
Anjico queria atingir o lobisomem pelas costas. Olhou para a pistola e para o bicho — a criatura era do tamanho de um bezerro. Deu a volta e disparou. Nicinha atirou também. A chuva de balas parecia não incomodar o lobo. A criatura uivou e saltou, rasgando a neblina.
Os cangaceiros disparavam sem parar. O lobo era uma gigantesca silhueta que se estendia no fim da floresta. Quanto mais Anjico e Nicinha corriam, mais ficavam para trás.
O casal atravessou a pesada neblina. Andaram por horas até chegar a uma estreita estrada que os recepcionou com a frase:
―Sejam bem-vindos à cidade que Deus confiou aos vossos corações.‖
Os cangaceiros ficaram perplexos e admirados com o letreiro luminoso. A cruz luterana era grande e incandescente. As luzes penetraram nos olhos de Nicinha. De punhos cerrados, ela esfregou e piscou, quatro ou cinco vezes — uma cascata de partículas mal definidas se desfazia na sua frente.
— Qui diabu é isso, hômi? Tô li falanu qui tem coisa errada nisso tudo.

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Aislan Coulter
A Maldição da Lua

O papo das balas deixou Anjico preocupado. Nicinha tinha razão, a munição não acabava. E até sobre a menstruação também: ―Qui diabu di muié qui fica sem pingá?‖. Reconhecer que ela estava certa seria um problema.
— Tu tá mi ouvinu, hômi?
Anjico levou o indicador à frente da boca:
— Shiiii! — tirou o revólver e fez sinal para Nicinha se abaixar.
A fera se agitou e saiu do cerco das árvores. O luar descobriu a nudez da besta. O gigantesco lobo tinha uma pelagem densa e desgrenhada. Em cima, a cor se acentuava quase negra. A fraqueza da tonalidade se expandia dos lados. O focinho grande e a cauda magra se encarregavam de esticar a fera; os quadris, o abdômen e o peitoral apresentavam características humanas.
O lobo encarou a lua e uivou.
Anjico queria atingir o lobisomem pelas costas. Olhou para a pistola e para o bicho — a criatura era do tamanho de um bezerro. Deu a volta e disparou. Nicinha atirou também. A chuva de balas parecia não incomodar o lobo. A criatura uivou e saltou, rasgando a neblina.
Os cangaceiros disparavam sem parar. O lobo era uma gigantesca silhueta que se estendia no fim da floresta. Quanto mais Anjico e Nicinha corriam, mais ficavam para trás.
O casal atravessou a pesada neblina. Andaram por horas até chegar a uma estreita estrada que os recepcionou com a frase:
―Sejam bem-vindos à cidade que Deus confiou aos vossos corações.‖
Os cangaceiros ficaram perplexos e admirados com o letreiro luminoso. A cruz luterana era grande e incandescente. As luzes penetraram nos olhos de Nicinha. De punhos cerrados, ela esfregou e piscou, quatro ou cinco vezes — uma cascata de partículas mal definidas se desfazia na sua frente.
— Qui diabu é isso, hômi? Tô li falanu qui tem coisa errada nisso tudo.

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