A Mosca e o Cangaceiro - Aislan Coulter
Aislan Coulter
Escritor de horror, mistério e ficção-científica. É contra o preconceito linguístico, acredita que a mosca sobrevoou as cabeças dos cangaceiros, que Hitler enganou Stalin e que Nero incendiou Roma. Adepto e defensor do teste de empatia Voight-Kampff Principais influências: Stephen King, Clive Barker, William Hjortsberg, Bram Stocker, Anne Rice, Peter Straub, William Peter Blatty, Jason Dark, Jack Woods, Philip K. Dick, Chuck Palahniuk, Irvine Welsh, Jon Ronson, William Golding, Joseph Conrad…





A Mosca e o Cangaceiro

Você sabe quais são as palavras de encantamento?
Eu me refiro às palavras do senhor das moscas.
Sabe como nos encanta o maioral?
Pois bem, direi a você:
―Noc´triaet procquirare voluntas.‖
E assim ele atrai mais de 30 mil moscas para sobrevoarem os seus chifres fedorentos. Isso acontece no oitavo dia de nossas vidas — nós, insetos de vida curta, insignificantes e revoltados com o criador. Não ouvi a voz do maioral e aqui estou — eu, uma humilde mosca varejeira à beira da morte.
E quer saber? Se eu não fosse uma mosca, gostaria de ser uma lombriga. Este lance de ficar metido em porcaria é o meu negócio. Fico imaginando se eu pudesse ser esse verme. Vivendo como um peixe, com aquela maravilhosa flora, nadando em meio ao próprio alimento. Mas não posso reclamar. Foi sorte encontrar esta grande massa aqui.
É exatamente assim que eu gosto: nem mole, nem dura. Adoro mergulhar as minhas patas e sentir a temperatura aumentando. Forço um pouco mais; o calor vai subindo, subindo, subindo, até alcançar minhas asas geladas. Como agora.
Por que escolhi esse aqui? Escolhi pela textura e, é claro, por ser cocô de gente.
Há uma variedade de estrumes aqui. Você encontra de tudo. Você encontra de todos os tipos. Esta cidade está se acabando em merda. Tem sempre algum infeliz enfiando as botas num grande croquete. Aquele ali, próximo à praça, é de um cachorro sarnento. Vi quando o miserável despejou tudo. Assisti às pelotas caírem uma a uma. Esse tipo também faz a minha cabeça, tem uma coloração que me seduz.
Os cães sarnentos costumam ter uma bosta escura. A parte de cima é firme. Você anda por alguns segundos antes de começar a afundar — ando de um lado para o outro, faço movimentos rápidos, coisa de varejeira. Então você começa a sentir o peso de seu próprio corpo. O solo fecal começa a ceder. Você perde toda a agilidade e o controle das patas. Você precisa bater as asas — de leve — para manter o equilíbrio. Ai, plocksssplusss, você se depara com o lago amarelo, às vezes verde.

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Aislan Coulter
A Mosca e o Cangaceiro

Você sabe quais são as palavras de encantamento?
Eu me refiro às palavras do senhor das moscas.
Sabe como nos encanta o maioral?
Pois bem, direi a você:
―Noc´triaet procquirare voluntas.‖
E assim ele atrai mais de 30 mil moscas para sobrevoarem os seus chifres fedorentos. Isso acontece no oitavo dia de nossas vidas — nós, insetos de vida curta, insignificantes e revoltados com o criador. Não ouvi a voz do maioral e aqui estou — eu, uma humilde mosca varejeira à beira da morte.
E quer saber? Se eu não fosse uma mosca, gostaria de ser uma lombriga. Este lance de ficar metido em porcaria é o meu negócio. Fico imaginando se eu pudesse ser esse verme. Vivendo como um peixe, com aquela maravilhosa flora, nadando em meio ao próprio alimento. Mas não posso reclamar. Foi sorte encontrar esta grande massa aqui.
É exatamente assim que eu gosto: nem mole, nem dura. Adoro mergulhar as minhas patas e sentir a temperatura aumentando. Forço um pouco mais; o calor vai subindo, subindo, subindo, até alcançar minhas asas geladas. Como agora.
Por que escolhi esse aqui? Escolhi pela textura e, é claro, por ser cocô de gente.
Há uma variedade de estrumes aqui. Você encontra de tudo. Você encontra de todos os tipos. Esta cidade está se acabando em merda. Tem sempre algum infeliz enfiando as botas num grande croquete. Aquele ali, próximo à praça, é de um cachorro sarnento. Vi quando o miserável despejou tudo. Assisti às pelotas caírem uma a uma. Esse tipo também faz a minha cabeça, tem uma coloração que me seduz.
Os cães sarnentos costumam ter uma bosta escura. A parte de cima é firme. Você anda por alguns segundos antes de começar a afundar — ando de um lado para o outro, faço movimentos rápidos, coisa de varejeira. Então você começa a sentir o peso de seu próprio corpo. O solo fecal começa a ceder. Você perde toda a agilidade e o controle das patas. Você precisa bater as asas — de leve — para manter o equilíbrio. Ai, plocksssplusss, você se depara com o lago amarelo, às vezes verde.

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