A gota - Alan Cassol
Alan Cassol
Contemporâneo de McQuade, o Lobo solitário, nasci para dar voadora nos dogmas do pensamento binário.
Escrevo para não afugentar os fantasmas incríveis que sobrevoam e espantam as ruínas de uma lasca da minha mente que ainda é adubada com farelinhos de vergonha na cara.
Viajei durante anos nos vagões empoeirados dos beatniks, cortei lenha com Tolstói e Dostoiévski, bebi pinga com Cervantes, fui chofer do Henry Miller, fiz cócegas nos pés da Brontë, e batizei a água do Kafka.
Hoje observo o movimento e saio por aí com um cesto de palha cheio de medalhas para condecorar os responsavéis pelas minhas inspirações.





A gota

− Puta merda! Que ótimo final de turno. – Álvaro sorriu de apavorado.

A morte de Bafo de Leão foi tratada como suicídio, um peculiar jeito de acabar com a própria existência, mas, suicídio. Depois de executadas as providências cabíveis, o faxineiro foi chamado para “limpar a sujeira” da cela A. O carcereiro aproveitou para pedir ao faxineiro que ajeitasse as acomodações das celas B e C, já que na semana seguinte elas acomodariam dois novos “hospedes”.

Dois dias após o “suicídio” de Bafo de Leão, Marcelo ouviu Álvaro e um guarda comentando sobre a forma como o corpo do faxineiro foi encontrado em casa.

− Soube do rapaz da faxina, Roberto? – murmurou o guarda para Álvaro. –O padrasto dele o encontrou essa manhã deitado na cama com os olhos e boca vertendo sangue feito o chafariz do quintal do Drácula.

− Coitado! – Álvaro engoliu a saliva. – Com certeza isso justifica a falta dele no serviço.

− E não foi essa a parte mais estranha – continuou o guarda – O legista disse que a característica da morte foi idêntica à de um afogamento. Parece que o corpo estava todo inchado e flácido.

− Nossa senhora!

− O mais estranho nem foi isso. O pessoal ali de fora falou que, ao abrir a barriga do defunto, o legista levou um banho de sangue na cara, e o chão e as paredes do IML ficaram lavadas de sangue.

− Isso não pode acontecer. O rapaz devia ter uns 75kg, ele não poderia ter mais que 5 litros de sangue no corpo, certo?

− Confere – respondeu o guarda assentindo com a cabeça – O legista ficou chocado, pois a quantidade parecia ser de mais de 15 litros.

Marcelo estava na página 173 do Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, quando o cassetete de Álvaro estalou nas grades da cela.

− A madame pode fechar o livrinho porque é hora de dormir – disse o carcereiro já de costas e se afastando. – Ah, cuidado com o fantasma do Bafo de Leão.

O carcereiro sorriu enquanto apagava a última luz do corredor.

Com o braço esquerdo Marcelo colocou o livro no chão e se concentrou em tentar dormir para afastar os fantasmas dos estranhos acontecimentos. O fantasma do velho Leão também estava nos planos.

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Alan Cassol
A gota

− Puta merda! Que ótimo final de turno. – Álvaro sorriu de apavorado.

A morte de Bafo de Leão foi tratada como suicídio, um peculiar jeito de acabar com a própria existência, mas, suicídio. Depois de executadas as providências cabíveis, o faxineiro foi chamado para “limpar a sujeira” da cela A. O carcereiro aproveitou para pedir ao faxineiro que ajeitasse as acomodações das celas B e C, já que na semana seguinte elas acomodariam dois novos “hospedes”.

Dois dias após o “suicídio” de Bafo de Leão, Marcelo ouviu Álvaro e um guarda comentando sobre a forma como o corpo do faxineiro foi encontrado em casa.

− Soube do rapaz da faxina, Roberto? – murmurou o guarda para Álvaro. –O padrasto dele o encontrou essa manhã deitado na cama com os olhos e boca vertendo sangue feito o chafariz do quintal do Drácula.

− Coitado! – Álvaro engoliu a saliva. – Com certeza isso justifica a falta dele no serviço.

− E não foi essa a parte mais estranha – continuou o guarda – O legista disse que a característica da morte foi idêntica à de um afogamento. Parece que o corpo estava todo inchado e flácido.

− Nossa senhora!

− O mais estranho nem foi isso. O pessoal ali de fora falou que, ao abrir a barriga do defunto, o legista levou um banho de sangue na cara, e o chão e as paredes do IML ficaram lavadas de sangue.

− Isso não pode acontecer. O rapaz devia ter uns 75kg, ele não poderia ter mais que 5 litros de sangue no corpo, certo?

− Confere – respondeu o guarda assentindo com a cabeça – O legista ficou chocado, pois a quantidade parecia ser de mais de 15 litros.

Marcelo estava na página 173 do Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, quando o cassetete de Álvaro estalou nas grades da cela.

− A madame pode fechar o livrinho porque é hora de dormir – disse o carcereiro já de costas e se afastando. – Ah, cuidado com o fantasma do Bafo de Leão.

O carcereiro sorriu enquanto apagava a última luz do corredor.

Com o braço esquerdo Marcelo colocou o livro no chão e se concentrou em tentar dormir para afastar os fantasmas dos estranhos acontecimentos. O fantasma do velho Leão também estava nos planos.

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