A gota - Alan Cassol
Alan Cassol
Contemporâneo de McQuade, o Lobo solitário, nasci para dar voadora nos dogmas do pensamento binário.
Escrevo para não afugentar os fantasmas incríveis que sobrevoam e espantam as ruínas de uma lasca da minha mente que ainda é adubada com farelinhos de vergonha na cara.
Viajei durante anos nos vagões empoeirados dos beatniks, cortei lenha com Tolstói e Dostoiévski, bebi pinga com Cervantes, fui chofer do Henry Miller, fiz cócegas nos pés da Brontë, e batizei a água do Kafka.
Hoje observo o movimento e saio por aí com um cesto de palha cheio de medalhas para condecorar os responsavéis pelas minhas inspirações.





A gota

− Agora eu vos perdoo – disse a face que se formou na poça de sangue.

A casa de madeira branca e marrom ficava pouco mais que 3 quilômetros do centro da cidade. Na varanda estava sentado um homem de 58 anos. Ele se colocou a olhar para o horizonte após ter caído em prantos ao relembrar a história que o jornal estampou na capa. A nota do jornal: “Hoje, completa 1 mês do trágico suicídio do jovem padre Márcio Alterman, filho do famoso milionário do ramo de créditos pessoais, Aparício Alterman. O jovem foi encontrado pendurado por uma corda no altar da igreja em que transmitia a palavra sagrada. Nossos mais sinceros votos de prosperidade para toda a família Alterman”.

Márcio levava a palavra de Deus não só para os que frequentavam a igreja, ele também praticava o bondoso ato de levar uma palavra de conforto para os presidiários. O corredor do carcereiro Álvaro também recebeu a visita do jovem padre.

Naquela época, Álvaro acabara de se separar da esposa. Ele colocou a culpa na igreja e no padre Márcio. Para ele, as frequentes visitas de sua mulher à igreja, fizeram com que ela visse o alcoolismo como um problema incurável. Ela deixou Álvaro porque ele a traia com a irmã.

A visita do padre Márcio à prisão em que Marcelo se encontrava foi vista como uma oportunidade de vingança para Álvaro.

− Ouçam, meninas, tenho uma surpresa – Álvaro anunciava a visita do padre Márcio enquanto o amarrava contra as grades da cela A.

Bafo de Leão não demorou mais do que um minuto pra cravar o seu pau velho no rabo do jovem padre. O carcereiro abriu as celas de João e Marcelo e os chamou para a brincadeira. Todos estupraram o pobre padre inúmeras vezes. O faxineiro ficou de vigia, afinal, uns trocados a mais faria uma grande diferença para ele no fim do mês. Depois que todos saciaram a desprezível vontade, Marcelo largou um baita chute na boca de Márcio. Uma gorda gota de sangue caiu na perna da cama de Bafo de Leão.

A gota que ficou alojada na cela A, carregou a mais pura raiva que uma pessoa pode levar para a eternidade. O padre Márcio foi até a igreja e se enforcou sob o teto que cobria o altar da igreja.

− Oh, Deus, me perdoe, pois eu pequei.

O padre foi para um lugar desconhecido, mas sua gota de sangue, não.

A gota fodeu com a vida de todos.

 

Páginas: 1 2 3 4 5

Alan Cassol
A gota

− Agora eu vos perdoo – disse a face que se formou na poça de sangue.

A casa de madeira branca e marrom ficava pouco mais que 3 quilômetros do centro da cidade. Na varanda estava sentado um homem de 58 anos. Ele se colocou a olhar para o horizonte após ter caído em prantos ao relembrar a história que o jornal estampou na capa. A nota do jornal: “Hoje, completa 1 mês do trágico suicídio do jovem padre Márcio Alterman, filho do famoso milionário do ramo de créditos pessoais, Aparício Alterman. O jovem foi encontrado pendurado por uma corda no altar da igreja em que transmitia a palavra sagrada. Nossos mais sinceros votos de prosperidade para toda a família Alterman”.

Márcio levava a palavra de Deus não só para os que frequentavam a igreja, ele também praticava o bondoso ato de levar uma palavra de conforto para os presidiários. O corredor do carcereiro Álvaro também recebeu a visita do jovem padre.

Naquela época, Álvaro acabara de se separar da esposa. Ele colocou a culpa na igreja e no padre Márcio. Para ele, as frequentes visitas de sua mulher à igreja, fizeram com que ela visse o alcoolismo como um problema incurável. Ela deixou Álvaro porque ele a traia com a irmã.

A visita do padre Márcio à prisão em que Marcelo se encontrava foi vista como uma oportunidade de vingança para Álvaro.

− Ouçam, meninas, tenho uma surpresa – Álvaro anunciava a visita do padre Márcio enquanto o amarrava contra as grades da cela A.

Bafo de Leão não demorou mais do que um minuto pra cravar o seu pau velho no rabo do jovem padre. O carcereiro abriu as celas de João e Marcelo e os chamou para a brincadeira. Todos estupraram o pobre padre inúmeras vezes. O faxineiro ficou de vigia, afinal, uns trocados a mais faria uma grande diferença para ele no fim do mês. Depois que todos saciaram a desprezível vontade, Marcelo largou um baita chute na boca de Márcio. Uma gorda gota de sangue caiu na perna da cama de Bafo de Leão.

A gota que ficou alojada na cela A, carregou a mais pura raiva que uma pessoa pode levar para a eternidade. O padre Márcio foi até a igreja e se enforcou sob o teto que cobria o altar da igreja.

− Oh, Deus, me perdoe, pois eu pequei.

O padre foi para um lugar desconhecido, mas sua gota de sangue, não.

A gota fodeu com a vida de todos.

 

Páginas: 1 2 3 4 5