A Salvação Veio do Espaço - Alan Cassol
Alan Cassol
Contemporâneo de McQuade, o Lobo solitário, nasci para dar voadora nos dogmas do pensamento binário.
Escrevo para não afugentar os fantasmas incríveis que sobrevoam e espantam as ruínas de uma lasca da minha mente que ainda é adubada com farelinhos de vergonha na cara.
Viajei durante anos nos vagões empoeirados dos beatniks, cortei lenha com Tolstói e Dostoiévski, bebi pinga com Cervantes, fui chofer do Henry Miller, fiz cócegas nos pés da Brontë, e batizei a água do Kafka.
Hoje observo o movimento e saio por aí com um cesto de palha cheio de medalhas para condecorar os responsavéis pelas minhas inspirações.





A Salvação Veio do Espaço

Acordei na tarde vermelha de uma terça-feira com o apito da fábrica ressoando nos meus tímpanos como se fosse o vai e vem de uma britadeira com um punhal banhado à pimenta Carolina Reaper adaptado na ponta. Eu perdi a hora, eu nunca mais voltaria àquela fábrica onde os meus sonhos foram empedrados e mantidos entranhados nas minhas tripas. Eu nunca mais me permitiria ser um frango depenado na esteira da morte.

Meu corpo estava tão cansado, que resolvi não ligar a TV, o controle remoto já não fazia parte do meu quarto imundo há tempos. Depois de alguns devaneios sobre como eu seria se fosse um Aborígene australiano durante a invasão britânica por volta de 1788 e de como eu entraria em acordo com os diabos-da-tasmânia para que eles mordessem os traseiros brancos dos ingleses, eu finalmente levantei e fui até a sacada com uma cerveja na mão — Well, i woke up this morning, i got myself a beer —. Lá do alto, eu fitei, como habitualmente, os versos (aqueles que aparecem no compacto “Na Hora do Almoço” de 1971) do Belchior, pichados em um muro semicoberto com trepadeiras. Os malditos versos:

“ Que eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
   Deixemos de coisa, cuidemos da vida
   Pois senão chega a morte ou coisa parecida
   E nos arrasta moço sem ter visto a vida. ”

Eu já estava na rua, quando me deparei com dois jovens discutindo sobre qual era a melhor direção a ser tomada pelo país, se era a direita ou a esquerda, se era o vermelho ou se era o azul. Eu pensei em mandar os dois para dar com o nariz contra a calçada, assim o vermelho do sangue entraria em contraste com o azul desbotado das lajotas. Mas eu passei reto, afinal, eu não me importava mais, eu era um desempregado feliz, nada mais me interessava, eu só queria entrar no próximo bar e encher a cara. Antes de dobrar a esquina, parei em frente ao “muro das frases malditas”, joguei alguns trocados para os mendigos beberrões que ali estavam sentados e enraizados na calçada, mas não antes de largar a velha frase semanal: “é para a cachaça, não é mesmo? Não me venham mentir que é para comprar pão e banana, que eu não vou acreditar. Eu sou o mercador da morte do reino do absinto, não vou financiá-los para que fiquem com a barba cheia de migalhas de pão e com os beiços babando banana melada e pedindo moedas para as doces senhoritas que aqui passam”. Por um instante, eu pensei que seria melhor ficar ali com eles.
Andava na direção do bar mais próximo, quando percebi um tumulto em frente a um posto de combustível do outro lado da rua. Me aproximei.

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Alan Cassol
A Salvação Veio do Espaço

Acordei na tarde vermelha de uma terça-feira com o apito da fábrica ressoando nos meus tímpanos como se fosse o vai e vem de uma britadeira com um punhal banhado à pimenta Carolina Reaper adaptado na ponta. Eu perdi a hora, eu nunca mais voltaria àquela fábrica onde os meus sonhos foram empedrados e mantidos entranhados nas minhas tripas. Eu nunca mais me permitiria ser um frango depenado na esteira da morte.

Meu corpo estava tão cansado, que resolvi não ligar a TV, o controle remoto já não fazia parte do meu quarto imundo há tempos. Depois de alguns devaneios sobre como eu seria se fosse um Aborígene australiano durante a invasão britânica por volta de 1788 e de como eu entraria em acordo com os diabos-da-tasmânia para que eles mordessem os traseiros brancos dos ingleses, eu finalmente levantei e fui até a sacada com uma cerveja na mão — Well, i woke up this morning, i got myself a beer —. Lá do alto, eu fitei, como habitualmente, os versos (aqueles que aparecem no compacto “Na Hora do Almoço” de 1971) do Belchior, pichados em um muro semicoberto com trepadeiras. Os malditos versos:

“ Que eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
   Deixemos de coisa, cuidemos da vida
   Pois senão chega a morte ou coisa parecida
   E nos arrasta moço sem ter visto a vida. ”

Eu já estava na rua, quando me deparei com dois jovens discutindo sobre qual era a melhor direção a ser tomada pelo país, se era a direita ou a esquerda, se era o vermelho ou se era o azul. Eu pensei em mandar os dois para dar com o nariz contra a calçada, assim o vermelho do sangue entraria em contraste com o azul desbotado das lajotas. Mas eu passei reto, afinal, eu não me importava mais, eu era um desempregado feliz, nada mais me interessava, eu só queria entrar no próximo bar e encher a cara. Antes de dobrar a esquina, parei em frente ao “muro das frases malditas”, joguei alguns trocados para os mendigos beberrões que ali estavam sentados e enraizados na calçada, mas não antes de largar a velha frase semanal: “é para a cachaça, não é mesmo? Não me venham mentir que é para comprar pão e banana, que eu não vou acreditar. Eu sou o mercador da morte do reino do absinto, não vou financiá-los para que fiquem com a barba cheia de migalhas de pão e com os beiços babando banana melada e pedindo moedas para as doces senhoritas que aqui passam”. Por um instante, eu pensei que seria melhor ficar ali com eles.
Andava na direção do bar mais próximo, quando percebi um tumulto em frente a um posto de combustível do outro lado da rua. Me aproximei.

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