Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Alan Cassol
Contemporâneo de McQuade, o Lobo solitário, nasci para dar voadora nos dogmas do pensamento binário.
Escrevo para não afugentar os fantasmas incríveis que sobrevoam e espantam as ruínas de uma lasca da minha mente que ainda é adubada com farelinhos de vergonha na cara.
Viajei durante anos nos vagões empoeirados dos beatniks, cortei lenha com Tolstói e Dostoiévski, bebi pinga com Cervantes, fui chofer do Henry Miller, fiz cócegas nos pés da Brontë, e batizei a água do Kafka.
Hoje observo o movimento e saio por aí com um cesto de palha cheio de medalhas para condecorar os responsavéis pelas minhas inspirações.





Um conto de natal ao som de Neil Young

Havia uma estrada que atenuava os 207 metros de altura de um penhasco revestido com pedras vermelhas, mas, que naquele ano estava com uma tonalidade lilás, tudo isso porque um gelo azul se estacou nas pontas cortantes das rochas escarlates do gigante penedo.

A estrada, que naquele trecho beirava o penhasco com um formato de meio losango, era tão bonita quanto soturna, pois naquela específica região não havia árvore nenhuma. Nem os pássaros ousavam sobrevoar aquele local inóspito.

Foi lá, no ano em que morri pela terceira vez, quando fui punido a viver como um cacto à beira do “Cliff”, que me permiti a ouvir o diálogo mais estranho e intrigante da minha seca e monótona terceira vida: a conversa entre o vento e a estrada.

A conversa se estendeu por mais de 6 anos, mas vou tentar resumir o final, direto para o momento em que o vento desolou a estrada.

— Você, com seu traçado tentador, sempre acaba me trazendo problemas, sempre me coloca na situação de carrasco, sabendo que sou eu quem tenta soprar na sua direção. — disse o vento.

— Nada disso! — Retrucou a estrada. — É você que os atrai para cá. É você que os envenena com a falsa sensação de levá-los a um paraíso sem dor, sem culpa, sem medo… a única alternativa que tenho é me mudar daqui.

— O que você parece não entender é que eu não quero mais ceder o meu espaço para essas pobres almas desesperançadas se lançarem à morte. Você não pode simplesmente se mudar daqui. Você é o caminho, você as leva até aqui, mas eu não vou culpar o seu traçado. São elas que escolhem a cor da corda, a gravata e o nó. Não acha que podemos entrar em um acordo e deixar que tudo isso aconteça de um jeito que não nos faça sentir culpa? Se a gente apenas existir e deixar para os espinhos a culpa de todas as fraquezas da vida desses miseráveis?

A estrada, como qualquer submissa dos que movem montanhas, resolveu acatar a ideia do vento.

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Alan Cassol
Um conto de natal ao som de Neil Young

Havia uma estrada que atenuava os 207 metros de altura de um penhasco revestido com pedras vermelhas, mas, que naquele ano estava com uma tonalidade lilás, tudo isso porque um gelo azul se estacou nas pontas cortantes das rochas escarlates do gigante penedo.

A estrada, que naquele trecho beirava o penhasco com um formato de meio losango, era tão bonita quanto soturna, pois naquela específica região não havia árvore nenhuma. Nem os pássaros ousavam sobrevoar aquele local inóspito.

Foi lá, no ano em que morri pela terceira vez, quando fui punido a viver como um cacto à beira do “Cliff”, que me permiti a ouvir o diálogo mais estranho e intrigante da minha seca e monótona terceira vida: a conversa entre o vento e a estrada.

A conversa se estendeu por mais de 6 anos, mas vou tentar resumir o final, direto para o momento em que o vento desolou a estrada.

— Você, com seu traçado tentador, sempre acaba me trazendo problemas, sempre me coloca na situação de carrasco, sabendo que sou eu quem tenta soprar na sua direção. — disse o vento.

— Nada disso! — Retrucou a estrada. — É você que os atrai para cá. É você que os envenena com a falsa sensação de levá-los a um paraíso sem dor, sem culpa, sem medo… a única alternativa que tenho é me mudar daqui.

— O que você parece não entender é que eu não quero mais ceder o meu espaço para essas pobres almas desesperançadas se lançarem à morte. Você não pode simplesmente se mudar daqui. Você é o caminho, você as leva até aqui, mas eu não vou culpar o seu traçado. São elas que escolhem a cor da corda, a gravata e o nó. Não acha que podemos entrar em um acordo e deixar que tudo isso aconteça de um jeito que não nos faça sentir culpa? Se a gente apenas existir e deixar para os espinhos a culpa de todas as fraquezas da vida desses miseráveis?

A estrada, como qualquer submissa dos que movem montanhas, resolveu acatar a ideia do vento.

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