Aposentadoria - Ana Rosenrot
Ana Rosenrot
Ana Rosenrot, de Jacareí – SP, é escritora, editora, cineasta trash e pesquisadora de cinema, integrou antologias nacionais e internacionais e participou de várias edições do projeto "A Arte do Terror". Assina a "Coluna CULTíssimo", especializada em cinema e universo cult. No cinema, trabalha com produções independentes, longas e curtas-metragens, quase sempre voltados para o terror e o trash. Recebeu também 7 estatuetas do Prêmio "Corvo de Gesso" (2013-14-15-17), conhecido como "O Oscar do Cinema Trash" e foi curadora das duas edições da “Monstro – Mostra de Cinema Fantástico de Jacareí”(2015-16).
É criadora e editora da Revista LiteraLivre, uma publicação bimestral que uni escritores independentes e autora do livro "Cinema e Cult – vol. 1", lançado em 2018.
http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot/
https://www.facebook.com/AnaRosenrott/
Instagram: @anarosenrot





Aposentadoria

Naquela manhã fresca de agosto, Pedro Paulo, trabalhador braçal recém-aposentado e viúvo, saiu de casa no horário de sempre (7:30 da manhã), para sua caminhada diária. Normalmente ele já saía irritado, antecipando o cansaço e o falatório chato e rotineiro dos outros velhos, que só pensavam e falavam em netos e filhos que não viam nunca, doenças novas e antigas e em pessoas que já tinham morrido há séculos. Mas naquele dia, ele estava estranhamente bem-disposto, contente até, e sentia – talvez pela primeira vez desde que tinha parado de trabalhar – algum entusiasmo pela vida.

Andando vigorosamente, ele levanta a cabeça grisalha protegida por um boné xadrez e contempla o azul do céu e as andorinhas que voam tranquilas. Agradece mentalmente a Deus pela boa saúde, por estar vivo e lúcido aos 78 anos e pela sorte de não ter esbarrado em nenhum dos seus “novos” amigos.

“Ainda tenho muito o que viver!!” – pensa.

Fazendo planos para tornar sua aposentadoria mais produtiva, Pedro Paulo atravessa a rua distraído e é esmagado por um ônibus, morrendo na hora. A velocidade do impacto dilacera seu corpo, espalhando entranhas, carne e sangue pela calçada, manchando de vermelho aquela manhã de agosto que prometia tanto.

Os curiosos, sempre em busca de diversão na desgraça alheia, contemplam os restos mortais do aposentado; um cão sarnento encontra um dos olhos do homem no chão, o mastiga como se fosse um chiclete e ninguém diz nada. Rapidamente eles se cansam do espetáculo matutino e vão deixando o local, o ônibus é retirado, o trânsito liberado e a rotina recomeça.

Vida que segue, menos para Pedro Paulo.

Ana Rosenrot
Aposentadoria

Naquela manhã fresca de agosto, Pedro Paulo, trabalhador braçal recém-aposentado e viúvo, saiu de casa no horário de sempre (7:30 da manhã), para sua caminhada diária. Normalmente ele já saía irritado, antecipando o cansaço e o falatório chato e rotineiro dos outros velhos, que só pensavam e falavam em netos e filhos que não viam nunca, doenças novas e antigas e em pessoas que já tinham morrido há séculos. Mas naquele dia, ele estava estranhamente bem-disposto, contente até, e sentia – talvez pela primeira vez desde que tinha parado de trabalhar – algum entusiasmo pela vida.

Andando vigorosamente, ele levanta a cabeça grisalha protegida por um boné xadrez e contempla o azul do céu e as andorinhas que voam tranquilas. Agradece mentalmente a Deus pela boa saúde, por estar vivo e lúcido aos 78 anos e pela sorte de não ter esbarrado em nenhum dos seus “novos” amigos.

“Ainda tenho muito o que viver!!” – pensa.

Fazendo planos para tornar sua aposentadoria mais produtiva, Pedro Paulo atravessa a rua distraído e é esmagado por um ônibus, morrendo na hora. A velocidade do impacto dilacera seu corpo, espalhando entranhas, carne e sangue pela calçada, manchando de vermelho aquela manhã de agosto que prometia tanto.

Os curiosos, sempre em busca de diversão na desgraça alheia, contemplam os restos mortais do aposentado; um cão sarnento encontra um dos olhos do homem no chão, o mastiga como se fosse um chiclete e ninguém diz nada. Rapidamente eles se cansam do espetáculo matutino e vão deixando o local, o ônibus é retirado, o trânsito liberado e a rotina recomeça.

Vida que segue, menos para Pedro Paulo.