Mau-olhado - Ana Rosenrot
Ana Rosenrot
Ana Rosenrot, de Jacareí – SP, é escritora, editora, cineasta trash e pesquisadora de cinema, integrou antologias nacionais e internacionais e participou de várias edições do projeto "A Arte do Terror". Assina a "Coluna CULTíssimo", especializada em cinema e universo cult. No cinema, trabalha com produções independentes, longas e curtas-metragens, quase sempre voltados para o terror e o trash. Recebeu também 7 estatuetas do Prêmio "Corvo de Gesso" (2013-14-15-17), conhecido como "O Oscar do Cinema Trash" e foi curadora das duas edições da “Monstro – Mostra de Cinema Fantástico de Jacareí”(2015-16).
É criadora e editora da Revista LiteraLivre, uma publicação bimestral que uni escritores independentes e autora do livro "Cinema e Cult – vol. 1", lançado em 2018.
http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot/
https://www.facebook.com/AnaRosenrott/
Instagram: @anarosenrot





Mau-olhado

Em poucos minutos, o bebê já estava clareando e respirando melhor, para alívio de seus pais.

Depois, ela fez o sinal da cruz, rezou um Pai Nosso, uma Ave-Maria, pegou o galho de arruda, uma planta estranha (uma raiz que se parecia com o corpo humano), um rolo de barbante e para o meu espanto, lâminas de barbear enferrujadas. Juntou as duas plantas e as lâminas, amarrou com o barbante e ateou fogo, enquanto recitava um tipo de cântico numa língua estranha. Então ela parou, ficou alguns segundos olhando para o vazio como se estivesse em transe e depois, muito séria, falou para o casal:

– O filho de vocês não corre mais perigo e eu garanti com a minha reza que a pessoa invejosa que causou toda essa desgraça, vai pagar caro pela morte do menino inocente e pela ganância. E será logo, a justiça de Deus não falha!!

Neste momento, ouviu-se um grito pavoroso vindo do quarto ao lado e todos correram até lá. Eu nunca consegui esquecer o que presenciei: a madrinha de batismo dos bebês, que se hospedara na casa para “ajudar” com as crianças, estava ajoelhada no chão, com os olhos arregalados, berrando com uma voz grossa, masculina e de repente ela parou, escancarou a boca e dali começou a sair uma coisa branca e asquerosa, que a mulher ia puxando, desesperada; aquela “coisa” foi se amontoando no chão e formando uma massa densa e sangrenta: ela estava vomitando o barbante com as lâminas!! Fios e mais fios de barbante ensanguentado iam saindo da boca da mulher, sufocando-a, enquanto um fedor podre impregnava o ambiente.

Vovó, abrindo os braços, impediu que as pessoas se aproximassem para ajudá-la, deixando que ela cumprisse seu destino.

Aquilo parecia que nunca ia ter fim, a mulher vomitava e vomitava cada vez mais, fazendo uns barulhos horríveis, as lâminas dilacerando sua garganta, sangue e vômito jorrando; até que, finalmente, ela tombou no chão, morta.

Todos os presentes ficaram parados, atônitos com o que tinham presenciado, mas ninguém foi capaz de sentir pena da madrinha invejosa e sua merecida morte.

Não me lembro de quase nada depois disso; minha avó praticamente me arrastou de lá, eu estava em estado de choque e passei a noite toda febril e com pesadelos. No dia seguinte, de tanto eu chorar e pedir, vovó ligou para os meus pais e eles vieram me buscar.

Eu nunca mais vi minha avó depois daquele dia e ninguém jamais falou comigo sobre o que aconteceu.

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Ana Rosenrot
Mau-olhado

Em poucos minutos, o bebê já estava clareando e respirando melhor, para alívio de seus pais.

Depois, ela fez o sinal da cruz, rezou um Pai Nosso, uma Ave-Maria, pegou o galho de arruda, uma planta estranha (uma raiz que se parecia com o corpo humano), um rolo de barbante e para o meu espanto, lâminas de barbear enferrujadas. Juntou as duas plantas e as lâminas, amarrou com o barbante e ateou fogo, enquanto recitava um tipo de cântico numa língua estranha. Então ela parou, ficou alguns segundos olhando para o vazio como se estivesse em transe e depois, muito séria, falou para o casal:

– O filho de vocês não corre mais perigo e eu garanti com a minha reza que a pessoa invejosa que causou toda essa desgraça, vai pagar caro pela morte do menino inocente e pela ganância. E será logo, a justiça de Deus não falha!!

Neste momento, ouviu-se um grito pavoroso vindo do quarto ao lado e todos correram até lá. Eu nunca consegui esquecer o que presenciei: a madrinha de batismo dos bebês, que se hospedara na casa para “ajudar” com as crianças, estava ajoelhada no chão, com os olhos arregalados, berrando com uma voz grossa, masculina e de repente ela parou, escancarou a boca e dali começou a sair uma coisa branca e asquerosa, que a mulher ia puxando, desesperada; aquela “coisa” foi se amontoando no chão e formando uma massa densa e sangrenta: ela estava vomitando o barbante com as lâminas!! Fios e mais fios de barbante ensanguentado iam saindo da boca da mulher, sufocando-a, enquanto um fedor podre impregnava o ambiente.

Vovó, abrindo os braços, impediu que as pessoas se aproximassem para ajudá-la, deixando que ela cumprisse seu destino.

Aquilo parecia que nunca ia ter fim, a mulher vomitava e vomitava cada vez mais, fazendo uns barulhos horríveis, as lâminas dilacerando sua garganta, sangue e vômito jorrando; até que, finalmente, ela tombou no chão, morta.

Todos os presentes ficaram parados, atônitos com o que tinham presenciado, mas ninguém foi capaz de sentir pena da madrinha invejosa e sua merecida morte.

Não me lembro de quase nada depois disso; minha avó praticamente me arrastou de lá, eu estava em estado de choque e passei a noite toda febril e com pesadelos. No dia seguinte, de tanto eu chorar e pedir, vovó ligou para os meus pais e eles vieram me buscar.

Eu nunca mais vi minha avó depois daquele dia e ninguém jamais falou comigo sobre o que aconteceu.

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