O Relógio de Parede - Ana Rosenrot
Ana Rosenrot
Ana Rosenrot, de Jacareí – SP, é escritora, editora, cineasta trash e pesquisadora de cinema, integrou antologias nacionais e internacionais e participou de várias edições do projeto "A Arte do Terror". Assina a "Coluna CULTíssimo", especializada em cinema e universo cult. No cinema, trabalha com produções independentes, longas e curtas-metragens, quase sempre voltados para o terror e o trash. Recebeu também 7 estatuetas do Prêmio "Corvo de Gesso" (2013-14-15-17), conhecido como "O Oscar do Cinema Trash" e foi curadora das duas edições da “Monstro – Mostra de Cinema Fantástico de Jacareí”(2015-16).
É criadora e editora da Revista LiteraLivre, uma publicação bimestral que uni escritores independentes e autora do livro "Cinema e Cult – vol. 1", lançado em 2018.
http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot/
https://www.facebook.com/AnaRosenrott/
Instagram: @anarosenrot





O Relógio de Parede

As batidas compassadas do relógio a marcar as horas, tão vigorosas e constantes, contrastam com as de meu coração, que a cada minuto se torna mais fraco, alertando que meu fim será breve.

Nesta triste e velha cama de hospital, o melancólico relógio que se destaca negro e acusador na cama à minha frente, infelizmente é a única companhia que me resta nesses tristes instantes de agonia e dor.

Abandonado por todos que falsamente diziam me amar, me deixei abater pelos problemas, ficando à mercê de conflitos e desafios que pouco a pouco flagelaram meu corpo e minha alma. Em poucos dias já não conseguia me alimentar e em menos de um mês meu coração demonstrava indícios de parada prematura; não me importei devido ao enfraquecido estado de espírito em que me encontrava e também não fui capaz de admitir que houvesse me tornado um viciado nojento, não conseguia enxergar meu estado mental confuso nem meu corpo cadavérico.

Hoje, largado nesta cama de hospital, sinto falta do nada que deixei para trás, anos e anos de vida inútil, pessimamente aproveitada; estou agora prestes a terminar na solidão total de um leito enferrujado; somente as batidas do relógio acompanham meu sofrimento e vigiam meu sono perturbado.

As horas vão passando, a morte está cada vez mais perto, posso senti-la em meu sangue; sei que tudo estará terminado antes das doze badaladas e ela já está aqui, posso vê-la como um ser palpável, o sopro frio e as garras afiadas da dama das trevas tocando minhas carnes; o fim vazio que tanto temi durante a vida se concretiza e eu estou sozinho, lamentando o triste destino que busquei para mim mesmo, tantos anos perdidos na desesperada busca por dinheiro, fama e poder. Obtive tudo o que ambicionei passando por cima de todos que cruzaram meu caminho, roubando, enganando e sempre mentindo; mas de tudo o que consegui, só me restou o suficiente para pagar um tratamento digno de um mendigo; queria tanto me curar para ter outra chance, para poder fazer tudo diferente… Mas que tolice!

As badaladas parecem aumentar seu ritmo a cada segundo, ou será meu coração galopando em direção ao fim? Desesperado grito por socorro, mas parece não existir no mundo alguém que possa me ouvir, meus sentidos estão se tornando lentos, meu cérebro lateja, não consigo respirar, sei que meu corpo miserável está partindo.

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Ana Rosenrot
O Relógio de Parede

As batidas compassadas do relógio a marcar as horas, tão vigorosas e constantes, contrastam com as de meu coração, que a cada minuto se torna mais fraco, alertando que meu fim será breve.

Nesta triste e velha cama de hospital, o melancólico relógio que se destaca negro e acusador na cama à minha frente, infelizmente é a única companhia que me resta nesses tristes instantes de agonia e dor.

Abandonado por todos que falsamente diziam me amar, me deixei abater pelos problemas, ficando à mercê de conflitos e desafios que pouco a pouco flagelaram meu corpo e minha alma. Em poucos dias já não conseguia me alimentar e em menos de um mês meu coração demonstrava indícios de parada prematura; não me importei devido ao enfraquecido estado de espírito em que me encontrava e também não fui capaz de admitir que houvesse me tornado um viciado nojento, não conseguia enxergar meu estado mental confuso nem meu corpo cadavérico.

Hoje, largado nesta cama de hospital, sinto falta do nada que deixei para trás, anos e anos de vida inútil, pessimamente aproveitada; estou agora prestes a terminar na solidão total de um leito enferrujado; somente as batidas do relógio acompanham meu sofrimento e vigiam meu sono perturbado.

As horas vão passando, a morte está cada vez mais perto, posso senti-la em meu sangue; sei que tudo estará terminado antes das doze badaladas e ela já está aqui, posso vê-la como um ser palpável, o sopro frio e as garras afiadas da dama das trevas tocando minhas carnes; o fim vazio que tanto temi durante a vida se concretiza e eu estou sozinho, lamentando o triste destino que busquei para mim mesmo, tantos anos perdidos na desesperada busca por dinheiro, fama e poder. Obtive tudo o que ambicionei passando por cima de todos que cruzaram meu caminho, roubando, enganando e sempre mentindo; mas de tudo o que consegui, só me restou o suficiente para pagar um tratamento digno de um mendigo; queria tanto me curar para ter outra chance, para poder fazer tudo diferente… Mas que tolice!

As badaladas parecem aumentar seu ritmo a cada segundo, ou será meu coração galopando em direção ao fim? Desesperado grito por socorro, mas parece não existir no mundo alguém que possa me ouvir, meus sentidos estão se tornando lentos, meu cérebro lateja, não consigo respirar, sei que meu corpo miserável está partindo.

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