O Relógio de Parede - Ana Rosenrot
Ana Rosenrot
Ana Rosenrot, de Jacareí – SP, é escritora, editora, cineasta trash e pesquisadora de cinema, integrou antologias nacionais e internacionais e participou de várias edições do projeto "A Arte do Terror". Assina a "Coluna CULTíssimo", especializada em cinema e universo cult. No cinema, trabalha com produções independentes, longas e curtas-metragens, quase sempre voltados para o terror e o trash. Recebeu também 7 estatuetas do Prêmio "Corvo de Gesso" (2013-14-15-17), conhecido como "O Oscar do Cinema Trash" e foi curadora das duas edições da “Monstro – Mostra de Cinema Fantástico de Jacareí”(2015-16).
É criadora e editora da Revista LiteraLivre, uma publicação bimestral que uni escritores independentes e autora do livro "Cinema e Cult – vol. 1", lançado em 2018.
http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot/
https://www.facebook.com/AnaRosenrott/
Instagram: @anarosenrot





O Relógio de Parede

Sinto um medo sufocante, um aperto no peito e uma dor dilacerante, minhas ilusões se acabam neste instante de completo desespero, um turbilhão de visões bizarras habitam minha mente, seres negros como a noite gargalham mostrando sangrentos dentes afiados. Eles estão aqui para me levar para a escuridão eterna, não consigo enxergar direito, somente a imagem do relógio de parede permanece, enquanto minha alma está prestes a abandonar sua sofrida morada, ele soa alto, assustador, em funestas badaladas.

Banhado de suor, com a sensação de morte ainda presente, acordo assustado, estou no meu quarto, o coração aos pulos, minha cabeça está doendo terrivelmente, meu estômago se revira em náuseas, chego a esquecer que tudo foi somente um sonho e fico um bom tempo imóvel, com medo de sair da cama, um estranho pavor de estar realmente morto neste quarto tão escuro, onde só posso ouvir o badalar do relógio.

Respiro fundo, abro bem os olhos e percebendo que o dia amanhecera já há algum tempo, levanto rápido, cambaleando, resolvido a dedicar este e todos os dias que restam de minha vida a efetuar mudanças radicais e evitar a qualquer custo que este terrível sonho – ou premonição, ou pesadelo – possa tornar-se realidade, para minha total desgraça.

O chato é que eu sei que em no máximo meia hora já rirei deste sonho ridículo e cada vez mais repetitivo, será que esses pesadelos frequentes são um aviso? Um efeito daquelas pílulas que comprei na Colômbia? Não, acho que só preciso de um colchão novo, ou talvez de um relógio de parede silencioso.

De repente, começo a me sentir estranho; ainda estou fraco, preciso me deitar mais um pouco…

Mas o que é isso? Tem alguém na minha cama?

É impossível, eu acabei de me levantar e nem sequer saí do quarto…Estou delirando, é isso…Vou chegar perto para ver melhor…

Puxo o lençol que esconde o rosto do “invasor” e vejo aterrorizado que quem está na cama sou eu…Os olhos arregalados, a boca aberta…Estou morto!! Não, não pode ser! Preciso fazer alguma coisa, chamar alguém, ainda não deve ser tarde demais…

Meu Deus, que gargalhada é essa? Quem são vocês…Me soltem…Não!! NÃO! NÃAAAO…

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Ana Rosenrot
O Relógio de Parede

Sinto um medo sufocante, um aperto no peito e uma dor dilacerante, minhas ilusões se acabam neste instante de completo desespero, um turbilhão de visões bizarras habitam minha mente, seres negros como a noite gargalham mostrando sangrentos dentes afiados. Eles estão aqui para me levar para a escuridão eterna, não consigo enxergar direito, somente a imagem do relógio de parede permanece, enquanto minha alma está prestes a abandonar sua sofrida morada, ele soa alto, assustador, em funestas badaladas.

Banhado de suor, com a sensação de morte ainda presente, acordo assustado, estou no meu quarto, o coração aos pulos, minha cabeça está doendo terrivelmente, meu estômago se revira em náuseas, chego a esquecer que tudo foi somente um sonho e fico um bom tempo imóvel, com medo de sair da cama, um estranho pavor de estar realmente morto neste quarto tão escuro, onde só posso ouvir o badalar do relógio.

Respiro fundo, abro bem os olhos e percebendo que o dia amanhecera já há algum tempo, levanto rápido, cambaleando, resolvido a dedicar este e todos os dias que restam de minha vida a efetuar mudanças radicais e evitar a qualquer custo que este terrível sonho – ou premonição, ou pesadelo – possa tornar-se realidade, para minha total desgraça.

O chato é que eu sei que em no máximo meia hora já rirei deste sonho ridículo e cada vez mais repetitivo, será que esses pesadelos frequentes são um aviso? Um efeito daquelas pílulas que comprei na Colômbia? Não, acho que só preciso de um colchão novo, ou talvez de um relógio de parede silencioso.

De repente, começo a me sentir estranho; ainda estou fraco, preciso me deitar mais um pouco…

Mas o que é isso? Tem alguém na minha cama?

É impossível, eu acabei de me levantar e nem sequer saí do quarto…Estou delirando, é isso…Vou chegar perto para ver melhor…

Puxo o lençol que esconde o rosto do “invasor” e vejo aterrorizado que quem está na cama sou eu…Os olhos arregalados, a boca aberta…Estou morto!! Não, não pode ser! Preciso fazer alguma coisa, chamar alguém, ainda não deve ser tarde demais…

Meu Deus, que gargalhada é essa? Quem são vocês…Me soltem…Não!! NÃO! NÃAAAO…

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