Para Callie - Ana Rosenrot
Ana Rosenrot
Ana Rosenrot, de Jacareí – SP, é escritora, editora, cineasta trash e pesquisadora de cinema, integrou antologias nacionais e internacionais e participou de várias edições do projeto "A Arte do Terror". Assina a "Coluna CULTíssimo", especializada em cinema e universo cult. No cinema, trabalha com produções independentes, longas e curtas-metragens, quase sempre voltados para o terror e o trash. Recebeu também 7 estatuetas do Prêmio "Corvo de Gesso" (2013-14-15-17), conhecido como "O Oscar do Cinema Trash" e foi curadora das duas edições da “Monstro – Mostra de Cinema Fantástico de Jacareí”(2015-16).
É criadora e editora da Revista LiteraLivre, uma publicação bimestral que uni escritores independentes e autora do livro "Cinema e Cult – vol. 1", lançado em 2018.
http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot/
https://www.facebook.com/AnaRosenrott/
Instagram: @anarosenrot





Para Callie

Querida Callie,

Quando esta chegar até você, eu já terei morrido, eles já terão me alcançado e cobrado a dívida, estou fraco, não posso mais fugir…

Mas antes preciso te confessar, sei que você já desconfia, as pessoas falam, comentam e infelizmente é verdade: vendi minha alma para o Tinhoso.

Tommy disse que era uma boa ideia e me ensinou como fazer; eu era tão ingênuo, queria ficar rico e famoso, tocar bonito como o Willie e o Son. Só que me enrolava com as notas, não conseguia tocar nada que prestasse. Daí eu fui com meu violão numa mão e uma garrafa de whiskey na outra até a encruzilhada da rodovia à noite e fiquei bem quietinho sentado embaixo de uma árvore seca. Várias vezes me levantei, pronto para ir embora e esquecer toda aquela bobagem, mas a ambição falava mais alto e eu me sentava novamente, esperando, enquanto dedilhava o violão com desânimo.

Quando deu meia-noite, um homem muito bem-vestido surgiu do nada na minha frente, me cumprimentou com um gesto de cabeça, estendeu a mão com dedos longos e finos em direção ao violão e eu, mesmo morrendo de medo e com as mãos trêmulas, entreguei o instrumento, que ele examinou, mexeu nas cordas, começou a afiná-lo fazendo movimentos estranhos com suas unhas enormes e pretas, sorriu satisfeito e então tocou uma canção num tom que eu nunca havia ouvido antes, algo contagiante e misterioso…

Bruscamente ele para de tocar, me entrega o violão e faz um gesto com as mãos mandando que eu toque, assustado eu hesito, mas começo a tocar e fico surpreso com a facilidade com que domino as notas, a melodia parece fluir leve, meus dedos estão ágeis como nunca. Eu só queria poder tocar daquela forma para sempre!

Uma voz gutural me chama a atenção, paro de tocar e olho para o homem, vejo espantado que seus lábios não se movem, sua voz sinistra ecoa dentro da minha cabeça e me fala sobre os “termos” do acordo: eu encantaria multidões com minha música, seria lembrado para sempre, mas só teria 10 anos para desfrutar, após este prazo minha alma seria levada para o inferno.

Nessa hora eu pensei em sair correndo e deveria ter feito isso, mas a cobiça me fez concordar e do mesmo jeito que apareceu, o Tinhoso (não havia dúvida de que era ele) sumiu.

Páginas: 1 2

Ana Rosenrot
Para Callie

Querida Callie,

Quando esta chegar até você, eu já terei morrido, eles já terão me alcançado e cobrado a dívida, estou fraco, não posso mais fugir…

Mas antes preciso te confessar, sei que você já desconfia, as pessoas falam, comentam e infelizmente é verdade: vendi minha alma para o Tinhoso.

Tommy disse que era uma boa ideia e me ensinou como fazer; eu era tão ingênuo, queria ficar rico e famoso, tocar bonito como o Willie e o Son. Só que me enrolava com as notas, não conseguia tocar nada que prestasse. Daí eu fui com meu violão numa mão e uma garrafa de whiskey na outra até a encruzilhada da rodovia à noite e fiquei bem quietinho sentado embaixo de uma árvore seca. Várias vezes me levantei, pronto para ir embora e esquecer toda aquela bobagem, mas a ambição falava mais alto e eu me sentava novamente, esperando, enquanto dedilhava o violão com desânimo.

Quando deu meia-noite, um homem muito bem-vestido surgiu do nada na minha frente, me cumprimentou com um gesto de cabeça, estendeu a mão com dedos longos e finos em direção ao violão e eu, mesmo morrendo de medo e com as mãos trêmulas, entreguei o instrumento, que ele examinou, mexeu nas cordas, começou a afiná-lo fazendo movimentos estranhos com suas unhas enormes e pretas, sorriu satisfeito e então tocou uma canção num tom que eu nunca havia ouvido antes, algo contagiante e misterioso…

Bruscamente ele para de tocar, me entrega o violão e faz um gesto com as mãos mandando que eu toque, assustado eu hesito, mas começo a tocar e fico surpreso com a facilidade com que domino as notas, a melodia parece fluir leve, meus dedos estão ágeis como nunca. Eu só queria poder tocar daquela forma para sempre!

Uma voz gutural me chama a atenção, paro de tocar e olho para o homem, vejo espantado que seus lábios não se movem, sua voz sinistra ecoa dentro da minha cabeça e me fala sobre os “termos” do acordo: eu encantaria multidões com minha música, seria lembrado para sempre, mas só teria 10 anos para desfrutar, após este prazo minha alma seria levada para o inferno.

Nessa hora eu pensei em sair correndo e deveria ter feito isso, mas a cobiça me fez concordar e do mesmo jeito que apareceu, o Tinhoso (não havia dúvida de que era ele) sumiu.

Páginas: 1 2