La Mort - Bras Santtana
Bras Santtana
Bras Santtana nasceu em São Paulo, no ano de 1995. Dedica-se, atualmente, aos estudos – cursa Letras-Português na Universidade Estadual de Alagoas. Desde a infância nutre uma admiração profunda pela criação, sobretudo no campo artístico. É poeta e tem um gato chamado Januário.






La Mort

Um pássaro chocou-se contra o ar. Com o barulho, Júlio acordou, mas não viu coisa alguma: não viu o pássaro, a cômoda velha, o espelho – que outrora evidenciara sua natureza perversa –, a porta vermelha – que indicava o inferno exterior – e nem as marcas que, com certa frequência, surgiam em seu corpo.  Durante infinitos minutos, Júlio tentou lembrar-se da noite anterior.  Ao longo do percurso fracassado, de lembrar do inexistente, ele notou que não sabia ao certo se era noite ou dia – externo ao seu pensamento havia apenas escuridão. Sabia, sem dúvidas, que estava em seu quarto. Sua certeza dava-se pelo fato de Júlio, durante o tempo em que fracassou, tentando orientar-se, tatear os móveis que, com extraordinária frequência, flutuavam durante a noite. Sim, ele estava em casa. O tempo passou. Horas e horas pairavam sobre a cabeça do jovem poeta. Com a violência da escuridão, ele não sabia se seus olhos haviam de estar abertos ou não.

De súbito, um clarão. Júlio teve, brevemente, a impressão de ter sido jogado dentro de deus – se é que deus é luz. O clarão poderia, facilmente, ser o inferno. Ao tornar a ver, lentamente, o jovem identificou, por partes, o cômodo. Notou, com espanto, que as janelas já não faziam mais parte do cubo de concreto. Júlio foi à porta. Ela abriu-se lentamente. Aos poucos, um calor sobrenatural invadiu o cômodo. Júlio afastou-se da única saída existente – a porta. Fitou os olhos, ainda debilitados, nas chamas que invadiam, timidamente, seu quarto. O fogo, como se tivesse recebido ordem, estacionou na metade do quarto. Agora, o jovem poeta – perdoem-me a ironia – via-se em situação delicada.

Aos poucos, Júlio e o ambiente acostumavam-se com a temperatura. O jovem, sem questionar, aceitava o seu destino; o fogo assistia o definhar daquela alma ociosa. A porta abriu-se por completo. Um pássaro, lançado por mão desconhecida, aterrissou em sua cama. Depois outro, outro e outro. Júlio já não conseguia contar quantas aves habitavam o minúsculo cômodo. Todas, aparentemente, mortas. O jovem, aos poucos, recuperou sua visão. Agora via com clareza. Teve certeza de ter visto um pássaro mexer-se. Viu outro bicar o piso. Repentinamente, as aves tornaram à vida – se é que estavam mortas. Corvos da cor da noite, muito mais que o habitual. Os olhos em chamas, vermelhos feito o sol da meia-vida, sinalizavam o mal que aproximava-se. De súbito, as aves fizeram de Júlio sua presa. Júlio, sem forças, agarrou-se ao seu destino, à sua dádiva. O sangue e o ódio que, lentamente, escorriam de seu corpo converteram-se em mau agouro. A porta fechou-se.

Bras Santtana
La Mort

Um pássaro chocou-se contra o ar. Com o barulho, Júlio acordou, mas não viu coisa alguma: não viu o pássaro, a cômoda velha, o espelho – que outrora evidenciara sua natureza perversa –, a porta vermelha – que indicava o inferno exterior – e nem as marcas que, com certa frequência, surgiam em seu corpo.  Durante infinitos minutos, Júlio tentou lembrar-se da noite anterior.  Ao longo do percurso fracassado, de lembrar do inexistente, ele notou que não sabia ao certo se era noite ou dia – externo ao seu pensamento havia apenas escuridão. Sabia, sem dúvidas, que estava em seu quarto. Sua certeza dava-se pelo fato de Júlio, durante o tempo em que fracassou, tentando orientar-se, tatear os móveis que, com extraordinária frequência, flutuavam durante a noite. Sim, ele estava em casa. O tempo passou. Horas e horas pairavam sobre a cabeça do jovem poeta. Com a violência da escuridão, ele não sabia se seus olhos haviam de estar abertos ou não.

De súbito, um clarão. Júlio teve, brevemente, a impressão de ter sido jogado dentro de deus – se é que deus é luz. O clarão poderia, facilmente, ser o inferno. Ao tornar a ver, lentamente, o jovem identificou, por partes, o cômodo. Notou, com espanto, que as janelas já não faziam mais parte do cubo de concreto. Júlio foi à porta. Ela abriu-se lentamente. Aos poucos, um calor sobrenatural invadiu o cômodo. Júlio afastou-se da única saída existente – a porta. Fitou os olhos, ainda debilitados, nas chamas que invadiam, timidamente, seu quarto. O fogo, como se tivesse recebido ordem, estacionou na metade do quarto. Agora, o jovem poeta – perdoem-me a ironia – via-se em situação delicada.

Aos poucos, Júlio e o ambiente acostumavam-se com a temperatura. O jovem, sem questionar, aceitava o seu destino; o fogo assistia o definhar daquela alma ociosa. A porta abriu-se por completo. Um pássaro, lançado por mão desconhecida, aterrissou em sua cama. Depois outro, outro e outro. Júlio já não conseguia contar quantas aves habitavam o minúsculo cômodo. Todas, aparentemente, mortas. O jovem, aos poucos, recuperou sua visão. Agora via com clareza. Teve certeza de ter visto um pássaro mexer-se. Viu outro bicar o piso. Repentinamente, as aves tornaram à vida – se é que estavam mortas. Corvos da cor da noite, muito mais que o habitual. Os olhos em chamas, vermelhos feito o sol da meia-vida, sinalizavam o mal que aproximava-se. De súbito, as aves fizeram de Júlio sua presa. Júlio, sem forças, agarrou-se ao seu destino, à sua dádiva. O sangue e o ódio que, lentamente, escorriam de seu corpo converteram-se em mau agouro. A porta fechou-se.