O Olho Mágico - Bras Santtana
Bras Santtana
Bras Santtana nasceu em São Paulo, no ano de 1995. Dedica-se, atualmente, aos estudos – cursa Letras-Português na Universidade Estadual de Alagoas. Desde a infância nutre uma admiração profunda pela criação, sobretudo no campo artístico. É poeta e tem um gato chamado Januário.






O Olho Mágico

Caminhei até o olho mágico. Tirei os óculos – visando uma performance satisfatória – e guardei no bolso da camisa. Aproximei o olho direito da lente. Não vi nada. Ouvi alguns passos e aguardei algum movimento relevante: nada. Repentinamente, uma senhora atravessou minha visão turva – o olho mágico estava consideravelmente danificado. Ela caminhava lentamente, contando os passos. Não marquei o tempo, mas posso afirmar, com certa arrogância, que a senhora demorou uma vida para caminhar cinco metros. Observação maldosa, confesso. A luz do poste piscou. Piscou outra vez. Um grupo de jovens passou. O grupo, por mais que aparentasse estar apressado, caminhava como se tivesse a vida inteira pela frente – e tinha. Passo a passo, como quem vive uma eternidade. Após o grupo, um casal – ainda parte do grupo. Eles riam, abraçados. Pareciam felizes.

Após a breve passagem dos jovens – incluindo o casal – a rua tornou-se inabitada. Um imensurável vácuo. A rua refletia, longe de exageros, o mundo antes das quimeras de deus: a criação. A longa faixa de paralelepípedos lembrava, e aqui me dispo do vago, a ausência cotidiana; e nela, meu olhar pairava. Eu era o senhor daquele prisma. Um poço egóico. Naquele exato momento, lembrei-me da minha infância; fui bombardeado por lembranças de anos atrás. Recordei, com sobrenatural facilidade, das esperas que, com certa frequência, vivenciei. Um nó materializou-se em minha garganta, senti uma dor: a espera.

Quando criança, esperava meus pais chegarem do trabalho. Esperava o fim de ano, animado com a iminência de um presente utópico: a maldita bicicleta. A cada 365 dias, meu pai me prometia uma bicicleta. A cada 365 dias, eu me frustrava. Por consequência da omissão paterna – na ausência da utópica bicicleta –, me ocorreram inúmeras esperas: esperei o ônibus para ir à escola, à universidade e ao trabalho – não necessariamente nessa ordem. Esperei, por falta de coragem, os lugares me encontrarem. Esperei por um amor. Esperei pela sua partida. Espero, há anos, pela morte. Sim, ainda estou vivo – ao pensar nisso, a luz do poste piscou.

Notei que há uma hora ninguém ousou passar diante dos meus olhos. Foi um pouco frustrante, confesso. Meus pés já estavam doendo, naturalmente. Minha vista, um tanto debilitada pela espera, tornou-se inadequada. Em um momento de delírio, vi um ônibus passar – sim, o mesmo que eu costumava esperar. Vi, também, meu pai – desvairo bobo, meu pai morreu há anos. No auge do meu delírio, uma bicicleta atravessou meus olhos. Não uma bicicleta comum, essa era a utópica bicicleta vermelha de banco cor de creme. Sonho há anos com ela. Desejo antigo.

Não sei quantos 365 dias esperei – talvez se você, leitor, multiplicar este número por 45, que é a minha idade, você tenha o número aproximado. 16.425 dias – sim, não me contive e fiz o cálculo. 16.425 é um número considerável. Um número assustador. É surreal imaginar quanta espera cabe nesse número. Se somarmos 1 + 6 + 4 + 2 + 5, teremos o número 18. Minha idade ao ler, pela primeira vez, o poema As Coisas, de Jorge Luis Borges – comprovação imponderável.

A luz do poste piscou outra vez. Notei, agora, que venho me referindo como luz, quando devo dizer lâmpada – não tem importância, você deve ter entendido. Agora, nada mais estava diante dos meus olhos. Não ousei seguir o ônibus, meu pai ou até mesmo a bicicleta vermelha com banco cor de creme. Sei onde eles se escondem, e eu não penso mais nisso. Ninguém pensa. Esquecemos, gradativamente, os motivos das esperas que alimentamos. Eu continuo aqui, em minha casa; continuo lá, no ponto de ônibus. Continuo esperando a luz – ou lâmpada – do poste picar e essa espera, pouco a pouco, perde-se no ar feito as memórias que não cultivei. 

Bras Santtana
O Olho Mágico

Caminhei até o olho mágico. Tirei os óculos – visando uma performance satisfatória – e guardei no bolso da camisa. Aproximei o olho direito da lente. Não vi nada. Ouvi alguns passos e aguardei algum movimento relevante: nada. Repentinamente, uma senhora atravessou minha visão turva – o olho mágico estava consideravelmente danificado. Ela caminhava lentamente, contando os passos. Não marquei o tempo, mas posso afirmar, com certa arrogância, que a senhora demorou uma vida para caminhar cinco metros. Observação maldosa, confesso. A luz do poste piscou. Piscou outra vez. Um grupo de jovens passou. O grupo, por mais que aparentasse estar apressado, caminhava como se tivesse a vida inteira pela frente – e tinha. Passo a passo, como quem vive uma eternidade. Após o grupo, um casal – ainda parte do grupo. Eles riam, abraçados. Pareciam felizes.

Após a breve passagem dos jovens – incluindo o casal – a rua tornou-se inabitada. Um imensurável vácuo. A rua refletia, longe de exageros, o mundo antes das quimeras de deus: a criação. A longa faixa de paralelepípedos lembrava, e aqui me dispo do vago, a ausência cotidiana; e nela, meu olhar pairava. Eu era o senhor daquele prisma. Um poço egóico. Naquele exato momento, lembrei-me da minha infância; fui bombardeado por lembranças de anos atrás. Recordei, com sobrenatural facilidade, das esperas que, com certa frequência, vivenciei. Um nó materializou-se em minha garganta, senti uma dor: a espera.

Quando criança, esperava meus pais chegarem do trabalho. Esperava o fim de ano, animado com a iminência de um presente utópico: a maldita bicicleta. A cada 365 dias, meu pai me prometia uma bicicleta. A cada 365 dias, eu me frustrava. Por consequência da omissão paterna – na ausência da utópica bicicleta –, me ocorreram inúmeras esperas: esperei o ônibus para ir à escola, à universidade e ao trabalho – não necessariamente nessa ordem. Esperei, por falta de coragem, os lugares me encontrarem. Esperei por um amor. Esperei pela sua partida. Espero, há anos, pela morte. Sim, ainda estou vivo – ao pensar nisso, a luz do poste piscou.

Notei que há uma hora ninguém ousou passar diante dos meus olhos. Foi um pouco frustrante, confesso. Meus pés já estavam doendo, naturalmente. Minha vista, um tanto debilitada pela espera, tornou-se inadequada. Em um momento de delírio, vi um ônibus passar – sim, o mesmo que eu costumava esperar. Vi, também, meu pai – desvairo bobo, meu pai morreu há anos. No auge do meu delírio, uma bicicleta atravessou meus olhos. Não uma bicicleta comum, essa era a utópica bicicleta vermelha de banco cor de creme. Sonho há anos com ela. Desejo antigo.

Não sei quantos 365 dias esperei – talvez se você, leitor, multiplicar este número por 45, que é a minha idade, você tenha o número aproximado. 16.425 dias – sim, não me contive e fiz o cálculo. 16.425 é um número considerável. Um número assustador. É surreal imaginar quanta espera cabe nesse número. Se somarmos 1 + 6 + 4 + 2 + 5, teremos o número 18. Minha idade ao ler, pela primeira vez, o poema As Coisas, de Jorge Luis Borges – comprovação imponderável.

A luz do poste piscou outra vez. Notei, agora, que venho me referindo como luz, quando devo dizer lâmpada – não tem importância, você deve ter entendido. Agora, nada mais estava diante dos meus olhos. Não ousei seguir o ônibus, meu pai ou até mesmo a bicicleta vermelha com banco cor de creme. Sei onde eles se escondem, e eu não penso mais nisso. Ninguém pensa. Esquecemos, gradativamente, os motivos das esperas que alimentamos. Eu continuo aqui, em minha casa; continuo lá, no ponto de ônibus. Continuo esperando a luz – ou lâmpada – do poste picar e essa espera, pouco a pouco, perde-se no ar feito as memórias que não cultivei.