Freak Show - C.B. Kaihatsu
C.B. Kaihatsu
C. B. Kaihatsu é escritora, poetisa, engenheira de controle e automação, bailarina clássica e de jazz e colunista cultural do Jornal Tribuna de Paulínia, da revista Amazing e do site CultEcléticos.
Coautora do livro “Retalhos: Almas em Versos” (Editora Empíreo), vencedor do Prêmio Brasil Entre Palavras na categoria Melhor Livro de Poesia de 2016, também participou das antologias: Mais Amor, Por Favor (Editora Coerência), Arquivos do Mal (Editora Coerência), A Arte do Terror – Cartas (Elemental Editoração). É organizadora da antologia de contos de terror e suspense “A Sociedade dos Corvos” publicada este ano pela Editora Coerência. O Mestre do Horror, R. F. Lucchetti, participa como prefaciador e autor convidado.
Ainda em 2017, possui participação nas antologias: Vampiro: Um Livro Colaborativo (Editora Empíreo) , Playlist – Contos Musicais (Editora Rouxinol) e Noite Natalina (Editora Skull).
Fã de Fórmula 1, já colaborou com artigos para o blog F1 – Fórmula 1.

E-mail: c.b.kaihatsu@gmail.com
Fanpage: facebook.com/C.B.Kaihatsu
Wattpad: CBKaihatsu






Freak Show

“Oh man!
Look at these cavemen go
It’s the freakiest show”
(Life On Mars? – David Bowie)

Era 31 de outubro, fazia um calor infernal, o que significava mais pessoas nas ruas e consequentemente; mais público. Após rodar muitos estados, o Cirque du Freak faria sua estreia na cidade de Manaus.

A tenda desbotada, encardida e puída em alguns pontos contrastava com a beleza do Teatro Amazonas que lhe fazia frente. Ironicamente, apenas este último era considerado assombrado, mas engana-se quem considera o Cirque du Freak apenas mais do mesmo, os espectadores daquela noite mal sabiam o que estava por vir. As pessoas esquecem fácil, e o tempo se encarregou de apagar as lembranças sombrias que envolveram o circo em décadas anteriores.

Todos se preparavam para seu número, mas quem brilharia naquela apresentação eram as irmãs Lilith e Eva. Gêmeas siamesas, a primeira apresentava longas madeixas cor de fogo, dona de um humor ácido e lascivo, exalava sensualidade. Já sua outra metade, Eva, era tímida e reservada, o cabelo preto num comprimento pouca coisa acima do ombro emoldurava seu rosto que, diferente de Lilith, possuía um ar angelical.

Lilith e Eva eram duas mulheres, duas mentes, duas pessoas num só corpo, mas numa questão compartilhavam o mesmo pensamento. O ser humano era mesmo deplorável. Pagar para ver aquilo que consideravam “aberrações”? Rir-se e fazer pilhéria do que lhe era diferente? Quem era a aberração, quem estava no palco ou quem estava na plateia? Sentia uma profunda repulsa, isso não estava certo. É por isso que sempre pagavam. Alguns, um preço mais alto que os outros, mas no fim todos pagavam. E elas, em contrapartida, receberiam sua recompensa. Tinha sido assim por anos, todo dia que antecedia o Dia de Todos os Santos, para as irmãs era como se fosse um presente de Natal adiantando.

Casa lotada, todos muito curiosos para ver um tipo de show que já não existia mais, um circo de horrores, o que o Cirque du Freak era. Gente de todas as classes, desde a alta sociedade manauara até a classe operária. Esses eram tempos estranhos, difícil imaginar que em pleno século XXI as pessoas pagariam para ver isto, era tempos realmente estranhos.

Ivan, o apresentador, o único que não aparentava alguma “anormalidade”, tomou seu lugar no picadeiro e, como de praxe, soltou a frase: “Boa noite, senhoras e senhores! Respeitável público, espero que apreciem o show do “Cirque du Freak”. A mera presença de Ivan hipnotizava a plateia, era belo e sedutor, ostentava um bigode impecável, um sujeito bastante carismático:

— E que entre a primeira atração! Dimitri, o lobisomem!

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C.B. Kaihatsu
Freak Show

“Oh man!
Look at these cavemen go
It’s the freakiest show”
(Life On Mars? – David Bowie)

Era 31 de outubro, fazia um calor infernal, o que significava mais pessoas nas ruas e consequentemente; mais público. Após rodar muitos estados, o Cirque du Freak faria sua estreia na cidade de Manaus.

A tenda desbotada, encardida e puída em alguns pontos contrastava com a beleza do Teatro Amazonas que lhe fazia frente. Ironicamente, apenas este último era considerado assombrado, mas engana-se quem considera o Cirque du Freak apenas mais do mesmo, os espectadores daquela noite mal sabiam o que estava por vir. As pessoas esquecem fácil, e o tempo se encarregou de apagar as lembranças sombrias que envolveram o circo em décadas anteriores.

Todos se preparavam para seu número, mas quem brilharia naquela apresentação eram as irmãs Lilith e Eva. Gêmeas siamesas, a primeira apresentava longas madeixas cor de fogo, dona de um humor ácido e lascivo, exalava sensualidade. Já sua outra metade, Eva, era tímida e reservada, o cabelo preto num comprimento pouca coisa acima do ombro emoldurava seu rosto que, diferente de Lilith, possuía um ar angelical.

Lilith e Eva eram duas mulheres, duas mentes, duas pessoas num só corpo, mas numa questão compartilhavam o mesmo pensamento. O ser humano era mesmo deplorável. Pagar para ver aquilo que consideravam “aberrações”? Rir-se e fazer pilhéria do que lhe era diferente? Quem era a aberração, quem estava no palco ou quem estava na plateia? Sentia uma profunda repulsa, isso não estava certo. É por isso que sempre pagavam. Alguns, um preço mais alto que os outros, mas no fim todos pagavam. E elas, em contrapartida, receberiam sua recompensa. Tinha sido assim por anos, todo dia que antecedia o Dia de Todos os Santos, para as irmãs era como se fosse um presente de Natal adiantando.

Casa lotada, todos muito curiosos para ver um tipo de show que já não existia mais, um circo de horrores, o que o Cirque du Freak era. Gente de todas as classes, desde a alta sociedade manauara até a classe operária. Esses eram tempos estranhos, difícil imaginar que em pleno século XXI as pessoas pagariam para ver isto, era tempos realmente estranhos.

Ivan, o apresentador, o único que não aparentava alguma “anormalidade”, tomou seu lugar no picadeiro e, como de praxe, soltou a frase: “Boa noite, senhoras e senhores! Respeitável público, espero que apreciem o show do “Cirque du Freak”. A mera presença de Ivan hipnotizava a plateia, era belo e sedutor, ostentava um bigode impecável, um sujeito bastante carismático:

— E que entre a primeira atração! Dimitri, o lobisomem!

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