Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Carli Bortolanza
Sou um apaixonado, poeta e louco.
Perpasso entre as metáforas, aforismos e linguagens subliminares.
Da beleza ingênua e pura a feiura nua e crua. Da macies da face à macies da decomposição da carne humana. Vida e ou morte, carícias e ou torturas, são apenas pontos de vistas, vistas de um ponto. A beleza está na cerca que cerca, mas que também pode ser acerca que os prende. Nada é o que parece ser, há sempre um elo perdido nas linguagens ocultas que devem lhe fazer pensar nos conceitos das palavras descritas, pois elas não são o simples, o imediato do que estás a ler. Aprofunda-se, pois não escrevo aos outros, escrevo para orientar o EU obscuro de meu ente, escondido no inconsciente de minhas palavras, afrouxando minha gosma cefálica e dado lugar aos sonhos despertos, revelando minhas insanidades lisérgicas nos caminhos turvos dessa incompreensão desforme e não humana.




A vida em sangue e seiva

Era uma tarde qualquer quando invado os fundos de meu terreno para desmembrar os braços vis de uma árvore majestosa por suas amoras, mas que não dando frutos, sombreia a lavoura de amendoins que tanto admiro.

Meu facão é tão afiado quanto um bisturi numa mesa cirúrgica, então não haveria necessidade de fazer força, mas a raiva contida em meus olhos amarelados revelava que sim, teria que exercer força para que, num só golpe, estraçalhasse a macia madeira dos finos galhos de amora (que poderia ser bem o feminino de amor).

A mão firme segura o cabo do facão e o braço estica-se rapidamente para trás e golpeia para frente com toda a força e raiva, os pobres galhos mal teriam chance e a árvore sorri em sangue suas perdas, sangue esse que, com o gancho na parte de cima do facão, rasca a pele de meu braço e molha a toda a planta.

O sacrifício é logo parado e o facão ao chão é deixado cair, pois com a mesma mão que o segurava com força agora com a mesma força busca estancar a fenda do braço que por mais que as mãos tentam fecha-lo, o sangue igualmente escorre por entre os dedos.

Passos são dados em direção da casa e tão logo adentro na cozinha, um vasilhame de uns quinhentos ml é posto abaixo da mão para não desperdiçar o sangue que teima em jorrar.

A pele começa a esbranquiçar, o ar parece mais suave, a visão fica turva, mas mesmo assim consigo despejar o pote quase derramando de sangue dentro das forminhas caseiras de picolé e coloca-las ligeiramente no freezer, como uma última ação.

A sonolência vem, a sensação de paz imana a alma, a mão antes rígida apertara o sangramento agora já não exerce tamanho poder e mal se fixa no lugar do corte que, apesar de vários segundos terem se passado, ainda lança o sangue em jatos a manjar de vermelho as paredes e móveis da cozinha.

Tento chegar ao sofá, mas sou impedido de caminhar pela fraqueza de minhas pernas e ali mesmo, aos pés do fogão, resolvo sentar e escorando-me no forno me viro fitando a geladeira, quando vejo vizinhos adentrarem a porta tão logo os olhos se fecham.

São quase setenta dias depois do acontecido, a árvore antes com seus dias de vida contados, está exuberante mostrando todos seus galhos e frutos deliciosos, abaixo de seus galhos, antes ameaçados, há uma cadeira de praia que descansa em suas sombras e nessa sentado estou, saboreando o delicioso frescor e degustando um delicioso picolé de sangue.

 

Carli Bortolanza
A vida em sangue e seiva

Era uma tarde qualquer quando invado os fundos de meu terreno para desmembrar os braços vis de uma árvore majestosa por suas amoras, mas que não dando frutos, sombreia a lavoura de amendoins que tanto admiro.

Meu facão é tão afiado quanto um bisturi numa mesa cirúrgica, então não haveria necessidade de fazer força, mas a raiva contida em meus olhos amarelados revelava que sim, teria que exercer força para que, num só golpe, estraçalhasse a macia madeira dos finos galhos de amora (que poderia ser bem o feminino de amor).

A mão firme segura o cabo do facão e o braço estica-se rapidamente para trás e golpeia para frente com toda a força e raiva, os pobres galhos mal teriam chance e a árvore sorri em sangue suas perdas, sangue esse que, com o gancho na parte de cima do facão, rasca a pele de meu braço e molha a toda a planta.

O sacrifício é logo parado e o facão ao chão é deixado cair, pois com a mesma mão que o segurava com força agora com a mesma força busca estancar a fenda do braço que por mais que as mãos tentam fecha-lo, o sangue igualmente escorre por entre os dedos.

Passos são dados em direção da casa e tão logo adentro na cozinha, um vasilhame de uns quinhentos ml é posto abaixo da mão para não desperdiçar o sangue que teima em jorrar.

A pele começa a esbranquiçar, o ar parece mais suave, a visão fica turva, mas mesmo assim consigo despejar o pote quase derramando de sangue dentro das forminhas caseiras de picolé e coloca-las ligeiramente no freezer, como uma última ação.

A sonolência vem, a sensação de paz imana a alma, a mão antes rígida apertara o sangramento agora já não exerce tamanho poder e mal se fixa no lugar do corte que, apesar de vários segundos terem se passado, ainda lança o sangue em jatos a manjar de vermelho as paredes e móveis da cozinha.

Tento chegar ao sofá, mas sou impedido de caminhar pela fraqueza de minhas pernas e ali mesmo, aos pés do fogão, resolvo sentar e escorando-me no forno me viro fitando a geladeira, quando vejo vizinhos adentrarem a porta tão logo os olhos se fecham.

São quase setenta dias depois do acontecido, a árvore antes com seus dias de vida contados, está exuberante mostrando todos seus galhos e frutos deliciosos, abaixo de seus galhos, antes ameaçados, há uma cadeira de praia que descansa em suas sombras e nessa sentado estou, saboreando o delicioso frescor e degustando um delicioso picolé de sangue.