Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Carli Bortolanza
Sou um apaixonado, poeta e louco.
Perpasso entre as metáforas, aforismos e linguagens subliminares.
Da beleza ingênua e pura a feiura nua e crua. Da macies da face à macies da decomposição da carne humana. Vida e ou morte, carícias e ou torturas, são apenas pontos de vistas, vistas de um ponto. A beleza está na cerca que cerca, mas que também pode ser acerca que os prende. Nada é o que parece ser, há sempre um elo perdido nas linguagens ocultas que devem lhe fazer pensar nos conceitos das palavras descritas, pois elas não são o simples, o imediato do que estás a ler. Aprofunda-se, pois não escrevo aos outros, escrevo para orientar o EU obscuro de meu ente, escondido no inconsciente de minhas palavras, afrouxando minha gosma cefálica e dado lugar aos sonhos despertos, revelando minhas insanidades lisérgicas nos caminhos turvos dessa incompreensão desforme e não humana.




Gangrena

São cinco horas da manhã e os olhos esbugalhados demonstram minha insônia hospitaleira.

Para alguns até poderia ser normal, mas faz tanto tempo que não durmo que as olheiras cavaram um abismo na face corroendo a pele e a carne.

O cheiro de putrefação paira no ar e é absorvido internamente pelas minhas narinas que já demonstram sinal de corrosão pela carne nefasta.

Como a uma lua crescente, as marcas se projetam em pus na face envelhecida pela desgraça da vida moribunda e que de esmola a esmola, por pena ou por sentimento de culpa, o pão é molhado na valeta da rua, no esgoto a céu aberto e absorvida pela boca já sem dentes, que, outrora, festejava sorridente ao bailar com suas crianças em seu jardim florido por acácias e sob a melodia encantadora do uirapuru.

Vivendo na sombra da vida, recebi as costas ao atingir o auge de minha felicidade, e dela cai como a um sonho em queda livre, mas o impacto não me fez acordar, fez-me nunca mais dormir.

E essa falta arrasta-me como se arrasta um corpo morto amarrado nas hastes de um cavalo selvagem a passear pelos campos tortuosos de um deserto no Himalaia.

No fundo da fenda purulenta em meu rosto, ver-se-á o branco, proveniente da face orbital do maxilar e que em breve mostrar-se-á também a cavidade da narina que absorve parte do aroma da decomposição da carne viva e pulsante.

Quando se quer torturar alguém, nada mais em vista do que atingir o seu rosto, pois é a face do contato com o outro e também para consigo mesmo na frente do espelho.

Não sei a quem eu pudera ter feito tanto mal, para ter a face sendo apodrecida lentamente pelas olheiras que derivaram da falta de sono e de sonhos.

As pálpebras já se banham no sangue, pus e vívido de bactérias, mas, ainda que quisesse, não posso cortá-las, pois, ao piscar, ainda lubrificam com lágrimas de tristeza meus olhos que quase nada mais veem, não pela cegueira, mas pela tristeza que preencheu o horizonte dessa alma já há muito sem vida.

Vida está que só é percebida pela crescente decomposição facial e pelos vermes que mexem e moldam a cada mordida efetuada, parecendo que minha face tem vida própria.

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Carli Bortolanza
Gangrena

São cinco horas da manhã e os olhos esbugalhados demonstram minha insônia hospitaleira.

Para alguns até poderia ser normal, mas faz tanto tempo que não durmo que as olheiras cavaram um abismo na face corroendo a pele e a carne.

O cheiro de putrefação paira no ar e é absorvido internamente pelas minhas narinas que já demonstram sinal de corrosão pela carne nefasta.

Como a uma lua crescente, as marcas se projetam em pus na face envelhecida pela desgraça da vida moribunda e que de esmola a esmola, por pena ou por sentimento de culpa, o pão é molhado na valeta da rua, no esgoto a céu aberto e absorvida pela boca já sem dentes, que, outrora, festejava sorridente ao bailar com suas crianças em seu jardim florido por acácias e sob a melodia encantadora do uirapuru.

Vivendo na sombra da vida, recebi as costas ao atingir o auge de minha felicidade, e dela cai como a um sonho em queda livre, mas o impacto não me fez acordar, fez-me nunca mais dormir.

E essa falta arrasta-me como se arrasta um corpo morto amarrado nas hastes de um cavalo selvagem a passear pelos campos tortuosos de um deserto no Himalaia.

No fundo da fenda purulenta em meu rosto, ver-se-á o branco, proveniente da face orbital do maxilar e que em breve mostrar-se-á também a cavidade da narina que absorve parte do aroma da decomposição da carne viva e pulsante.

Quando se quer torturar alguém, nada mais em vista do que atingir o seu rosto, pois é a face do contato com o outro e também para consigo mesmo na frente do espelho.

Não sei a quem eu pudera ter feito tanto mal, para ter a face sendo apodrecida lentamente pelas olheiras que derivaram da falta de sono e de sonhos.

As pálpebras já se banham no sangue, pus e vívido de bactérias, mas, ainda que quisesse, não posso cortá-las, pois, ao piscar, ainda lubrificam com lágrimas de tristeza meus olhos que quase nada mais veem, não pela cegueira, mas pela tristeza que preencheu o horizonte dessa alma já há muito sem vida.

Vida está que só é percebida pela crescente decomposição facial e pelos vermes que mexem e moldam a cada mordida efetuada, parecendo que minha face tem vida própria.

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