Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Carli Bortolanza
Sou um apaixonado, poeta e louco.
Perpasso entre as metáforas, aforismos e linguagens subliminares.
Da beleza ingênua e pura a feiura nua e crua. Da macies da face à macies da decomposição da carne humana. Vida e ou morte, carícias e ou torturas, são apenas pontos de vistas, vistas de um ponto. A beleza está na cerca que cerca, mas que também pode ser acerca que os prende. Nada é o que parece ser, há sempre um elo perdido nas linguagens ocultas que devem lhe fazer pensar nos conceitos das palavras descritas, pois elas não são o simples, o imediato do que estás a ler. Aprofunda-se, pois não escrevo aos outros, escrevo para orientar o EU obscuro de meu ente, escondido no inconsciente de minhas palavras, afrouxando minha gosma cefálica e dado lugar aos sonhos despertos, revelando minhas insanidades lisérgicas nos caminhos turvos dessa incompreensão desforme e não humana.




Paciência é uma virtude que vadio tem de sobra

Hoje pude ter a fragilidade de ver, com meus olhos esbugalhados e famintos, meu simples e derradeiro porta-retrato sobre a mesa esculpida pelo tempo de meu quarto escondido pelas sombras da escuridão.

Deparo-me ao pega-lo com minhas mãos tremulas e desgastadas pela vida escrava, que ali jazia não só uma foto que o tempo esqueceu, mas um pouco de minha dolorosa história de sobrevivência armazenada nas lembranças fragmentadas de meu passado que deixei pra trás.

Lágrimas secas pelo ar desértico teimam em querer sair, mas não seriam lágrimas de tristeza, pois essas, já todas, escorreram durante a vida, mas lágrimas calejadas pela duradoura e fortemente estampadas crueldade pelas quais havia eu passado sem perceber ou querer demonstrar, mas ali estava eu; um ser antes vívido de esperança e de sonhos.

No porta-retrato esculpidos pelos cupins do século passado, apresenta-se uma foto minha três por quatro, aquela que fiz para emitir um documento e que nunca foi concretizado. Nessa foto estava não só a imagem de um sonhador, mas também a sombra da maldade humana que refletiria sobre meu sujeito no futuro, mostrando a visão do ser que deixei de ser.

Meus olhos quase cegos pela tuberculose e pela falta de higiene da pocilga onde fui agarrado pelas mordaças e pelas chicotadas de obediência.

Largo o porta-retrato em seu lugar vazio no espaço e tempo, deixando para o esquecimento escolher o seu destino final. Reflito sobre o que é pudera ser a vida além das feridas da lepra e dos pontapés na face mordida por ratos e ratazanas.

As lágrimas em pó começam a sair lentamente entristecendo ainda mais o ambiente hostil de meu rosto cobertos por feridas purulentas e incuráveis.

Marcas de meu infernal presente contrastam com meu passado fotografado em papel envelhecido, mas não há sofrimento que o corpo real não tenha sofrido, e depressivo, o porta-retratos fica ali, isolado na velhice da mesa, enquanto as chibatas esfolam minha hanseníase e a paz que a morte poderá me trazer, goza de prazer em não me ver chorar e acostumado com a dor, sigo meu caminho no limbo desse inferno terrestre.

Carli Bortolanza
Paciência é uma virtude que vadio tem de sobra

Hoje pude ter a fragilidade de ver, com meus olhos esbugalhados e famintos, meu simples e derradeiro porta-retrato sobre a mesa esculpida pelo tempo de meu quarto escondido pelas sombras da escuridão.

Deparo-me ao pega-lo com minhas mãos tremulas e desgastadas pela vida escrava, que ali jazia não só uma foto que o tempo esqueceu, mas um pouco de minha dolorosa história de sobrevivência armazenada nas lembranças fragmentadas de meu passado que deixei pra trás.

Lágrimas secas pelo ar desértico teimam em querer sair, mas não seriam lágrimas de tristeza, pois essas, já todas, escorreram durante a vida, mas lágrimas calejadas pela duradoura e fortemente estampadas crueldade pelas quais havia eu passado sem perceber ou querer demonstrar, mas ali estava eu; um ser antes vívido de esperança e de sonhos.

No porta-retrato esculpidos pelos cupins do século passado, apresenta-se uma foto minha três por quatro, aquela que fiz para emitir um documento e que nunca foi concretizado. Nessa foto estava não só a imagem de um sonhador, mas também a sombra da maldade humana que refletiria sobre meu sujeito no futuro, mostrando a visão do ser que deixei de ser.

Meus olhos quase cegos pela tuberculose e pela falta de higiene da pocilga onde fui agarrado pelas mordaças e pelas chicotadas de obediência.

Largo o porta-retrato em seu lugar vazio no espaço e tempo, deixando para o esquecimento escolher o seu destino final. Reflito sobre o que é pudera ser a vida além das feridas da lepra e dos pontapés na face mordida por ratos e ratazanas.

As lágrimas em pó começam a sair lentamente entristecendo ainda mais o ambiente hostil de meu rosto cobertos por feridas purulentas e incuráveis.

Marcas de meu infernal presente contrastam com meu passado fotografado em papel envelhecido, mas não há sofrimento que o corpo real não tenha sofrido, e depressivo, o porta-retratos fica ali, isolado na velhice da mesa, enquanto as chibatas esfolam minha hanseníase e a paz que a morte poderá me trazer, goza de prazer em não me ver chorar e acostumado com a dor, sigo meu caminho no limbo desse inferno terrestre.