O evangelista de Sodoma – parte 4: Nem tudo que é sólido se desmancha com ácido - Coffin Souza
Coffin Souza
Cesar “Coffin” Souza
Nasci em uma madrugada fria de junho de 1962. Continuo gostando de madrugadas e de frio.
Cresci com livros, filmes, gatos & quadrinhos. Queria ser Cientista, Desenhista, Escritor, Pintor, Diretor de Cinema, Ator... Faço um pouco de cada-tudo-junto-misturado. Batalhando como todos para sobreviver ao dia-a-dia, nas horas (poucas) vagas, escrevo, atuo, faço filmes, faço coisas. Orgulho de ter sido cúmplice com Baiestorf/Waslawick/Toniolli/Bortolanza/Jahnke da deliciosa demência chamada Canibal Filmes. Tenho dois blogs: She Demons Zine (shedemonszine.blogspot.com.br ) & Museu da Meia Noite (museudameianoite.blogspot.com.br ). Estou neles. E aqui. Em vários lugares. E em nenhum...
E-mail: coffinsouza@gmail.com






O evangelista de Sodoma – parte 4: Nem tudo que é sólido se desmancha com ácido

A voz nasalada de Bob Dylan cantava “Knockin’On Heaven’s Door” em uma pré-histórica gravação em um disco preto e enorme, que eu encontrara em uma de minhas perambulações noturnas pelo lado mais isolado de Nova Sodoma. O artefato para escutar o disco, Ezequiel desviara dos porões do Museu, onde estava se deteriorando pela falta de uso. O som era abafado e cheio de chiados mas parecia mais real e humano que o som metálico das caixas ressonantes que espalhavam as vozes eletrônicas e as músicas sacras por toda a cidade. ”Knock,Knock,Knock…”… Merda!… Não era na porta do céu que estavam batendo, mas na do meu apartamento…

-Boa tarde, irmão! O Sr. deve ser… Se me permite…

Antes que eu pudesse abrir a boca, um sujeitinho baixote, rechonchudo e muito afeminado já havia se imiscuído com um rastro de perfume adocicado e enjoativo junto.

-Sim, sou eu mesmo e tu quem é?

-Marcos Tadeu de Almereyda, fiscal do I.N.R.I., veja minhas credenciais.

Gelei. Mas que caralho este cara queria comigo, será que eu fora denunciado?

-Pois bem meu Irmão, quantos fiéis vivem neste lar?

Questionou-me mecanicamente, depois de puxar seu micro de bolso para registrar as informações para os arquivos centrais. Aquilo me acalmou um pouco, o nanico devia ser mesmo um destes fiscais da vida alheia em serviço de rotina. Melhor que um dos P.M.S.

-Apenas eu, vivo sozinho.

Na verdade eu queria ter dito: Irmão o caralho sua bicha-cristã nojenta! Esta pocilga tem cara de lar? Tu achas que eu tenho cara de otário para me chamar de fiel?

-Idade?

-32

-Emprego?

-Faço parte da maioria.

-Quanto tempo está desempregado? Quantos dígito-televisores em funcionamento?

Fui respondendo e mentindo quase sempre enquanto abria a geladeira e preparava um sanduíche de restos e secava uma Maria Pescoçuda, tudo para não ter que encarar o sujeitinho e seu interrogatório irritante.

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Coffin Souza
O evangelista de Sodoma – parte 4: Nem tudo que é sólido se desmancha com ácido

A voz nasalada de Bob Dylan cantava “Knockin’On Heaven’s Door” em uma pré-histórica gravação em um disco preto e enorme, que eu encontrara em uma de minhas perambulações noturnas pelo lado mais isolado de Nova Sodoma. O artefato para escutar o disco, Ezequiel desviara dos porões do Museu, onde estava se deteriorando pela falta de uso. O som era abafado e cheio de chiados mas parecia mais real e humano que o som metálico das caixas ressonantes que espalhavam as vozes eletrônicas e as músicas sacras por toda a cidade. ”Knock,Knock,Knock…”… Merda!… Não era na porta do céu que estavam batendo, mas na do meu apartamento…

-Boa tarde, irmão! O Sr. deve ser… Se me permite…

Antes que eu pudesse abrir a boca, um sujeitinho baixote, rechonchudo e muito afeminado já havia se imiscuído com um rastro de perfume adocicado e enjoativo junto.

-Sim, sou eu mesmo e tu quem é?

-Marcos Tadeu de Almereyda, fiscal do I.N.R.I., veja minhas credenciais.

Gelei. Mas que caralho este cara queria comigo, será que eu fora denunciado?

-Pois bem meu Irmão, quantos fiéis vivem neste lar?

Questionou-me mecanicamente, depois de puxar seu micro de bolso para registrar as informações para os arquivos centrais. Aquilo me acalmou um pouco, o nanico devia ser mesmo um destes fiscais da vida alheia em serviço de rotina. Melhor que um dos P.M.S.

-Apenas eu, vivo sozinho.

Na verdade eu queria ter dito: Irmão o caralho sua bicha-cristã nojenta! Esta pocilga tem cara de lar? Tu achas que eu tenho cara de otário para me chamar de fiel?

-Idade?

-32

-Emprego?

-Faço parte da maioria.

-Quanto tempo está desempregado? Quantos dígito-televisores em funcionamento?

Fui respondendo e mentindo quase sempre enquanto abria a geladeira e preparava um sanduíche de restos e secava uma Maria Pescoçuda, tudo para não ter que encarar o sujeitinho e seu interrogatório irritante.

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