Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Coffin Souza
Cesar “Coffin” Souza
Nasci em uma madrugada fria de junho de 1962. Continuo gostando de madrugadas e de frio.
Cresci com livros, filmes, gatos & quadrinhos. Queria ser Cientista, Desenhista, Escritor, Pintor, Diretor de Cinema, Ator... Faço um pouco de cada-tudo-junto-misturado. Batalhando como todos para sobreviver ao dia-a-dia, nas horas (poucas) vagas, escrevo, atuo, faço filmes, faço coisas. Orgulho de ter sido cúmplice com Baiestorf/Waslawick/Toniolli/Bortolanza/Jahnke da deliciosa demência chamada Canibal Filmes. Tenho dois blogs: She Demons Zine (shedemonszine.blogspot.com.br ) & Museu da Meia Noite (museudameianoite.blogspot.com.br ). Estou neles. E aqui. Em vários lugares. E em nenhum...
E-mail: coffinsouza@gmail.com






O Evangelista de Sodoma

Estremeci. Alguém da mesa da frente tremeu. Toda a Bodega pareceu se arrepiar. Fez-se o silêncio. Fúnebre. No meio do bar, de pé, imponente, o Fiscal pedira a atenção e retirara do bolso de seu longo casaco azul um documento para ser lido. A temida hora da verdade estava chegando para alguém. Quem teria cometido a maior infração? Quem seria advertido, multado, interrogado, punido, torturado? E, porque? Temi pela minha segurança, mas também pela de todos, já que nos sentíamos como uma grande e ruidosa família de bêbados. Tínhamos vínculos uns com os outros, criados durante os porres Homéricos. E com aquele lugar. Durante muito tempo a única vida que conhecíamos. O homem lia o papel com ares de importância e eu divagando e tapando os ouvidos com as mãos e os cotovelos apoiados na mesa. De cabeça baixa, olhava em volta procurando nas expressões dos rostos, nos mínimos gestos, algo que denuncia se o conteúdo do oficioso papel e suas palavras que eu evitava ouvir. Por fim ele se calou. Enrolou o documento e se dirigiu para o balcão. Pediu um trago de uma infusão da coleção. Tomou-o em um só gole e sem mais delongas dirigiu-se para a porta e sumiu como tinha chegado. O silêncio ainda durou mais alguns eternos segundos, mas logo um arrastar de cadeiras, um tinir de copos e um muxoxo distante retomaram as atividades normais de nosso cotidiano ébrio. Não tive coragem de me levantar e me interar dos acontecimentos que com esforço conseguira abstrair. Pedi um chopp escuro para o Bodegueiro, fazia tempo que não tomava um. Pedi junto uma dose cachaça pura, pois tinha resolvido encher a cara de verdade.

-É por conta da casa, não vai ser descontado dos seus créditos, anunciou o mestre da Bodega- afinal, amanhã quando o ônibus estacionar ali na frente para levar todo o mundo, eu também vou fechar as portas. Ele sentou-se pela primeira vez ao meu lado com a cabeça meio baixa parecendo cansado e envelhecido enquanto falava. Havíamos sido esquecidos no exílio? Que exílio? Sair daqui? Para aonde? Não existia mais a Cidade das Luzes? Que revolução??

Meu chopp havia acabado e o velho amigo estava muito quieto agora, e melancólico. Levantei-me, atravessei o salão correndo e pulei por sobre o balcão, servindo-me generosamente do precioso líquido escuro gelado. Reparei que todos olhavam curiosos o meu atrevimento repentino. Ergui meu caneco e puxei um brinde. Todos se levantaram, me acompanharam e beberam sem falar nada. A Hora do Fumo soou automaticamente, mas desta vez poucos acenderam seus chaminés. Estávamos muito ocupados em tomar nosso último pileque juntos neste lugar. Nesta bodega. Nossa Bodega. Saúúúdee!

 

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Coffin Souza
O Evangelista de Sodoma

Estremeci. Alguém da mesa da frente tremeu. Toda a Bodega pareceu se arrepiar. Fez-se o silêncio. Fúnebre. No meio do bar, de pé, imponente, o Fiscal pedira a atenção e retirara do bolso de seu longo casaco azul um documento para ser lido. A temida hora da verdade estava chegando para alguém. Quem teria cometido a maior infração? Quem seria advertido, multado, interrogado, punido, torturado? E, porque? Temi pela minha segurança, mas também pela de todos, já que nos sentíamos como uma grande e ruidosa família de bêbados. Tínhamos vínculos uns com os outros, criados durante os porres Homéricos. E com aquele lugar. Durante muito tempo a única vida que conhecíamos. O homem lia o papel com ares de importância e eu divagando e tapando os ouvidos com as mãos e os cotovelos apoiados na mesa. De cabeça baixa, olhava em volta procurando nas expressões dos rostos, nos mínimos gestos, algo que denuncia se o conteúdo do oficioso papel e suas palavras que eu evitava ouvir. Por fim ele se calou. Enrolou o documento e se dirigiu para o balcão. Pediu um trago de uma infusão da coleção. Tomou-o em um só gole e sem mais delongas dirigiu-se para a porta e sumiu como tinha chegado. O silêncio ainda durou mais alguns eternos segundos, mas logo um arrastar de cadeiras, um tinir de copos e um muxoxo distante retomaram as atividades normais de nosso cotidiano ébrio. Não tive coragem de me levantar e me interar dos acontecimentos que com esforço conseguira abstrair. Pedi um chopp escuro para o Bodegueiro, fazia tempo que não tomava um. Pedi junto uma dose cachaça pura, pois tinha resolvido encher a cara de verdade.

-É por conta da casa, não vai ser descontado dos seus créditos, anunciou o mestre da Bodega- afinal, amanhã quando o ônibus estacionar ali na frente para levar todo o mundo, eu também vou fechar as portas. Ele sentou-se pela primeira vez ao meu lado com a cabeça meio baixa parecendo cansado e envelhecido enquanto falava. Havíamos sido esquecidos no exílio? Que exílio? Sair daqui? Para aonde? Não existia mais a Cidade das Luzes? Que revolução??

Meu chopp havia acabado e o velho amigo estava muito quieto agora, e melancólico. Levantei-me, atravessei o salão correndo e pulei por sobre o balcão, servindo-me generosamente do precioso líquido escuro gelado. Reparei que todos olhavam curiosos o meu atrevimento repentino. Ergui meu caneco e puxei um brinde. Todos se levantaram, me acompanharam e beberam sem falar nada. A Hora do Fumo soou automaticamente, mas desta vez poucos acenderam seus chaminés. Estávamos muito ocupados em tomar nosso último pileque juntos neste lugar. Nesta bodega. Nossa Bodega. Saúúúdee!

 

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