Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Coffin Souza
Cesar “Coffin” Souza
Nasci em uma madrugada fria de junho de 1962. Continuo gostando de madrugadas e de frio.
Cresci com livros, filmes, gatos & quadrinhos. Queria ser Cientista, Desenhista, Escritor, Pintor, Diretor de Cinema, Ator... Faço um pouco de cada-tudo-junto-misturado. Batalhando como todos para sobreviver ao dia-a-dia, nas horas (poucas) vagas, escrevo, atuo, faço filmes, faço coisas. Orgulho de ter sido cúmplice com Baiestorf/Waslawick/Toniolli/Bortolanza/Jahnke da deliciosa demência chamada Canibal Filmes. Tenho dois blogs: She Demons Zine (shedemonszine.blogspot.com.br ) & Museu da Meia Noite (museudameianoite.blogspot.com.br ). Estou neles. E aqui. Em vários lugares. E em nenhum...
E-mail: coffinsouza@gmail.com






O EVANGELSTA DE SODOMA – Na Fogueira

Desde muito jovem sentira muito orgulho daquelas bolas azuis. Não sem motivo, afinal crescera ouvindo todos elogiarem a genialidade de seu pai, que inventara o sistema revolucionário e econômico, e que tirara a cidade das sombras depois do Grande Apagão. Mil e trezentas grandes esferas foram instaladas nos principais pontos da antiga Santa Helena, capital da pequena província do Espírito Santo das Pedras. Milhares de modelos portáteis foram distribuídos a população, garantindo assim a funcional e belíssima claridade que era vista a muitos quilômetros de distância de suas fronteiras. Com o passar dos anos, a energia tradicional fora restabelecida, mas a capital conservou o sistema e trocou de nome. Por conta disto, sua família sempre tivera privilégios, ele mesmo nunca precisou freqüentar as escolas oficiais e outras atividades impostas. Seu pai o instruíra em mecânica, química, eletricidade e outras coisas práticas, e sua única obrigação era acompanhar a manutenção diária e ser seu substituto mais tarde, como de fato acontecera a mais de vinte anos. Estivera sempre distante de problemas políticos e ideológicos. Nunca entendera quando passaram a circular rumores preocupados sobre escândalos na Santa Sé e a bancarrota da mega corporação que a regia. O que isto iria afetar seu dia-a-dia atarefado, metódico e confortavelmente rotineiro? Por isso, talvez tivesse ficado espantado mais que qualquer outro quando o caos e a desordem tomaram conta das ruas e milhares e milhares de pessoas abandonaram o conforto de seus lares e fugiram para sabe-se lá aonde. Continuara sua tarefa e precisara mesmo trocar alguns dos globos luminosos quebrados por vândalos. Procurara tardia e inutilmente alguma informação na sua Dígito-TV quase sem uso, apenas para ouvir antigos sermões gravados sobre o fim dos tempos e comentários desencontrados sobre sua amada cidade ser o último bastião de um regime político que esfarelara-se.

Com seus ombros caídos e passos melancólicos dirigiu-se para o último grupo de luzes. Sentou-se em uma mureta protetora do poste e tirou um cigarro do bolso. Agora já não havia mais a Hora do Fumo e ninguém para vê-lo fazer uma pausa em sua obrigação. Olhando para a brasa e para a fumaça que subia, decidiu que iria deixar pelo menos uma das esferas químicas vivas. Seu brilho seria uma homenagem ao seu falecido pai e um marco em meio ao nada. Escutou passos arrastados e sobressaltou-se. A pelo menos duas semanas não vira nem ouvira uma viva alma por aquelas bandas. Seria um de seus desconhecidos superiores, deixado para trás para fiscalizar seu trabalho solitário? Nunca ninguém havia reclamado diretamente para ele, somente através de ofícios digitais e gravações. Levantou rápido e jogou o cigarro longe. Um homem velho e magro se aproximava, saindo da escuridão, arrastando seus chinelos. Pobre ancião, pensou, deve ter sido esquecido pela família ou era outro como ele ligado demais à cidade e com receio do mundo lá fora.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9

Coffin Souza
O EVANGELSTA DE SODOMA – Na Fogueira

Desde muito jovem sentira muito orgulho daquelas bolas azuis. Não sem motivo, afinal crescera ouvindo todos elogiarem a genialidade de seu pai, que inventara o sistema revolucionário e econômico, e que tirara a cidade das sombras depois do Grande Apagão. Mil e trezentas grandes esferas foram instaladas nos principais pontos da antiga Santa Helena, capital da pequena província do Espírito Santo das Pedras. Milhares de modelos portáteis foram distribuídos a população, garantindo assim a funcional e belíssima claridade que era vista a muitos quilômetros de distância de suas fronteiras. Com o passar dos anos, a energia tradicional fora restabelecida, mas a capital conservou o sistema e trocou de nome. Por conta disto, sua família sempre tivera privilégios, ele mesmo nunca precisou freqüentar as escolas oficiais e outras atividades impostas. Seu pai o instruíra em mecânica, química, eletricidade e outras coisas práticas, e sua única obrigação era acompanhar a manutenção diária e ser seu substituto mais tarde, como de fato acontecera a mais de vinte anos. Estivera sempre distante de problemas políticos e ideológicos. Nunca entendera quando passaram a circular rumores preocupados sobre escândalos na Santa Sé e a bancarrota da mega corporação que a regia. O que isto iria afetar seu dia-a-dia atarefado, metódico e confortavelmente rotineiro? Por isso, talvez tivesse ficado espantado mais que qualquer outro quando o caos e a desordem tomaram conta das ruas e milhares e milhares de pessoas abandonaram o conforto de seus lares e fugiram para sabe-se lá aonde. Continuara sua tarefa e precisara mesmo trocar alguns dos globos luminosos quebrados por vândalos. Procurara tardia e inutilmente alguma informação na sua Dígito-TV quase sem uso, apenas para ouvir antigos sermões gravados sobre o fim dos tempos e comentários desencontrados sobre sua amada cidade ser o último bastião de um regime político que esfarelara-se.

Com seus ombros caídos e passos melancólicos dirigiu-se para o último grupo de luzes. Sentou-se em uma mureta protetora do poste e tirou um cigarro do bolso. Agora já não havia mais a Hora do Fumo e ninguém para vê-lo fazer uma pausa em sua obrigação. Olhando para a brasa e para a fumaça que subia, decidiu que iria deixar pelo menos uma das esferas químicas vivas. Seu brilho seria uma homenagem ao seu falecido pai e um marco em meio ao nada. Escutou passos arrastados e sobressaltou-se. A pelo menos duas semanas não vira nem ouvira uma viva alma por aquelas bandas. Seria um de seus desconhecidos superiores, deixado para trás para fiscalizar seu trabalho solitário? Nunca ninguém havia reclamado diretamente para ele, somente através de ofícios digitais e gravações. Levantou rápido e jogou o cigarro longe. Um homem velho e magro se aproximava, saindo da escuridão, arrastando seus chinelos. Pobre ancião, pensou, deve ter sido esquecido pela família ou era outro como ele ligado demais à cidade e com receio do mundo lá fora.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9