Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
D. A. Potens
D.A. Potens, pseudônimo de Danilo de Almeida, 23 anos, reside à Capital de São Paulo, é escritor de terror, horror, suspense, drama e fantasia; sendo suas inspirações os filmes de terror japoneses, bem como os grandes clássicos como Sexta-feira 13, além de animes do gênero. Atualmente escreve contos imersos no estilo gore e os publica na plataforma de publicação Wattpad. Alguns deles são: A Dama de Branco, Sursum Corda, Soterrados e A Oração da Cabra Preta, seu texto mais contemplado. Acredita que o terror é uma sublime ferramenta dos demônios humanos, por mais que tentem escondê-los a todo custo por baixo de máscaras etéreas.





A Metamorfose

      Por seus dedos molhados foi conduzida a sua boca, deixando para trás pedaços de sua doçura. A casca deu lugar à massa bege, o cabo foi tirado e enfim, o fruto tornou-se somente o espectro de um deleite efêmero diante da televisão ligada às 03h00min, ao som caótico do filme da madrugada.

      Roberto deixou o restante da maçã sobre a mesa de vidro, coçou os olhos com as mãos nuas e jogou-se na maciez do sofá de couro que o envolvia. Absorto em pensamentos aleatórios, ele observava atentamente o ponto de luz vermelha que passava de um lado a outro pelos móveis da casa. No início, preocupou-se como qualquer outro adolescente, mas depois de cinco noites e cinco dias trancado dentro de sua casa no Centro de São Paulo, conformou-se em sobreviver com a ideia de que mesmo a morte já não era o suficiente para tirá-lo dali.
O ponto de luz logo desapareceu. Roberto levantou-se, desligou a televisão e observou a rua vazia pela janela da sala. Eu preciso dormir. Voltou a se sentar no sofá, deixando mais um talo de maçã sobre tantos outros dispostos em um vasilhame.

      Os olhos cederam como uma âncora, levando seu corpo ao profundo sono onde sempre via a si mesmo correndo em direção a uma maçã gigante enquanto a voz de sua mãe o chamava.

      As cenas se desenvolveram em elipse, até que Roberto despertasse.

      Sobre a mesa, o vasilhame já não continha talos de maçãs, mas frutos inteiros, vermelhos como sangue. O rapaz coçou os olhos e se levantou indo ao banheiro para aliviar a bexiga. Observou seu rosto inchado no espelho, as pálpebras enrugadas e as olheiras obscuras como duas moedas de bronze. Bocejou, lavou o rosto e despiu-se, dirigindo-se até o chuveiro onde dois corpos como o seu estavam em posição fetal.

      Roberto agachou-se e cutucou o ombro de um dos corpos, despertando-o.

      — Ei, acorda aí. Preciso descansar…

      Seu outro eu ergueu a cabeça, ainda sonolento.

      — Poxa, eu só dormi um pouquinho. Por que não chama o outro?

      — Porque ele já trabalhou demais. Levante, tem maçãs na mesa.
      O outro resmungou ao se levantar à medida que Roberto encolhia-se no chuveiro, fechando os olhos lentamente sobre a água fria abaixo de seu corpo nu.

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D. A. Potens
A Metamorfose

      Por seus dedos molhados foi conduzida a sua boca, deixando para trás pedaços de sua doçura. A casca deu lugar à massa bege, o cabo foi tirado e enfim, o fruto tornou-se somente o espectro de um deleite efêmero diante da televisão ligada às 03h00min, ao som caótico do filme da madrugada.

      Roberto deixou o restante da maçã sobre a mesa de vidro, coçou os olhos com as mãos nuas e jogou-se na maciez do sofá de couro que o envolvia. Absorto em pensamentos aleatórios, ele observava atentamente o ponto de luz vermelha que passava de um lado a outro pelos móveis da casa. No início, preocupou-se como qualquer outro adolescente, mas depois de cinco noites e cinco dias trancado dentro de sua casa no Centro de São Paulo, conformou-se em sobreviver com a ideia de que mesmo a morte já não era o suficiente para tirá-lo dali.
O ponto de luz logo desapareceu. Roberto levantou-se, desligou a televisão e observou a rua vazia pela janela da sala. Eu preciso dormir. Voltou a se sentar no sofá, deixando mais um talo de maçã sobre tantos outros dispostos em um vasilhame.

      Os olhos cederam como uma âncora, levando seu corpo ao profundo sono onde sempre via a si mesmo correndo em direção a uma maçã gigante enquanto a voz de sua mãe o chamava.

      As cenas se desenvolveram em elipse, até que Roberto despertasse.

      Sobre a mesa, o vasilhame já não continha talos de maçãs, mas frutos inteiros, vermelhos como sangue. O rapaz coçou os olhos e se levantou indo ao banheiro para aliviar a bexiga. Observou seu rosto inchado no espelho, as pálpebras enrugadas e as olheiras obscuras como duas moedas de bronze. Bocejou, lavou o rosto e despiu-se, dirigindo-se até o chuveiro onde dois corpos como o seu estavam em posição fetal.

      Roberto agachou-se e cutucou o ombro de um dos corpos, despertando-o.

      — Ei, acorda aí. Preciso descansar…

      Seu outro eu ergueu a cabeça, ainda sonolento.

      — Poxa, eu só dormi um pouquinho. Por que não chama o outro?

      — Porque ele já trabalhou demais. Levante, tem maçãs na mesa.
      O outro resmungou ao se levantar à medida que Roberto encolhia-se no chuveiro, fechando os olhos lentamente sobre a água fria abaixo de seu corpo nu.

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