A Oração da Cabra Preta - D.A. Potens
D. A. Potens
D.A. Potens, pseudônimo de Danilo de Almeida, 23 anos, reside à Capital de São Paulo, é escritor de terror, horror, suspense, drama e fantasia; sendo suas inspirações os filmes de terror japoneses, bem como os grandes clássicos como Sexta-feira 13, além de animes do gênero. Atualmente escreve contos imersos no estilo gore e os publica na plataforma de publicação Wattpad. Alguns deles são: A Dama de Branco, Sursum Corda, Soterrados e A Oração da Cabra Preta, seu texto mais contemplado. Acredita que o terror é uma sublime ferramenta dos demônios humanos, por mais que tentem escondê-los a todo custo por baixo de máscaras etéreas.





A Oração da Cabra Preta

3 de Fevereiro de 1992, São Paulo, Rua Apa.

Estou andando pela rua, arrastando um carrinho de madeira com uma cordinha encardida. Ele é velho e sujo, tão pequeno e mequetrefe, mas mamãe diz que é o que eu posso ter. Somente um brinquedinho sem valor. Eu aceito. Moramos ali, naquela casa quebrada feita de tijolos, fedida que dói, onde os ratos correm. São muitas as noites nas quais minha barriga ronca. Mamãe pede para que eu durma, pois a sensação desaparecerá. E realmente se vai. Depois de algum tempo essa angústia some. Mas nunca entendi por que eu não posso ter o que a garota que mora na outra rua tem. Ela anda tão feliz. Tão alegre. Um dia eu a vi comendo uma nuvem rosa. Mamãe disse que algum dia eu poderei comer um pouco daquilo, quando Deus nos ajudar. Quem é esse Deus? Ela vive dizendo que ele nos ajudará. Mas eu não o vejo…

O carrinho tropeça numa pedra do chão e caí. Eu me abaixo e me levanto. A rua continua movimentada. Quem sou eu? Agora, eu sou Ricardo. Mas até hoje não me reconheço quando eu vou à escola, porque odeio aquele lugar! Os meninos me chamam de macaco e riem da minha cara. Eu não entendo direito. Acho que é por causa da minha cor. Mas também me chamam de gordo. Ter gordurinha é tão ruim assim? Parece que sou um monstro. Ás vezes tenho raiva de carregar esse peso comigo. Queria que eles morressem logo e me deixassem em paz.

Eles são mais finos do que eu.

Acho que eles gostam de ser daquele jeito.

Quem sou eu, você pode me ajudar? Mamãe disse que um dia eu vou me curar. Não sei do que ela fala, mas quando ela me abraça, sinto um calor bom como se preenchesse esse vazio. O carrinho também é muito querido. Gosto como ele se arrasta, sem se quebrar, enquanto eu corro sem rumo.

Pena que ele é velho! Eu quero um carrinho novo!

Os meninos dizem que eu sou uma baleia. Eu fico feliz. A baleia é um animal bonito, mesmo eu só tendo visto esse bicho pela televisão do bar do Seu Luiz. Já eles parecem leões, ou seriam pequenos pássaros pretos dentro de uma gaiola? Pouco foi o tempo que eu tive sossego. Um dia depois, naquela mesma rua, eu seria obrigado a gritar:

— Meu carrinho! Não faz isso comigo!

Aquela menina chutou de novo meu carrinho. Por que está fazendo isso? Por quê? Você sabe? Peça para que ela pare, por favor. É o meu carrinho. Ela está pisando no meu carrinho! É a única coisa de valiosa que eu tenho e eu não quero perdê-la. É com ele que eu durmo. É ele que me alegra nesses dias tão escuros. Minha mãe comprou com o pouco que tinha e agora ele está sendo chutado.

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D. A. Potens
A Oração da Cabra Preta

3 de Fevereiro de 1992, São Paulo, Rua Apa.

Estou andando pela rua, arrastando um carrinho de madeira com uma cordinha encardida. Ele é velho e sujo, tão pequeno e mequetrefe, mas mamãe diz que é o que eu posso ter. Somente um brinquedinho sem valor. Eu aceito. Moramos ali, naquela casa quebrada feita de tijolos, fedida que dói, onde os ratos correm. São muitas as noites nas quais minha barriga ronca. Mamãe pede para que eu durma, pois a sensação desaparecerá. E realmente se vai. Depois de algum tempo essa angústia some. Mas nunca entendi por que eu não posso ter o que a garota que mora na outra rua tem. Ela anda tão feliz. Tão alegre. Um dia eu a vi comendo uma nuvem rosa. Mamãe disse que algum dia eu poderei comer um pouco daquilo, quando Deus nos ajudar. Quem é esse Deus? Ela vive dizendo que ele nos ajudará. Mas eu não o vejo…

O carrinho tropeça numa pedra do chão e caí. Eu me abaixo e me levanto. A rua continua movimentada. Quem sou eu? Agora, eu sou Ricardo. Mas até hoje não me reconheço quando eu vou à escola, porque odeio aquele lugar! Os meninos me chamam de macaco e riem da minha cara. Eu não entendo direito. Acho que é por causa da minha cor. Mas também me chamam de gordo. Ter gordurinha é tão ruim assim? Parece que sou um monstro. Ás vezes tenho raiva de carregar esse peso comigo. Queria que eles morressem logo e me deixassem em paz.

Eles são mais finos do que eu.

Acho que eles gostam de ser daquele jeito.

Quem sou eu, você pode me ajudar? Mamãe disse que um dia eu vou me curar. Não sei do que ela fala, mas quando ela me abraça, sinto um calor bom como se preenchesse esse vazio. O carrinho também é muito querido. Gosto como ele se arrasta, sem se quebrar, enquanto eu corro sem rumo.

Pena que ele é velho! Eu quero um carrinho novo!

Os meninos dizem que eu sou uma baleia. Eu fico feliz. A baleia é um animal bonito, mesmo eu só tendo visto esse bicho pela televisão do bar do Seu Luiz. Já eles parecem leões, ou seriam pequenos pássaros pretos dentro de uma gaiola? Pouco foi o tempo que eu tive sossego. Um dia depois, naquela mesma rua, eu seria obrigado a gritar:

— Meu carrinho! Não faz isso comigo!

Aquela menina chutou de novo meu carrinho. Por que está fazendo isso? Por quê? Você sabe? Peça para que ela pare, por favor. É o meu carrinho. Ela está pisando no meu carrinho! É a única coisa de valiosa que eu tenho e eu não quero perdê-la. É com ele que eu durmo. É ele que me alegra nesses dias tão escuros. Minha mãe comprou com o pouco que tinha e agora ele está sendo chutado.

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