A Oração da Cabra Preta - D.A. Potens
D. A. Potens
D.A. Potens, pseudônimo de Danilo de Almeida, 23 anos, reside à Capital de São Paulo, é escritor de terror, horror, suspense, drama e fantasia; sendo suas inspirações os filmes de terror japoneses, bem como os grandes clássicos como Sexta-feira 13, além de animes do gênero. Atualmente escreve contos imersos no estilo gore e os publica na plataforma de publicação Wattpad. Alguns deles são: A Dama de Branco, Sursum Corda, Soterrados e A Oração da Cabra Preta, seu texto mais contemplado. Acredita que o terror é uma sublime ferramenta dos demônios humanos, por mais que tentem escondê-los a todo custo por baixo de máscaras etéreas.





A Oração da Cabra Preta

— Toma! Seu macaco podre! — a menina loira ralhou, sorrindo em seguida. — E nunca mais se atreva a aparecer na minha rua com esse lixo. — Esticou a perna e o chutou outra vez.

Ricardo correu desesperadamente. Tropeçou em seu chinelo, os joelhos ralaram no chão e seus dentes superiores bateram contra o asfalto, amolecendo enquanto os dedos inchados seguravam o brinquedo com cuidado. Ele se arrastou, pegou e abraçou o amado carrinho. Ao seu lado, a garota gargalhava junto com seus amigos como demônios vindos direto do inferno.

— É isso o que o macaco merece! — Um dos garotos gritou e foi parabenizado pelos demais com um coro de gargalhadas espalhafatosas.

Mamãe, mamãe, me ajuda! Onde está a minha mãe? Chama ela, por favor!

— Por que estão fazendo isso comigo? Respondam!

Eles estão ao meu redor. Eu preciso correr. Mas meu joelho dói. Está saindo muito sangue. Eu queria uma mão amiga para me tirar daqui. Você, que está me vendo, pode me ajudar? Ajude, por favor.

Afaste-os daqui. Eu só queria andar com meu carrinho. Mas essa menina é ruim. Foi ela que chamou os amigos para fazerem isso. Eu vou… me levantar e correr o mais rápido que eu puder.

Perdido ele se foi. A menina apontou o dedo em riste na sua direção. Os meninos o seguiram, tentando capturá-lo para que fosse punido por ser fraco. Ricardo, sabendo que se não fizesse algo, seria espancado, entrou em um buraco lateral da mureta de um casarão velho, do qual lhe disseram para nunca se aproximar. O ambiente era mais frio do que na rua, já não havia escapatória senão aquela.

Aqui é tão sujo e cheio de plantinhas grudadas no chão. Meu dente está doendo. Está saindo muito sangue. Mamãe ensinou a mim que eu colocasse a mão quando isso acontecesse. Dizia que pararia, mas agora está pingando. Minha mão está toda vermelha. Vou me sentar. Eu preciso sair deste inferno.

Ele chorou, vendo sua mão manchada do líquido rubro que escorria da sua boca. Sentou-se na escadaria à frente da porta da estrutura sepulcral, quieta e monótona, a qual poderia lhe oferecer paz enquanto os outros o chamavam de “Gordo maldito” por detrás do muro.

Ele se abraçou com o carrinho na escadaria e fechou os olhos, fazendo como sua mãe havia lhe ensinado quando sentisse dor, principalmente a da aflição das misérias que o acometiam desde pequeno. Afinal, esta era a sina de Ricardo: ser pobre, não ter o que comer, mas engordar devido à doença endócrina que transformava qualquer alimento — por mínimo que fosse — em gordura.

— Cadê a mamãe? Cadê? — murmurava, até que ouvi a voz que conversava comigo dizer:

Ricardo, Jurema está morta.

***

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D. A. Potens
A Oração da Cabra Preta

— Toma! Seu macaco podre! — a menina loira ralhou, sorrindo em seguida. — E nunca mais se atreva a aparecer na minha rua com esse lixo. — Esticou a perna e o chutou outra vez.

Ricardo correu desesperadamente. Tropeçou em seu chinelo, os joelhos ralaram no chão e seus dentes superiores bateram contra o asfalto, amolecendo enquanto os dedos inchados seguravam o brinquedo com cuidado. Ele se arrastou, pegou e abraçou o amado carrinho. Ao seu lado, a garota gargalhava junto com seus amigos como demônios vindos direto do inferno.

— É isso o que o macaco merece! — Um dos garotos gritou e foi parabenizado pelos demais com um coro de gargalhadas espalhafatosas.

Mamãe, mamãe, me ajuda! Onde está a minha mãe? Chama ela, por favor!

— Por que estão fazendo isso comigo? Respondam!

Eles estão ao meu redor. Eu preciso correr. Mas meu joelho dói. Está saindo muito sangue. Eu queria uma mão amiga para me tirar daqui. Você, que está me vendo, pode me ajudar? Ajude, por favor.

Afaste-os daqui. Eu só queria andar com meu carrinho. Mas essa menina é ruim. Foi ela que chamou os amigos para fazerem isso. Eu vou… me levantar e correr o mais rápido que eu puder.

Perdido ele se foi. A menina apontou o dedo em riste na sua direção. Os meninos o seguiram, tentando capturá-lo para que fosse punido por ser fraco. Ricardo, sabendo que se não fizesse algo, seria espancado, entrou em um buraco lateral da mureta de um casarão velho, do qual lhe disseram para nunca se aproximar. O ambiente era mais frio do que na rua, já não havia escapatória senão aquela.

Aqui é tão sujo e cheio de plantinhas grudadas no chão. Meu dente está doendo. Está saindo muito sangue. Mamãe ensinou a mim que eu colocasse a mão quando isso acontecesse. Dizia que pararia, mas agora está pingando. Minha mão está toda vermelha. Vou me sentar. Eu preciso sair deste inferno.

Ele chorou, vendo sua mão manchada do líquido rubro que escorria da sua boca. Sentou-se na escadaria à frente da porta da estrutura sepulcral, quieta e monótona, a qual poderia lhe oferecer paz enquanto os outros o chamavam de “Gordo maldito” por detrás do muro.

Ele se abraçou com o carrinho na escadaria e fechou os olhos, fazendo como sua mãe havia lhe ensinado quando sentisse dor, principalmente a da aflição das misérias que o acometiam desde pequeno. Afinal, esta era a sina de Ricardo: ser pobre, não ter o que comer, mas engordar devido à doença endócrina que transformava qualquer alimento — por mínimo que fosse — em gordura.

— Cadê a mamãe? Cadê? — murmurava, até que ouvi a voz que conversava comigo dizer:

Ricardo, Jurema está morta.

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