Transeunte - D.A. Potens
D. A. Potens
D.A. Potens, pseudônimo de Danilo de Almeida, 23 anos, reside à Capital de São Paulo, é escritor de terror, horror, suspense, drama e fantasia; sendo suas inspirações os filmes de terror japoneses, bem como os grandes clássicos como Sexta-feira 13, além de animes do gênero. Atualmente escreve contos imersos no estilo gore e os publica na plataforma de publicação Wattpad. Alguns deles são: A Dama de Branco, Sursum Corda, Soterrados e A Oração da Cabra Preta, seu texto mais contemplado. Acredita que o terror é uma sublime ferramenta dos demônios humanos, por mais que tentem escondê-los a todo custo por baixo de máscaras etéreas.





Transeunte

Determinado em procurar um lugar seguro, caminhei por muitos lugares de São Paulo e conheci espíritos de diversas épocas e gêneros até, enfim, conhecer um senhor grisalho de nome Geraldo, com falecimento datado no século passado, cujo conhecimento era maior e mais espesso que o meu. Na ocasião, estávamos do lado de fora de um restaurante comunitário, alimentando-nos do prazer dos vivos que se deliciavam com os pratos feitos do local. Geraldo olhava para mim com certo ar risonho, vendo-me tentar pegar as linhas de satisfação exaladas dos vivos como um palhaço atrapalhado.

— Você sabe que isso não serve para nada, não? Eu mesmo só pego ás vezes por hobbie. — ele comentou.

Estranhei sua fala e repliquei com a linha de satisfação pendurada em minha boca como um fio de macarrão:

— Desculpe, senhor. Do que está falando?

— Dessas linhas. Elas não servem para nada a não ser lembrar-nos de sensações humanas. Mas acho que já não somos mais da raça deles, não acha?

De início eu o achei louco, mas concordei com sua dialética ao pescar em minhas memórias as vezes em que o Padre da paróquia próxima da minha antiga casa dizia que as coisas humanas eram dispersadas quando morremos, abrindo um caminho que levava a Deus para desfrutarmos o sono eterno. Pergunto-me até hoje de onde ele tirou que dormiríamos eternamente. Acredito que quem escrevera aquela parte na bíblia se referia aos cadáveres e não aos espíritos, afinal, porra, eu estava aqui até agora, me fudendo, vivendo como um mendigo espiritual enquanto uma alma penada centenária dizia coisas desconexas, mas, com um sentido oculto.

— Por que ainda estamos aqui? Não vi até hoje uma alma que tenha subido.

— É por que de alguma maneira ainda estamos ligados à nossa vida terrena. Isso fode a gente, velhote.

— Não sei por que estou ligado a essa merda.

— Poucos sabem. Por isso existem milhares de espíritos como você tentando sugar a satisfação dos vivos. Mas veja o que acabamos fazendo com eles… — Ele apontou para o rapaz do qual eu retirei alguns fios de satisfação.
Vi que o prazer de comer um prato simples de arroz e feijão, com batatas fritas e um bife borrachudo tinha se transformado em apatia e desgosto.

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D. A. Potens
Transeunte

Determinado em procurar um lugar seguro, caminhei por muitos lugares de São Paulo e conheci espíritos de diversas épocas e gêneros até, enfim, conhecer um senhor grisalho de nome Geraldo, com falecimento datado no século passado, cujo conhecimento era maior e mais espesso que o meu. Na ocasião, estávamos do lado de fora de um restaurante comunitário, alimentando-nos do prazer dos vivos que se deliciavam com os pratos feitos do local. Geraldo olhava para mim com certo ar risonho, vendo-me tentar pegar as linhas de satisfação exaladas dos vivos como um palhaço atrapalhado.

— Você sabe que isso não serve para nada, não? Eu mesmo só pego ás vezes por hobbie. — ele comentou.

Estranhei sua fala e repliquei com a linha de satisfação pendurada em minha boca como um fio de macarrão:

— Desculpe, senhor. Do que está falando?

— Dessas linhas. Elas não servem para nada a não ser lembrar-nos de sensações humanas. Mas acho que já não somos mais da raça deles, não acha?

De início eu o achei louco, mas concordei com sua dialética ao pescar em minhas memórias as vezes em que o Padre da paróquia próxima da minha antiga casa dizia que as coisas humanas eram dispersadas quando morremos, abrindo um caminho que levava a Deus para desfrutarmos o sono eterno. Pergunto-me até hoje de onde ele tirou que dormiríamos eternamente. Acredito que quem escrevera aquela parte na bíblia se referia aos cadáveres e não aos espíritos, afinal, porra, eu estava aqui até agora, me fudendo, vivendo como um mendigo espiritual enquanto uma alma penada centenária dizia coisas desconexas, mas, com um sentido oculto.

— Por que ainda estamos aqui? Não vi até hoje uma alma que tenha subido.

— É por que de alguma maneira ainda estamos ligados à nossa vida terrena. Isso fode a gente, velhote.

— Não sei por que estou ligado a essa merda.

— Poucos sabem. Por isso existem milhares de espíritos como você tentando sugar a satisfação dos vivos. Mas veja o que acabamos fazendo com eles… — Ele apontou para o rapaz do qual eu retirei alguns fios de satisfação.
Vi que o prazer de comer um prato simples de arroz e feijão, com batatas fritas e um bife borrachudo tinha se transformado em apatia e desgosto.

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