Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
D. A. Potens
D.A. Potens, pseudônimo de Danilo de Almeida, 23 anos, reside à Capital de São Paulo, é escritor de terror, horror, suspense, drama e fantasia; sendo suas inspirações os filmes de terror japoneses, bem como os grandes clássicos como Sexta-feira 13, além de animes do gênero. Atualmente escreve contos imersos no estilo gore e os publica na plataforma de publicação Wattpad. Alguns deles são: A Dama de Branco, Sursum Corda, Soterrados e A Oração da Cabra Preta, seu texto mais contemplado. Acredita que o terror é uma sublime ferramenta dos demônios humanos, por mais que tentem escondê-los a todo custo por baixo de máscaras etéreas.





Transeunte

Cheguei a procurar por Geraldo, mas ao chegar em seu cafofo preferido, localizado no canto de um estacionamento sujo do centro da cidade, não encontrei nada se não pelos ratos que andavam pelos canos de lavagem de carros. Naquele ambiente, pela primeira vez senti medo de ficar sozinho na morte até que ouvi um cochicho que aumentou gradualmente conforme o vento rodopiava com a ajuda das primeiras gotas de chuva daquela manhã.

— Ail… Ailton — ouvi a voz de Geraldo me chamar e gritei por ele. Contudo, por mais que eu girasse meu corpo, não conseguia captar de onde estava vindo a voz.

Minha aura estremeceu quando um raio resplandeceu no céu, fazendo a luz do relâmpago inundar as frestas do estacionamento, balançando-me com o golpe do som mortífero. Quando isto aconteceu, uma sombra se ergueu como um leque na parede ao fundo do galpão, sufocando-me como se de alguma forma o oxigênio faltasse em meus pulmões inexistentes. Assim que essa sensação me arrematou, lembrei-me da vez que Geraldo e outro espírito, chamado Adriana, contou-me sobre os maiores perigos do mundo espiritual. Estávamos só eu e eles no terraço de um prédio, avistando o horizonte poluído de São Paulo em meio às suas luzes disformes como vagalumes dispersos em um arbusto coberto pela escuridão.

— Mesmo sendo espíritos, temos que ter cuidado com o que anda por aí, Ailton — disse Geraldo, coçando sua cabeça de neve.

— Tipo o quê?

— Demônios, não? — Adriana disse, enroscando os braços por meu pescoço.

Apenas uma das suicidas que encontramos pelo caminho, a qual se arrependeu de dar um fim à própria vida quando percebeu que os problemas sempre existiriam até que ela os resolvesse com sua própria vontade, a despeito de ter de suportar toda a loucura que é ser um espírito imortal na grande São Paulo.

— O que eles fazem? São como a bíblia dizem? — perguntei somente para confirmar as deduções desenvolvidas no decorrer dos anos de muitos sermões dos Padres que conheci.

— São parecidos, né — respondeu Geraldo. — Eles se alimentam de almas, espíritos como nós e reduzem nossa liberdade ao nada. Por isso, muito além de refletirmos até alcançarmos nível suficiente para sermos levados ao céu, precisamos lidar com esses demônios com cautela. Uma vez eu quase me deparei com um, mas por sorte consegui escapar mesmo vendo que meus colegas tinham sido sugados por um deles. Lembro-me até hoje da sensação de falta de ar, mesmo eu sendo uma alma…

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D. A. Potens
Transeunte

Cheguei a procurar por Geraldo, mas ao chegar em seu cafofo preferido, localizado no canto de um estacionamento sujo do centro da cidade, não encontrei nada se não pelos ratos que andavam pelos canos de lavagem de carros. Naquele ambiente, pela primeira vez senti medo de ficar sozinho na morte até que ouvi um cochicho que aumentou gradualmente conforme o vento rodopiava com a ajuda das primeiras gotas de chuva daquela manhã.

— Ail… Ailton — ouvi a voz de Geraldo me chamar e gritei por ele. Contudo, por mais que eu girasse meu corpo, não conseguia captar de onde estava vindo a voz.

Minha aura estremeceu quando um raio resplandeceu no céu, fazendo a luz do relâmpago inundar as frestas do estacionamento, balançando-me com o golpe do som mortífero. Quando isto aconteceu, uma sombra se ergueu como um leque na parede ao fundo do galpão, sufocando-me como se de alguma forma o oxigênio faltasse em meus pulmões inexistentes. Assim que essa sensação me arrematou, lembrei-me da vez que Geraldo e outro espírito, chamado Adriana, contou-me sobre os maiores perigos do mundo espiritual. Estávamos só eu e eles no terraço de um prédio, avistando o horizonte poluído de São Paulo em meio às suas luzes disformes como vagalumes dispersos em um arbusto coberto pela escuridão.

— Mesmo sendo espíritos, temos que ter cuidado com o que anda por aí, Ailton — disse Geraldo, coçando sua cabeça de neve.

— Tipo o quê?

— Demônios, não? — Adriana disse, enroscando os braços por meu pescoço.

Apenas uma das suicidas que encontramos pelo caminho, a qual se arrependeu de dar um fim à própria vida quando percebeu que os problemas sempre existiriam até que ela os resolvesse com sua própria vontade, a despeito de ter de suportar toda a loucura que é ser um espírito imortal na grande São Paulo.

— O que eles fazem? São como a bíblia dizem? — perguntei somente para confirmar as deduções desenvolvidas no decorrer dos anos de muitos sermões dos Padres que conheci.

— São parecidos, né — respondeu Geraldo. — Eles se alimentam de almas, espíritos como nós e reduzem nossa liberdade ao nada. Por isso, muito além de refletirmos até alcançarmos nível suficiente para sermos levados ao céu, precisamos lidar com esses demônios com cautela. Uma vez eu quase me deparei com um, mas por sorte consegui escapar mesmo vendo que meus colegas tinham sido sugados por um deles. Lembro-me até hoje da sensação de falta de ar, mesmo eu sendo uma alma…

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