Transeunte - D.A. Potens
D. A. Potens
D.A. Potens, pseudônimo de Danilo de Almeida, 23 anos, reside à Capital de São Paulo, é escritor de terror, horror, suspense, drama e fantasia; sendo suas inspirações os filmes de terror japoneses, bem como os grandes clássicos como Sexta-feira 13, além de animes do gênero. Atualmente escreve contos imersos no estilo gore e os publica na plataforma de publicação Wattpad. Alguns deles são: A Dama de Branco, Sursum Corda, Soterrados e A Oração da Cabra Preta, seu texto mais contemplado. Acredita que o terror é uma sublime ferramenta dos demônios humanos, por mais que tentem escondê-los a todo custo por baixo de máscaras etéreas.





Transeunte

Incapaz de ver o que se dirigia a mim por causa dos raios de luz intensos que surgiram do teto do estacionamento, senti as unhas e objetos fincados em meu corpo se dissolverem como espuma, aliviando minha dor. Com o braço que me restara, levantei a mão à procura da salvação que tanto busquei e então, uma mão retribuiu meu gesto, puxando-me para cima de modo com que meu eu se unisse à luz, desaparecendo.

A luminosidade aos poucos se dissolveu e quando pude ver quem me segurava, enxerguei Geraldo à frente, com seu grande e debochado sorriso de sempre. Ao redor havia um jardim de flores brancas e ao fundo um chalé nos aguardava.

— Onde estamos? — perguntei.

— No paraíso… — ele respondeu.

— Obrigado por me salvar.

— Brincadeira. Acho que você devia perder as esperanças. Olhe para cima.

Tarde demais, vislumbrei o grande portão acima dos céus, feito de pedras negras, de onde podia se ler a frase de Dante sobre a desesperança que habita o reino do inferno. Do mesmo modo, soube que Geraldo jamais foi um espírito normal e que, da mesma maneira que somos enganados por humanos em vida, somos manipulados pelos demônios que os desencarnados se tornam. No entanto, mesmo ali uma esperança crescia dentro de mim ao deixar com que a maldade se apossasse de meu coração e, em um só golpe, cortasse o pescoço de Geraldo, que sorriu e declarou:

— No fim da vida ou da morte, é difícil escaparmos de tudo sem que nos transformemos nos demônios que nos torturaram.

— Na verdade, acho que na vida ou na morte nos fudemos de qualquer jeito. Então, bora botar fogo no puteiro — disse, vendo o pescoço de Geraldo se regenerar e o jardim se transformar em um tapete carmesim de prostitutas esquartejadas que não demoraram a se levantar para satisfazer os meus e os desejos de Geraldo em prolongados e eternos jatos de gala e sangue, afinal, nem só de prazer é feito o inferno, mas da anunciação de que vivemos preocupados demais para vivermos de verdade. Aguardaremos a morte para curtirmos no inferno? Nem todos suportam o calor do fogo no rabo destas súcubos… muito menos a alma de um engomadinho reverberando aos cantos como é ser uma alma penada.

 

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D. A. Potens
Transeunte

Incapaz de ver o que se dirigia a mim por causa dos raios de luz intensos que surgiram do teto do estacionamento, senti as unhas e objetos fincados em meu corpo se dissolverem como espuma, aliviando minha dor. Com o braço que me restara, levantei a mão à procura da salvação que tanto busquei e então, uma mão retribuiu meu gesto, puxando-me para cima de modo com que meu eu se unisse à luz, desaparecendo.

A luminosidade aos poucos se dissolveu e quando pude ver quem me segurava, enxerguei Geraldo à frente, com seu grande e debochado sorriso de sempre. Ao redor havia um jardim de flores brancas e ao fundo um chalé nos aguardava.

— Onde estamos? — perguntei.

— No paraíso… — ele respondeu.

— Obrigado por me salvar.

— Brincadeira. Acho que você devia perder as esperanças. Olhe para cima.

Tarde demais, vislumbrei o grande portão acima dos céus, feito de pedras negras, de onde podia se ler a frase de Dante sobre a desesperança que habita o reino do inferno. Do mesmo modo, soube que Geraldo jamais foi um espírito normal e que, da mesma maneira que somos enganados por humanos em vida, somos manipulados pelos demônios que os desencarnados se tornam. No entanto, mesmo ali uma esperança crescia dentro de mim ao deixar com que a maldade se apossasse de meu coração e, em um só golpe, cortasse o pescoço de Geraldo, que sorriu e declarou:

— No fim da vida ou da morte, é difícil escaparmos de tudo sem que nos transformemos nos demônios que nos torturaram.

— Na verdade, acho que na vida ou na morte nos fudemos de qualquer jeito. Então, bora botar fogo no puteiro — disse, vendo o pescoço de Geraldo se regenerar e o jardim se transformar em um tapete carmesim de prostitutas esquartejadas que não demoraram a se levantar para satisfazer os meus e os desejos de Geraldo em prolongados e eternos jatos de gala e sangue, afinal, nem só de prazer é feito o inferno, mas da anunciação de que vivemos preocupados demais para vivermos de verdade. Aguardaremos a morte para curtirmos no inferno? Nem todos suportam o calor do fogo no rabo destas súcubos… muito menos a alma de um engomadinho reverberando aos cantos como é ser uma alma penada.

 

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