Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Damnus Vobiscum
Damnus Vobiscum é Fred Teixeira, nascido a 04 de novembro de 1974. Mas Fred Teixeira prefere ser Damnus Vobiscum, que é um cara praticamente desconhecido e de nome esquisito, escritor, poeta e tradutor. É uma forma de Fred Teixeira deixar de ser tão somente Fred Teixeira e se particularizar um pouco, o que equivale a dizer que ser Damnus Vobiscum, mesmo que apenas para alguns poucos admiradores (talvez nenhum), dá algum sentido à vida completamente sem graça de Fred Teixeira. E por que mais um escritor, poeta e tradutor adotaria um pseudônimo maluco desses?





A consequência lógica

          Sempre que eu cagava, saía sangue. Sempre. Eu sempre olhava antes de tocar a descarga, e era sempre sangue. Um sangue grosso, coagulado. Sempre achei que isso fosse normal, mas um dia alguém me disse que não era. Estranhei, pois tenho uma saúde de ferro, nunca fiquei doente nem nunca precisei de remédios. Mas a pessoa insistiu que eu devia ir ao médico. Fui.
Chegando lá, disse ao doutor:

        “Então, doutor, meu problema é que cago sangue.”

          “Há quanto tempo o senhor tem isso?”, quis saber ele.

          “Desde criancinha, doutor. Meus pais nunca se importaram”, respondi.

          O médico me olhou incrédulo.

          “E o senhor nunca sentiu nenhum incômodo?”

          “Não”, disse eu. “Pra mim isso sempre foi normal.”

          Ele coçou a cabeça.

          “O senhor talvez tenha algum tipo de hemorragia intermitente na região intestinal. As fezes, elas são normais? Ou são misturadas ao sangue?”

          “O senhor não entendeu, doutor. Eu cago sangue. Sangue puro.”

          Ele arregalou os olhos, parecendo preocupado.

          “Isso pelo jeito é sério. O senhor vai precisar fazer vários exames. Por favor, pegue este papel e vá até a sala oito, para uma coleta de sangue.”

          Peguei o papel e fui até a sala oito, onde fui atendido por uma enfermeira com profundas olheiras e cara de quem odiava todo mundo. Ela leu o papel e me ordenou:

          “Sente ali naquela cadeira.”

          Obedeci, e logo ela se aproximou com uma seringa. Garroteou meu braço, passou um algodão com álcool na veia que saltou através da pele e começou a furá-la. Furou-a repetidas vezes, e nada. Puxava o embôlo, olhando-me com raiva, como se a culpa disso fosse minha. E nada do sangue sair.

          “Vou precisar usar uma agulha mais grossa”, murmurou, quase que apenas consigo mesma.

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Damnus Vobiscum
A consequência lógica

          Sempre que eu cagava, saía sangue. Sempre. Eu sempre olhava antes de tocar a descarga, e era sempre sangue. Um sangue grosso, coagulado. Sempre achei que isso fosse normal, mas um dia alguém me disse que não era. Estranhei, pois tenho uma saúde de ferro, nunca fiquei doente nem nunca precisei de remédios. Mas a pessoa insistiu que eu devia ir ao médico. Fui.
Chegando lá, disse ao doutor:

        “Então, doutor, meu problema é que cago sangue.”

          “Há quanto tempo o senhor tem isso?”, quis saber ele.

          “Desde criancinha, doutor. Meus pais nunca se importaram”, respondi.

          O médico me olhou incrédulo.

          “E o senhor nunca sentiu nenhum incômodo?”

          “Não”, disse eu. “Pra mim isso sempre foi normal.”

          Ele coçou a cabeça.

          “O senhor talvez tenha algum tipo de hemorragia intermitente na região intestinal. As fezes, elas são normais? Ou são misturadas ao sangue?”

          “O senhor não entendeu, doutor. Eu cago sangue. Sangue puro.”

          Ele arregalou os olhos, parecendo preocupado.

          “Isso pelo jeito é sério. O senhor vai precisar fazer vários exames. Por favor, pegue este papel e vá até a sala oito, para uma coleta de sangue.”

          Peguei o papel e fui até a sala oito, onde fui atendido por uma enfermeira com profundas olheiras e cara de quem odiava todo mundo. Ela leu o papel e me ordenou:

          “Sente ali naquela cadeira.”

          Obedeci, e logo ela se aproximou com uma seringa. Garroteou meu braço, passou um algodão com álcool na veia que saltou através da pele e começou a furá-la. Furou-a repetidas vezes, e nada. Puxava o embôlo, olhando-me com raiva, como se a culpa disso fosse minha. E nada do sangue sair.

          “Vou precisar usar uma agulha mais grossa”, murmurou, quase que apenas consigo mesma.

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