Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Damnus Vobiscum
Damnus Vobiscum é Fred Teixeira, nascido a 04 de novembro de 1974. Mas Fred Teixeira prefere ser Damnus Vobiscum, que é um cara praticamente desconhecido e de nome esquisito, escritor, poeta e tradutor. É uma forma de Fred Teixeira deixar de ser tão somente Fred Teixeira e se particularizar um pouco, o que equivale a dizer que ser Damnus Vobiscum, mesmo que apenas para alguns poucos admiradores (talvez nenhum), dá algum sentido à vida completamente sem graça de Fred Teixeira. E por que mais um escritor, poeta e tradutor adotaria um pseudônimo maluco desses?





A longa punição

Como um sopro de brisa que se materializa, lá estava o jovem. As feições conhecidas, apesar de esquecidas, esculpidas em sépia viva.

“Olá”.

O ancião se voltou para ele com dificuldade. O reumatismo generalizado deformara-lhe as juntas dos ossos, tornando-as tão frágeis quanto as de um antigo fantoche, cujas articulações estorricadas se rompessem ao mais leve movimento ou esforço.

“Olá. Enfim, você veio”.

“Sim”. O jovem estava sentado na velha poltrona forrada de couro, perto da cama. Olhava-o amistosamente, como alguém que compreende o significado de um mistério, sem contudo poder revelá-lo. O ancião sorriu.

“Tenho esperado por você. Toda minha vida, tenho esperado por você”.

O jovem, por sua vez, também sorriu. Um sorriso fixo, de esfinge.

“Entenda”, disse. “Não poderia ter vindo antes do tempo”.

O ancião soergueu o torso, recostando-se o mais confortavelmente possível nos travesseiros. O jovem nada fez em seu auxílio, limitando-se a observá-lo.

“O tempo é uma tortura”, disse o velho. “Mas você já deve saber”.

“Sim”, concordou o jovem. “O tempo é uma tortura, mesmo para nós”.

“Lembranças…”, murmurou o ancião.

“Pode recordar?”, o jovem inquiriu. Seu rosto não denotava qualquer emoção. Não pairavam reflexos em seus olhos.

“Eu me recordo”, respondeu o ancião após alguns instantes. “Lembro que a amava. Amava tanto que não podia sequer pensar nela… você sabe, longe de mim. Eu a via comigo para sempre. Minha. Não como um objeto, mas como… um órgão. Um órgão externo que, mesmo sendo autônomo e dotado de personalidade, precisava manter-se meu. Pois se pertencesse a alguém mais, eu morreria”.

O jovem se manteve calado.

“Você também se lembra, eu sei. Quando ela disse, naquela noite, que não podia mais, eu soube imediatamente o que devia ser feito. Desenhou-se em minha mente, com floreios agudos de sangue. Eu a matei, sufocada, e emparedei sua alma congelada junto da minha. Morremos todos naquela noite… inclusive a lembrança”.

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Damnus Vobiscum
A longa punição

Como um sopro de brisa que se materializa, lá estava o jovem. As feições conhecidas, apesar de esquecidas, esculpidas em sépia viva.

“Olá”.

O ancião se voltou para ele com dificuldade. O reumatismo generalizado deformara-lhe as juntas dos ossos, tornando-as tão frágeis quanto as de um antigo fantoche, cujas articulações estorricadas se rompessem ao mais leve movimento ou esforço.

“Olá. Enfim, você veio”.

“Sim”. O jovem estava sentado na velha poltrona forrada de couro, perto da cama. Olhava-o amistosamente, como alguém que compreende o significado de um mistério, sem contudo poder revelá-lo. O ancião sorriu.

“Tenho esperado por você. Toda minha vida, tenho esperado por você”.

O jovem, por sua vez, também sorriu. Um sorriso fixo, de esfinge.

“Entenda”, disse. “Não poderia ter vindo antes do tempo”.

O ancião soergueu o torso, recostando-se o mais confortavelmente possível nos travesseiros. O jovem nada fez em seu auxílio, limitando-se a observá-lo.

“O tempo é uma tortura”, disse o velho. “Mas você já deve saber”.

“Sim”, concordou o jovem. “O tempo é uma tortura, mesmo para nós”.

“Lembranças…”, murmurou o ancião.

“Pode recordar?”, o jovem inquiriu. Seu rosto não denotava qualquer emoção. Não pairavam reflexos em seus olhos.

“Eu me recordo”, respondeu o ancião após alguns instantes. “Lembro que a amava. Amava tanto que não podia sequer pensar nela… você sabe, longe de mim. Eu a via comigo para sempre. Minha. Não como um objeto, mas como… um órgão. Um órgão externo que, mesmo sendo autônomo e dotado de personalidade, precisava manter-se meu. Pois se pertencesse a alguém mais, eu morreria”.

O jovem se manteve calado.

“Você também se lembra, eu sei. Quando ela disse, naquela noite, que não podia mais, eu soube imediatamente o que devia ser feito. Desenhou-se em minha mente, com floreios agudos de sangue. Eu a matei, sufocada, e emparedei sua alma congelada junto da minha. Morremos todos naquela noite… inclusive a lembrança”.

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