Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Damnus Vobiscum
Damnus Vobiscum é Fred Teixeira, nascido a 04 de novembro de 1974. Mas Fred Teixeira prefere ser Damnus Vobiscum, que é um cara praticamente desconhecido e de nome esquisito, escritor, poeta e tradutor. É uma forma de Fred Teixeira deixar de ser tão somente Fred Teixeira e se particularizar um pouco, o que equivale a dizer que ser Damnus Vobiscum, mesmo que apenas para alguns poucos admiradores (talvez nenhum), dá algum sentido à vida completamente sem graça de Fred Teixeira. E por que mais um escritor, poeta e tradutor adotaria um pseudônimo maluco desses?





A Marca

Sim, eu me recordo de Caim… Aquele que foi marcado. Tudo ocorreu de forma repentina, mas só muito tempo depois os fatos puderam nos assombrar. O certo é que alguns dias após o inexplicável assassinato surgiu uma ferida na testa dele, que amarelou e passou a crescer com espantosa rapidez. A progressão do abcesso, seguida de febre e delírios, onde as chamas das regiões inferiores pareciam tostá-lo, levou Caim em pouco mais de uma semana a ficar com tal aparência que, se fosse vista pelo povo, seria dito que só restava enterrá-lo. A cor amarela da ferida dominou todo o rosto, e o pescoço inchou de maneira absurda — mostrando-se tão arroxeado — a ponto de ser um milagre o fato de ainda respirar.
Após dez dias, o inchaço cedeu e a cor natural não tardou a atingir a altura do queixo. Aos doze, toda a face voltou ao normal, e a febre abaixou consideravelmente. No centro da testa, contudo, concentrou-se uma quantidade de secreção esverdeada, recoberta por uma fina camada de pele. Os olhos de Caim se apresentavam foscos, nuvens violáceas os cruzavam e, balbuciando em linguagem desconhecida, agitava-se todo, adormecendo.
Dormia de olhos abertos, resmungando e gesticulando.
O conselho dos anciãos se reuniu para deliberar e chegou à conclusão de que o melhor a fazer seria lancetar a inflamação e extirpar pela raiz o mal que oprimia o homem. Convocaram um trepanador e dirigiram-se ao templo, onde o enfermo já os aguardava. Dezenas de sacerdotes clamavam por seu restabelecimento, porém, os misericordiosos espíritos do ar não atuavam. Posteriormente, descobrimos a razão.
Caim estava estendido sobre o altar, e o trepanador não perdeu tempo. Pegando uma agulha grosseira feita de bronze, esquentou sua ponta no fogo do braseiro para em seguida mergulhá-la, crepitando, na asquerosa purulência. Afundou como em manteiga, e alguns dos presentes disseram que até mais do que deveria. A agulha tinha exatamente um cúbito de comprimento: penetrara quase três partes. Ao encontrar certa resistência, o trepanador firmou a mão e em seguida girou a agulha, perfazendo um círculo, sacando, em um só movimento o metal da maldita ferida.
Então, algo horrível aconteceu.
Do interior escancarado do furúnculo, como vapor compacto, putrefato e quente que se esvai de um sepulcro violado, jorrou um esguicho imaterial e sibilante. Plasmando-se por sobre a cabeça do irmão, a silhueta acusadora de Abel uivou por um longo e aterrador momento para, em seguida, desaparecer.

Damnus Vobiscum
A Marca

Sim, eu me recordo de Caim… Aquele que foi marcado. Tudo ocorreu de forma repentina, mas só muito tempo depois os fatos puderam nos assombrar. O certo é que alguns dias após o inexplicável assassinato surgiu uma ferida na testa dele, que amarelou e passou a crescer com espantosa rapidez. A progressão do abcesso, seguida de febre e delírios, onde as chamas das regiões inferiores pareciam tostá-lo, levou Caim em pouco mais de uma semana a ficar com tal aparência que, se fosse vista pelo povo, seria dito que só restava enterrá-lo. A cor amarela da ferida dominou todo o rosto, e o pescoço inchou de maneira absurda — mostrando-se tão arroxeado — a ponto de ser um milagre o fato de ainda respirar.
Após dez dias, o inchaço cedeu e a cor natural não tardou a atingir a altura do queixo. Aos doze, toda a face voltou ao normal, e a febre abaixou consideravelmente. No centro da testa, contudo, concentrou-se uma quantidade de secreção esverdeada, recoberta por uma fina camada de pele. Os olhos de Caim se apresentavam foscos, nuvens violáceas os cruzavam e, balbuciando em linguagem desconhecida, agitava-se todo, adormecendo.
Dormia de olhos abertos, resmungando e gesticulando.
O conselho dos anciãos se reuniu para deliberar e chegou à conclusão de que o melhor a fazer seria lancetar a inflamação e extirpar pela raiz o mal que oprimia o homem. Convocaram um trepanador e dirigiram-se ao templo, onde o enfermo já os aguardava. Dezenas de sacerdotes clamavam por seu restabelecimento, porém, os misericordiosos espíritos do ar não atuavam. Posteriormente, descobrimos a razão.
Caim estava estendido sobre o altar, e o trepanador não perdeu tempo. Pegando uma agulha grosseira feita de bronze, esquentou sua ponta no fogo do braseiro para em seguida mergulhá-la, crepitando, na asquerosa purulência. Afundou como em manteiga, e alguns dos presentes disseram que até mais do que deveria. A agulha tinha exatamente um cúbito de comprimento: penetrara quase três partes. Ao encontrar certa resistência, o trepanador firmou a mão e em seguida girou a agulha, perfazendo um círculo, sacando, em um só movimento o metal da maldita ferida.
Então, algo horrível aconteceu.
Do interior escancarado do furúnculo, como vapor compacto, putrefato e quente que se esvai de um sepulcro violado, jorrou um esguicho imaterial e sibilante. Plasmando-se por sobre a cabeça do irmão, a silhueta acusadora de Abel uivou por um longo e aterrador momento para, em seguida, desaparecer.