A Sala Branca - Damnus Vobiscum
Damnus Vobiscum
Damnus Vobiscum é Fred Teixeira, nascido a 04 de novembro de 1974. Mas Fred Teixeira prefere ser Damnus Vobiscum, que é um cara praticamente desconhecido e de nome esquisito, escritor, poeta e tradutor. É uma forma de Fred Teixeira deixar de ser tão somente Fred Teixeira e se particularizar um pouco, o que equivale a dizer que ser Damnus Vobiscum, mesmo que apenas para alguns poucos admiradores (talvez nenhum), dá algum sentido à vida completamente sem graça de Fred Teixeira. E por que mais um escritor, poeta e tradutor adotaria um pseudônimo maluco desses?





A Sala Branca

A sala branca. A sala branca. A sala branca.
Os minutos em branco passam, desperdiçando-se. Em todos eles, a sala branca. A sala branca. A sala branca. A sala branca. Asa La Branca ⸻ a sala branca. Acnar Balasa ⸻ a sala branca. Eles em tudo.
A sala branca. A sala branca. A sala branca.

* * *

“Qual o problema com esse aí?”, pergunta o novato.
“Paciente 607”, responde o veterano. “Distúrbio obsessivo compulsivo. Vê tudo branco.”
“Ah”, diz o novato, espiando pela janelinha. “É por isso que o quarto é todo pintado de preto.”
“Sim”, confirma o veterano. “Quando ele perceber isso, saberemos que está se recuperando. Mas duvido. Mais de vinte anos assim…”

* * *

A sala branca. A sala branca. A sala branca.
Idiotas brancos pensam que pintando a sala ela deixará de ser branca. Deviam ao menos usar uma tinta que não fosse branca. Mas como? Só há branco. Asa La Branca diz que o branco está em tudo. “Você reúne sete cores, mistura bem e o que consegue? Branco.”
“São todos mentirosos”, diz Acnar Balasa.
Na adolescência tivera um animalzinho de estimação. Um rato de laboratório, um rato branco. Então, certa manhã, o pai por acidente pisara nele. As pequenas vísceras espirraram na pintura nova. “Minha parede!”, exclamara a mãe, empalidecendo-se. O pai acendera um cigarro branco.
Mas era mentira, e ele sabia. A mãe só queria culpá-lo pela morte do rato. Como poderiam as vísceras brancas do rato macularem a parede branca? Não havia como manchar nada, pois a mancha também era branca. Branca, tão branca quanto a sala branca.
A sala branca. A sala branca. A sala branca.

* * *

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Damnus Vobiscum
A Sala Branca

A sala branca. A sala branca. A sala branca.
Os minutos em branco passam, desperdiçando-se. Em todos eles, a sala branca. A sala branca. A sala branca. A sala branca. Asa La Branca ⸻ a sala branca. Acnar Balasa ⸻ a sala branca. Eles em tudo.
A sala branca. A sala branca. A sala branca.

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“Qual o problema com esse aí?”, pergunta o novato.
“Paciente 607”, responde o veterano. “Distúrbio obsessivo compulsivo. Vê tudo branco.”
“Ah”, diz o novato, espiando pela janelinha. “É por isso que o quarto é todo pintado de preto.”
“Sim”, confirma o veterano. “Quando ele perceber isso, saberemos que está se recuperando. Mas duvido. Mais de vinte anos assim…”

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A sala branca. A sala branca. A sala branca.
Idiotas brancos pensam que pintando a sala ela deixará de ser branca. Deviam ao menos usar uma tinta que não fosse branca. Mas como? Só há branco. Asa La Branca diz que o branco está em tudo. “Você reúne sete cores, mistura bem e o que consegue? Branco.”
“São todos mentirosos”, diz Acnar Balasa.
Na adolescência tivera um animalzinho de estimação. Um rato de laboratório, um rato branco. Então, certa manhã, o pai por acidente pisara nele. As pequenas vísceras espirraram na pintura nova. “Minha parede!”, exclamara a mãe, empalidecendo-se. O pai acendera um cigarro branco.
Mas era mentira, e ele sabia. A mãe só queria culpá-lo pela morte do rato. Como poderiam as vísceras brancas do rato macularem a parede branca? Não havia como manchar nada, pois a mancha também era branca. Branca, tão branca quanto a sala branca.
A sala branca. A sala branca. A sala branca.

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