Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Damnus Vobiscum
Damnus Vobiscum é Fred Teixeira, nascido a 04 de novembro de 1974. Mas Fred Teixeira prefere ser Damnus Vobiscum, que é um cara praticamente desconhecido e de nome esquisito, escritor, poeta e tradutor. É uma forma de Fred Teixeira deixar de ser tão somente Fred Teixeira e se particularizar um pouco, o que equivale a dizer que ser Damnus Vobiscum, mesmo que apenas para alguns poucos admiradores (talvez nenhum), dá algum sentido à vida completamente sem graça de Fred Teixeira. E por que mais um escritor, poeta e tradutor adotaria um pseudônimo maluco desses?





A sessão

          A menina, pálida, abriu desmesuradamente a boca de lábios fendidos e em sua língua intumescida, que saltou para fora em uma convulsão desesperada, foi possível visualizar uma hóstia escura, uma hóstia sagrada e monstruosa, profana e temerária. A hóstia sangrou a partir de seu centro espirrando um jato fino do líquido vermelho a uma distância espantosa. Então luziu por um instante de anômalo despudor e principiou a girar como um velho disco de porcelana em uma vitrola de pesadelo. Lentamente, a língua carcomida de estrias infeccionadas se recolheu como um verme adentrando uma carcaça putrefeita e a boca doentia se fechou por entre engulhos de golfadas estomacais irrealizáveis.

          Após esta amedrontadora demonstração, a menina passou a bailar graciosamente frente os espectadores. De súbito seus ouvidos começaram a expelir grossas nuvens ectoplásmicas amareladas em grandes doses malcheirosas que inundaram os narizes cirurgicamente redesenhados das damas, que nauseadas e assustadas tapavam as contrafeitas e delicadas narinas e exclamavam por entre lenços perfumados e rendados: “Que cheiro mal!”

          Mas a fantasmagórica menina, tomada por espíritos imundos e repletos de gonorréia astral continuava a rodopiar com volteios absurdos pelo salão de eventos da importante mansão. De sua boca repulsiva agora saíam esguichos esverdeado-cinzentos de consistência pastoso-pegajosa que caíam infindáveis pelo piso encerado de mármore róseo. Salpicos pesados atingiam os ternos caros dos cavalheiros ali presentes. Eles se afastavam cheios de nódoas em suas roupas bonitas e caras, furiosos, trêmulos, ódio e medo mesclando-se em ondas, vagas fabulosas e avassaladoras como orgasmos, múltiplos orgasmos que chegavam a ferir gravemente seus caracteres fracos e indolentes de grandes figuras financeiras.

          Dançando frenética e possuída pelas almas asquerosas dos mortos mais depravados e desmoralizados da História Universal a garota não mais pisava o solo, ela flutuava sobre um mar de esperma espectral sólido como geléia de fígado de avestruz podre que jorrava de suas espetaculares entranhas. Os convidados, em pânico, ganiam desvairados e esfregavam-se uns aos outros num delírio pernicioso. O caldo repugnante galgava as paredes corroendo as molduras dos quadros e os móveis em estilo vitoriano, as esculturas de ébano e até mesmo os pretensiosos lustres de cristal.

          Repentinamente, a menina explodiu. Não suportando a imensa carga de luxúria sobrenatural que a inundara, seu corpo foi inflando como um balão de pele humana e acabou por estourar. A explosão jogou órgãos moídos e membros despedaçados, sangue e fragmentos de ossos, feixes compactos de cabelo e pus endurecido por sobre a maioria dos que ali se encontravam. Alguns vomitaram.

          Na saída, o Sr. Smallhead ainda abraçava-se à Sra. Smallhead, que chorava alucinadamente. “Espero que para a próxima sessão encontrem um médium mais higiênico”, protestava ele enérgico, enquanto espanava um globo ocular de seu elegante paletó de veludo alemão, comprado em Paris na última estação.

          (do livro “O Calhamaço das Abstrações Concretas”)

Damnus Vobiscum
A sessão

          A menina, pálida, abriu desmesuradamente a boca de lábios fendidos e em sua língua intumescida, que saltou para fora em uma convulsão desesperada, foi possível visualizar uma hóstia escura, uma hóstia sagrada e monstruosa, profana e temerária. A hóstia sangrou a partir de seu centro espirrando um jato fino do líquido vermelho a uma distância espantosa. Então luziu por um instante de anômalo despudor e principiou a girar como um velho disco de porcelana em uma vitrola de pesadelo. Lentamente, a língua carcomida de estrias infeccionadas se recolheu como um verme adentrando uma carcaça putrefeita e a boca doentia se fechou por entre engulhos de golfadas estomacais irrealizáveis.

          Após esta amedrontadora demonstração, a menina passou a bailar graciosamente frente os espectadores. De súbito seus ouvidos começaram a expelir grossas nuvens ectoplásmicas amareladas em grandes doses malcheirosas que inundaram os narizes cirurgicamente redesenhados das damas, que nauseadas e assustadas tapavam as contrafeitas e delicadas narinas e exclamavam por entre lenços perfumados e rendados: “Que cheiro mal!”

          Mas a fantasmagórica menina, tomada por espíritos imundos e repletos de gonorréia astral continuava a rodopiar com volteios absurdos pelo salão de eventos da importante mansão. De sua boca repulsiva agora saíam esguichos esverdeado-cinzentos de consistência pastoso-pegajosa que caíam infindáveis pelo piso encerado de mármore róseo. Salpicos pesados atingiam os ternos caros dos cavalheiros ali presentes. Eles se afastavam cheios de nódoas em suas roupas bonitas e caras, furiosos, trêmulos, ódio e medo mesclando-se em ondas, vagas fabulosas e avassaladoras como orgasmos, múltiplos orgasmos que chegavam a ferir gravemente seus caracteres fracos e indolentes de grandes figuras financeiras.

          Dançando frenética e possuída pelas almas asquerosas dos mortos mais depravados e desmoralizados da História Universal a garota não mais pisava o solo, ela flutuava sobre um mar de esperma espectral sólido como geléia de fígado de avestruz podre que jorrava de suas espetaculares entranhas. Os convidados, em pânico, ganiam desvairados e esfregavam-se uns aos outros num delírio pernicioso. O caldo repugnante galgava as paredes corroendo as molduras dos quadros e os móveis em estilo vitoriano, as esculturas de ébano e até mesmo os pretensiosos lustres de cristal.

          Repentinamente, a menina explodiu. Não suportando a imensa carga de luxúria sobrenatural que a inundara, seu corpo foi inflando como um balão de pele humana e acabou por estourar. A explosão jogou órgãos moídos e membros despedaçados, sangue e fragmentos de ossos, feixes compactos de cabelo e pus endurecido por sobre a maioria dos que ali se encontravam. Alguns vomitaram.

          Na saída, o Sr. Smallhead ainda abraçava-se à Sra. Smallhead, que chorava alucinadamente. “Espero que para a próxima sessão encontrem um médium mais higiênico”, protestava ele enérgico, enquanto espanava um globo ocular de seu elegante paletó de veludo alemão, comprado em Paris na última estação.

          (do livro “O Calhamaço das Abstrações Concretas”)