Cara de anjo - E. B. Toniolli
E. B. Toniolli
Sou um contador de histórias.
Desde que tenho consiência de minha existência conto histórias.
Sou péssimo com nomes e rostos e a vida das pessoas não me atrai, mas as suas histórias sim.
Cada dia uma nova história, com suas banalidades, com suas expectativas, frustrações, seus sonhos, medos...
Me agrada o caos presente na ordem e a ordem sistemática presente no caos.
E assim levo a vida: entre extremos de crenças e crença nenhuma, entre a criação do novo e a reciclagem do bem e do mau, do belo e do feio.
Entre os diversos meios de retratar a vida, de criar conceitos em empresa, de vender esperanças na harmonia das coisas e das pessoas.
E assim levo a vida, contando histórias.

E-mail: toniolli@gmail.com
Facebook: facebook.com/ebtoniolli




Cara de anjo

Sem dúvida Ivan, você era um homem feliz. Sempre batalhou muito em sua vida para chegar ao apogeu de sua carreira como escritor. Considerado como o melhor romancista do Brasil, você conseguira muito mais do que estabilidade financeira, estava casado com a garota de seus sonhos: Deise. Sua vida era pura felicidade e logo essa felicidade ia ser maior ainda, pois mais alguém viria compartilhar: era seu filho. O filho que você sempre quis ter.
Lembra-se que Deise, estava saudosa de sua família e lhe pediu diversas vezes para visitá-los, apesar da distância. Afinal ela estava somente no quinto mês de gravidez e o médico concordou com a viagem e disse que não haveria problemas, pois Deise tinha uma saúde de ferro. Pensou que seria uma boa oportunidade para mudar de ares e compor um novo romance ambientado no Pantanal Mato-grossense, local onde a família de Deise morava.
Apesar da viagem ter sido extremamente desgastante, a visita fora extremamente agradável, apesar do clima seco e do calor intenso. Vocês gostaram tanto do lugar que resolveram passar mais alguns dias, escolhendo uma cabana afastada para ter contato mais direto com a natureza. Foram vários passeios, pescarias, dias e noites de muita alegria e cumplicidade. Mas numa noite Deise começou a reclamar de dores que sentia no ventre, como se a criança estivesse se mexendo no seu interior. Você pulou da cama e tratou de acalma-la dizendo que logo pegaria o carro e iriam até a cidade, que ficava a 6 km de sua Cabana. Mas a criança parecia revoltada dentro do ventre e as dores da sua mulher eram cada vez maiores. Você podia perceber o movimento gerado pelo seu filho no útero de sua amada. Pegou-a no colo e levou até o carro. Arrancou em disparada enquanto sua esposa reclamava das dores. Seu coração disparava no peito e o pressentimento de que algo terrível iria acontecer. Pensou que isso seria movido pela sua índole de escritor e que não teria base no real: nada de mal iria acontecer! Mas essa alternativa foi logo descartada, pois o feto, num gesto insano, rompei o ventre materno com suas pequenas mãos e foi emergindo em meio ao líquido amniótico e muito sangue. Logo Deise emitia gritos do mais profundo pavor e dor. Você freou o caro e somente ficou contemplando, atônito, a criança mergulhar a mão no peito de sua esposa e retirar dela o coração pulsante. Olhou as feições de sua esposa, que estavam roxas e com os olhos grudados no fruto do vosso amor. Nesse momento você decidiu interferir e jogou a criança para o canto do banco de trás. Ela bateu forte a cabeça e caiu no banco desacordada. Tomou sua mulher nos brancos, mas ela já respirava com dificuldades. Apertou-a com força, como se quisesse passar todas as suas forças para ela ou tomar as suas dores. Mas seus esforços foram em vão, pois ela, respirando com extrema dificuldade, olhou em seus olhos e disse suas últimas palavras:
– Por que isso foi acontecer com a gente, Ivan?

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E. B. Toniolli
Cara de anjo

Sem dúvida Ivan, você era um homem feliz. Sempre batalhou muito em sua vida para chegar ao apogeu de sua carreira como escritor. Considerado como o melhor romancista do Brasil, você conseguira muito mais do que estabilidade financeira, estava casado com a garota de seus sonhos: Deise. Sua vida era pura felicidade e logo essa felicidade ia ser maior ainda, pois mais alguém viria compartilhar: era seu filho. O filho que você sempre quis ter.
Lembra-se que Deise, estava saudosa de sua família e lhe pediu diversas vezes para visitá-los, apesar da distância. Afinal ela estava somente no quinto mês de gravidez e o médico concordou com a viagem e disse que não haveria problemas, pois Deise tinha uma saúde de ferro. Pensou que seria uma boa oportunidade para mudar de ares e compor um novo romance ambientado no Pantanal Mato-grossense, local onde a família de Deise morava.
Apesar da viagem ter sido extremamente desgastante, a visita fora extremamente agradável, apesar do clima seco e do calor intenso. Vocês gostaram tanto do lugar que resolveram passar mais alguns dias, escolhendo uma cabana afastada para ter contato mais direto com a natureza. Foram vários passeios, pescarias, dias e noites de muita alegria e cumplicidade. Mas numa noite Deise começou a reclamar de dores que sentia no ventre, como se a criança estivesse se mexendo no seu interior. Você pulou da cama e tratou de acalma-la dizendo que logo pegaria o carro e iriam até a cidade, que ficava a 6 km de sua Cabana. Mas a criança parecia revoltada dentro do ventre e as dores da sua mulher eram cada vez maiores. Você podia perceber o movimento gerado pelo seu filho no útero de sua amada. Pegou-a no colo e levou até o carro. Arrancou em disparada enquanto sua esposa reclamava das dores. Seu coração disparava no peito e o pressentimento de que algo terrível iria acontecer. Pensou que isso seria movido pela sua índole de escritor e que não teria base no real: nada de mal iria acontecer! Mas essa alternativa foi logo descartada, pois o feto, num gesto insano, rompei o ventre materno com suas pequenas mãos e foi emergindo em meio ao líquido amniótico e muito sangue. Logo Deise emitia gritos do mais profundo pavor e dor. Você freou o caro e somente ficou contemplando, atônito, a criança mergulhar a mão no peito de sua esposa e retirar dela o coração pulsante. Olhou as feições de sua esposa, que estavam roxas e com os olhos grudados no fruto do vosso amor. Nesse momento você decidiu interferir e jogou a criança para o canto do banco de trás. Ela bateu forte a cabeça e caiu no banco desacordada. Tomou sua mulher nos brancos, mas ela já respirava com dificuldades. Apertou-a com força, como se quisesse passar todas as suas forças para ela ou tomar as suas dores. Mas seus esforços foram em vão, pois ela, respirando com extrema dificuldade, olhou em seus olhos e disse suas últimas palavras:
– Por que isso foi acontecer com a gente, Ivan?

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