E não voltarei jamais - E. B. Toniolli
E. B. Toniolli
Sou um contador de histórias.
Desde que tenho consiência de minha existência conto histórias.
Sou péssimo com nomes e rostos e a vida das pessoas não me atrai, mas as suas histórias sim.
Cada dia uma nova história, com suas banalidades, com suas expectativas, frustrações, seus sonhos, medos...
Me agrada o caos presente na ordem e a ordem sistemática presente no caos.
E assim levo a vida: entre extremos de crenças e crença nenhuma, entre a criação do novo e a reciclagem do bem e do mau, do belo e do feio.
Entre os diversos meios de retratar a vida, de criar conceitos em empresa, de vender esperanças na harmonia das coisas e das pessoas.
E assim levo a vida, contando histórias.

E-mail: toniolli@gmail.com
Facebook: facebook.com/ebtoniolli




E não voltarei jamais

Fazem 15 anos que entrei nesse banhado.

Era pra ser só uns minutos e nunca mais sai.

Me lembro que era um dia cinzento e as nuvens pareciam doentes, como ovelhas mortas boiando no céu pálido.

Não entrei no banhado em busca de diversão ou curiosidade, entrei por fome. Nada mais havia na minha casa além de morte e o odor da putrefação que tomava toda aquela região.

Outrora uma região muito fecunda, que atraia dezenas de famílias que sonhavam com uma vida nova.  Foi uma época de grande fartura os primeiros anos por aqui. Minha esposa era jovem e bela e nossos filhos eram o retrato da saúde e disposição. De dia trabalhávamos na lavoura, e o que fosse plantado produzia em grande quantidade. A noite cantávamos modas de viola que enchiam aquela região de melodias. Quanto riso, quanta alegria. Vivíamos no paraíso. Pelo menos era isso o que pensávamos.

Mas num belo dia de verão tudo começou a mudar: o céu outrora azul começou a ganhar tons cinza. A água que vertia límpida e em abundância de várias fontes,  ganhou um tom amarelado e um odor de putrefação. Os animais foram embora, nem mesmo os insetos ficaram. Restaram poucas pessoas e as doenças começaram a se manifestar. A comida que tínhamos estocada começou a apodrecer e a fome e a desgraça se abateu sobre nós como uma tempestade torrencial.

Olhava as plantações ressequidas e o desespero começou a tomar conta. Na ânsia de conseguir algo para minha família comer, entrei banhado adentro, mesmo sabendo que era um lugar muito perigoso.

Entrei e ainda não sai.

E daqui fui obrigado a assistir minha família morrer e ir embora.

Fazem 15 anos que entrei nesse banhado.

E eu me sinto jovem.

Acho que vou brotar.

 

E. B. Toniolli
E não voltarei jamais

Fazem 15 anos que entrei nesse banhado.

Era pra ser só uns minutos e nunca mais sai.

Me lembro que era um dia cinzento e as nuvens pareciam doentes, como ovelhas mortas boiando no céu pálido.

Não entrei no banhado em busca de diversão ou curiosidade, entrei por fome. Nada mais havia na minha casa além de morte e o odor da putrefação que tomava toda aquela região.

Outrora uma região muito fecunda, que atraia dezenas de famílias que sonhavam com uma vida nova.  Foi uma época de grande fartura os primeiros anos por aqui. Minha esposa era jovem e bela e nossos filhos eram o retrato da saúde e disposição. De dia trabalhávamos na lavoura, e o que fosse plantado produzia em grande quantidade. A noite cantávamos modas de viola que enchiam aquela região de melodias. Quanto riso, quanta alegria. Vivíamos no paraíso. Pelo menos era isso o que pensávamos.

Mas num belo dia de verão tudo começou a mudar: o céu outrora azul começou a ganhar tons cinza. A água que vertia límpida e em abundância de várias fontes,  ganhou um tom amarelado e um odor de putrefação. Os animais foram embora, nem mesmo os insetos ficaram. Restaram poucas pessoas e as doenças começaram a se manifestar. A comida que tínhamos estocada começou a apodrecer e a fome e a desgraça se abateu sobre nós como uma tempestade torrencial.

Olhava as plantações ressequidas e o desespero começou a tomar conta. Na ânsia de conseguir algo para minha família comer, entrei banhado adentro, mesmo sabendo que era um lugar muito perigoso.

Entrei e ainda não sai.

E daqui fui obrigado a assistir minha família morrer e ir embora.

Fazem 15 anos que entrei nesse banhado.

E eu me sinto jovem.

Acho que vou brotar.