A flor da caatinga - E. B. Toniolli
E. B. Toniolli
Sou um contador de histórias.
Desde que tenho consiência de minha existência conto histórias.
Sou péssimo com nomes e rostos e a vida das pessoas não me atrai, mas as suas histórias sim.
Cada dia uma nova história, com suas banalidades, com suas expectativas, frustrações, seus sonhos, medos...
Me agrada o caos presente na ordem e a ordem sistemática presente no caos.
E assim levo a vida: entre extremos de crenças e crença nenhuma, entre a criação do novo e a reciclagem do bem e do mau, do belo e do feio.
Entre os diversos meios de retratar a vida, de criar conceitos em empresa, de vender esperanças na harmonia das coisas e das pessoas.
E assim levo a vida, contando histórias.

E-mail: toniolli@gmail.com
Facebook: facebook.com/ebtoniolli




A flor da caatinga

O árido sol do verão corroí o seu corpo. Cambaleante você retira forças do seu íntimo para continuar a jornada. As pernas fraquejaram e na mente, aquele aroma divino ainda perturba seus sentidos. Caindo por terra pela quarta vez você amaldiçoa todos os deuses pelo seu destino, sente que o momento fatídico está aproximando-se. Com um esforço movido pelo seu instinto de sobrevivência, procura abrigo junto de uma árvore da caatinga. A pequena sombra faz com que você recupere um pouco de suas forças e começa a relembrar do fatídico momento em que resolveu encontrar a flor da caatinga.
Um pintor mundialmente conhecido como você, já havia ouvido diversos comentários sobre tal flor. Todos falavam de suas cores exuberantes e de seu aroma inigualável. A tentação de retratar algo que fora contemplado por poucos olhos lhe corroía a mente noite e dia. Enfim, resolveste partir em busca de seu intento.
Quando chegaste ao vilarejo paupérrimo, pois os comentários indicavam que tal flor habitava as redondezas, sentiu-se constrangido em ver o estado inumano que encontravam-se as pobres almas, esmagadas pela seca, concluirás. Com dois dias de buscas, conseguiste chegar nas proximidades do cemitério local, onde todos os moradores da vila eram enterrados. As advertências dos moradores ainda ressoavam em sua mente. Histórias que falavam que a beleza era o primeiro sinal da morte anunciada. De súbito, suas narinas foram preenchidas com um aroma sem precedentes em sua vivência. Girando seus olhos, avistou uma flor com mais de um metro de altura e com pétalas vermelhas como o sangue puro. Você estava hipnotizado e foi caminhando em meios aos túmulos com as lápides despedaçadas, até estar diante daquela obra singular na natureza. Você nem reparou que aos pés da planta um amontado de ossos estava formado. Aspirou profundamente o aroma, sentindo um prazer que nunca dantes havia sentido. Tiraste várias fotos daquela maravilha e ficou admirando-a por várias horas.
Os pensamentos fogem de sua lembrança, quando ouves uma voz ao seu lado.
– Calculo que ele está sendo vítima do aroma da flor maldita.
– Acho que sim, pois este não é o primeiro humano que vemos agonizar, vítima de seu aroma.
Você percorrer a paisagem e não avista ninguém. As vozes continuam a conversa e, então, você percebe que são oriundas de duas aves que pousaram sobre um pedaço de lápide desgastada pelo tempo. Pensa que são alucinações, mas elas continuam insistentes em teus ouvidos. De súbito, as aves voam para longe, para dar lugar a outras três aves maiores e negras como a noite que o contemplavam.

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E. B. Toniolli
A flor da caatinga

O árido sol do verão corroí o seu corpo. Cambaleante você retira forças do seu íntimo para continuar a jornada. As pernas fraquejaram e na mente, aquele aroma divino ainda perturba seus sentidos. Caindo por terra pela quarta vez você amaldiçoa todos os deuses pelo seu destino, sente que o momento fatídico está aproximando-se. Com um esforço movido pelo seu instinto de sobrevivência, procura abrigo junto de uma árvore da caatinga. A pequena sombra faz com que você recupere um pouco de suas forças e começa a relembrar do fatídico momento em que resolveu encontrar a flor da caatinga.
Um pintor mundialmente conhecido como você, já havia ouvido diversos comentários sobre tal flor. Todos falavam de suas cores exuberantes e de seu aroma inigualável. A tentação de retratar algo que fora contemplado por poucos olhos lhe corroía a mente noite e dia. Enfim, resolveste partir em busca de seu intento.
Quando chegaste ao vilarejo paupérrimo, pois os comentários indicavam que tal flor habitava as redondezas, sentiu-se constrangido em ver o estado inumano que encontravam-se as pobres almas, esmagadas pela seca, concluirás. Com dois dias de buscas, conseguiste chegar nas proximidades do cemitério local, onde todos os moradores da vila eram enterrados. As advertências dos moradores ainda ressoavam em sua mente. Histórias que falavam que a beleza era o primeiro sinal da morte anunciada. De súbito, suas narinas foram preenchidas com um aroma sem precedentes em sua vivência. Girando seus olhos, avistou uma flor com mais de um metro de altura e com pétalas vermelhas como o sangue puro. Você estava hipnotizado e foi caminhando em meios aos túmulos com as lápides despedaçadas, até estar diante daquela obra singular na natureza. Você nem reparou que aos pés da planta um amontado de ossos estava formado. Aspirou profundamente o aroma, sentindo um prazer que nunca dantes havia sentido. Tiraste várias fotos daquela maravilha e ficou admirando-a por várias horas.
Os pensamentos fogem de sua lembrança, quando ouves uma voz ao seu lado.
– Calculo que ele está sendo vítima do aroma da flor maldita.
– Acho que sim, pois este não é o primeiro humano que vemos agonizar, vítima de seu aroma.
Você percorrer a paisagem e não avista ninguém. As vozes continuam a conversa e, então, você percebe que são oriundas de duas aves que pousaram sobre um pedaço de lápide desgastada pelo tempo. Pensa que são alucinações, mas elas continuam insistentes em teus ouvidos. De súbito, as aves voam para longe, para dar lugar a outras três aves maiores e negras como a noite que o contemplavam.

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