Nos dias que o tempo não esqueceu - E. B. Toniolli
E. B. Toniolli
Sou um contador de histórias.
Desde que tenho consiência de minha existência conto histórias.
Sou péssimo com nomes e rostos e a vida das pessoas não me atrai, mas as suas histórias sim.
Cada dia uma nova história, com suas banalidades, com suas expectativas, frustrações, seus sonhos, medos...
Me agrada o caos presente na ordem e a ordem sistemática presente no caos.
E assim levo a vida: entre extremos de crenças e crença nenhuma, entre a criação do novo e a reciclagem do bem e do mau, do belo e do feio.
Entre os diversos meios de retratar a vida, de criar conceitos em empresa, de vender esperanças na harmonia das coisas e das pessoas.
E assim levo a vida, contando histórias.

E-mail: toniolli@gmail.com
Facebook: facebook.com/ebtoniolli




Nos dias que o tempo não esqueceu

Era uma noite escura e estupidamente quieta. Dir-se-ia que seria a noite perfeita para ouvir os pensamentos dos mortos. E são muitos os pensamentos. E incontáveis os mortos.

 

Em todo o mundo um silêncio sepulcral predomina. Um silêncio tão alto que chegava a doer os ouvidos…

 

Nenhuma alma humana viva estava nas ruas. Aliás, a dias que não se via humanos pelas ruas. Os poucos sobreviventes estavam trancados em seus castelos de solidão e exílio, presos a seus medos e arrependimentos.

 

Súbito uma porta de abre, lentamente. Um rosto angelical rompe a desolação da paisagem e contempla a desolação com um olhar de curiosidade. Um pequeno e delicado pé, calçando um all star surrado toca o chão da rua depois de incontáveis dias. Ela vestia uma camiseta preta com algo escrito que seria praticamente impossível descobrir o que era. Olha ao redor com um misto de apreensão e determinação e com um movimento motivado pela sua coragem, fecha a porta do prédio e se encaminha até o meio da rua.

 

O vento balança seus cabelos negros como a noite e um aroma de jasmim preenche suas narinas. Ela fecha os olhos, abre os braços e uma sensação de prazer que a tempos não sentia preenche seu ser. Um breve calafrio percorre sua espinha, motivada por uma lufada de ar mais gelada e olhando na direção do vento ela vê um pequeno grupo de gatos que a encarrava. Eles pareciam amistosos e miam de uma forma convidativa. Ela vai em direção e brinca com alguns deles, enquanto os mais ariscos fogem em debandada.

 

Sentindo-se à vontade ela vai caminhando pelas ruas com os gatos atravessando pelas suas pernas. Uma sensação de alegria toma conta e ela ri. Ri como a tempo não tinha motivos para rir.

 

Continuando sua jornada ela encontra outros animais e se sente como num conto de fadas, como a encantadora de animais que veio para trazer uma nova esperança, uma luz para toda essa escuridão.

 

Mas não era esse seu pensamento. Ela chega num posto de combustível e confere um dos caminhões: estava cheio. Com um sorriso de pura maldade nos lábios ela murmura baixinho:

 

– Por onde vou começar a botar fogo nessa porra de cidade?

 

 

 

E. B. Toniolli
Nos dias que o tempo não esqueceu

Era uma noite escura e estupidamente quieta. Dir-se-ia que seria a noite perfeita para ouvir os pensamentos dos mortos. E são muitos os pensamentos. E incontáveis os mortos.

 

Em todo o mundo um silêncio sepulcral predomina. Um silêncio tão alto que chegava a doer os ouvidos…

 

Nenhuma alma humana viva estava nas ruas. Aliás, a dias que não se via humanos pelas ruas. Os poucos sobreviventes estavam trancados em seus castelos de solidão e exílio, presos a seus medos e arrependimentos.

 

Súbito uma porta de abre, lentamente. Um rosto angelical rompe a desolação da paisagem e contempla a desolação com um olhar de curiosidade. Um pequeno e delicado pé, calçando um all star surrado toca o chão da rua depois de incontáveis dias. Ela vestia uma camiseta preta com algo escrito que seria praticamente impossível descobrir o que era. Olha ao redor com um misto de apreensão e determinação e com um movimento motivado pela sua coragem, fecha a porta do prédio e se encaminha até o meio da rua.

 

O vento balança seus cabelos negros como a noite e um aroma de jasmim preenche suas narinas. Ela fecha os olhos, abre os braços e uma sensação de prazer que a tempos não sentia preenche seu ser. Um breve calafrio percorre sua espinha, motivada por uma lufada de ar mais gelada e olhando na direção do vento ela vê um pequeno grupo de gatos que a encarrava. Eles pareciam amistosos e miam de uma forma convidativa. Ela vai em direção e brinca com alguns deles, enquanto os mais ariscos fogem em debandada.

 

Sentindo-se à vontade ela vai caminhando pelas ruas com os gatos atravessando pelas suas pernas. Uma sensação de alegria toma conta e ela ri. Ri como a tempo não tinha motivos para rir.

 

Continuando sua jornada ela encontra outros animais e se sente como num conto de fadas, como a encantadora de animais que veio para trazer uma nova esperança, uma luz para toda essa escuridão.

 

Mas não era esse seu pensamento. Ela chega num posto de combustível e confere um dos caminhões: estava cheio. Com um sorriso de pura maldade nos lábios ela murmura baixinho:

 

– Por onde vou começar a botar fogo nessa porra de cidade?