Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
E. Mattüs
E. Mattüs, ou simplesmente Mattüs – como é conhecido no submundo das artes e agitos psicoquímicos -, é natural de Palmeira dos Índios em Alagoas e habita o underground maceioense há mais de uma década. A figura surgiu na literatura através do universo dos fanzines, sendo editor do grotesco zine marginal “Spermental” (2006-2013), “O Novo Pagão”, “Histórias pra Belzebu Dormir” e colaborador dezenas de outros zines com malucos de todo o país. O monstro também é roteirista/produtor da degenerada “Scoria Filmes”, produtora de filmes trash/experimentais nascida há mais de uma década e com cerca de 10 trabalhos; dentre eles, o curta “O Panorama da Carne” (2013) e o média metragem “Surf Kaeté” (2015). Não satisfeito em destruir a dignidade da literatura e do cinema, Mattüs ainda participa do projeto antimusical “Power of The Nóia”, que está lançando em 2016 seu sexto disco recheado de insucessos.




Lembranças mofadas numa Gaveta Cerebral

“A memória é a capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória biológica), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial). A memória focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade. É um processo que conecta pedaços de memória e conhecimentos a fim de gerar novas idéias…” Cuugle – Wikipênis
Que bosta! Vivo sem a minha e nem por isso me sinto menos idiota que todos ao meu redor. Por causa do acidente, meus familiares selaram um acordo de silêncio. Ninguém mais falava comigo. E aos poucos todos foram abandonando o lar, deixando-me sozinho com minhas contas, negatividades e demais sentimentos absurdos. O que me deixou mais indignado com aquele calendário era que 2003 foi um ano sangrento a qual eu tinha extremo apego: recortes de jornais, filmes que ganharam o Oscar, lembrava até da retrospectiva no fim de ano. Tudo me levava a crer que esse era um ano guardado para sempre comigo, era um período ao qual eu me sentia o guardião. Talvez, só existisse eu durante o 2003. Papo de ególatra corta o barato…
Vivia solitário numa mansão vazia. Não trabalhava, mas tinha as contas pagas. Trabalhei como cuidador de uma velha atriz paraplégica. As dívidas da velha levaram tudo. Fiquei com a casa após uma longa batalha judicial. O advogado levou o carro como pagamento. Mas, algo muito estranho acontece: nunca paguei uma conta sequer. Luz, água, internet, IPTU. Nada! Ao ignorante é reservado o teto, a sabedoria pode me levar ao relento. Para uma situação assim, acredito eu que tomei a melhor decisão possível em nunca procurar saber de porra nenhuma.
Procurei a musa na rede social azul: Facebook = Usuário Não encontrado. Meu Orkut tinha se tornado obsoleto, vi que mexeram em minha página. Fui excluído da comunidade “Discografias”, restando somente a comunidade “Saudades Eternas” de algum amigo arquivado na mente. O restinho de memória que me sobrou, eu guardei para as redes sociais. Acho que todas as minhas lembranças eram flashes até o dia do acidente. Depois dele, nem foto-recordação mental eu tinha. Vazio, totalmente vazio. Tão vazio que nem para oficina do diabo servia. Eu era o ano de 2003, o ano que tudo aconteceu, mas eu não lembrava de nada. Hoje é 2012. 2003 repetido por nove. 2003. 2003 vezes repetindo 2003, comece a contar. Isso é bem longe. 20+03 não é 23. Pelo menos, não para mim. Eu cruzei um sinal, mas nunca ultrapassei esse ano…

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E. Mattüs
Lembranças mofadas numa Gaveta Cerebral

“A memória é a capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória biológica), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial). A memória focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade. É um processo que conecta pedaços de memória e conhecimentos a fim de gerar novas idéias…” Cuugle – Wikipênis
Que bosta! Vivo sem a minha e nem por isso me sinto menos idiota que todos ao meu redor. Por causa do acidente, meus familiares selaram um acordo de silêncio. Ninguém mais falava comigo. E aos poucos todos foram abandonando o lar, deixando-me sozinho com minhas contas, negatividades e demais sentimentos absurdos. O que me deixou mais indignado com aquele calendário era que 2003 foi um ano sangrento a qual eu tinha extremo apego: recortes de jornais, filmes que ganharam o Oscar, lembrava até da retrospectiva no fim de ano. Tudo me levava a crer que esse era um ano guardado para sempre comigo, era um período ao qual eu me sentia o guardião. Talvez, só existisse eu durante o 2003. Papo de ególatra corta o barato…
Vivia solitário numa mansão vazia. Não trabalhava, mas tinha as contas pagas. Trabalhei como cuidador de uma velha atriz paraplégica. As dívidas da velha levaram tudo. Fiquei com a casa após uma longa batalha judicial. O advogado levou o carro como pagamento. Mas, algo muito estranho acontece: nunca paguei uma conta sequer. Luz, água, internet, IPTU. Nada! Ao ignorante é reservado o teto, a sabedoria pode me levar ao relento. Para uma situação assim, acredito eu que tomei a melhor decisão possível em nunca procurar saber de porra nenhuma.
Procurei a musa na rede social azul: Facebook = Usuário Não encontrado. Meu Orkut tinha se tornado obsoleto, vi que mexeram em minha página. Fui excluído da comunidade “Discografias”, restando somente a comunidade “Saudades Eternas” de algum amigo arquivado na mente. O restinho de memória que me sobrou, eu guardei para as redes sociais. Acho que todas as minhas lembranças eram flashes até o dia do acidente. Depois dele, nem foto-recordação mental eu tinha. Vazio, totalmente vazio. Tão vazio que nem para oficina do diabo servia. Eu era o ano de 2003, o ano que tudo aconteceu, mas eu não lembrava de nada. Hoje é 2012. 2003 repetido por nove. 2003. 2003 vezes repetindo 2003, comece a contar. Isso é bem longe. 20+03 não é 23. Pelo menos, não para mim. Eu cruzei um sinal, mas nunca ultrapassei esse ano…

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