Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
E. Mattüs
E. Mattüs, ou simplesmente Mattüs – como é conhecido no submundo das artes e agitos psicoquímicos -, é natural de Palmeira dos Índios em Alagoas e habita o underground maceioense há mais de uma década. A figura surgiu na literatura através do universo dos fanzines, sendo editor do grotesco zine marginal “Spermental” (2006-2013), “O Novo Pagão”, “Histórias pra Belzebu Dormir” e colaborador dezenas de outros zines com malucos de todo o país. O monstro também é roteirista/produtor da degenerada “Scoria Filmes”, produtora de filmes trash/experimentais nascida há mais de uma década e com cerca de 10 trabalhos; dentre eles, o curta “O Panorama da Carne” (2013) e o média metragem “Surf Kaeté” (2015). Não satisfeito em destruir a dignidade da literatura e do cinema, Mattüs ainda participa do projeto antimusical “Power of The Nóia”, que está lançando em 2016 seu sexto disco recheado de insucessos.




Lembranças mofadas numa Gaveta Cerebral

Sentei na sala de estar observando fotos de pessoas honoráveis, honrosas e felizes na coluna social. Não lembrava direito nem da viagem de ônibus, minha memória ficou embaralhada muito tempo. Sinto-me a raiz da desgraça humana. Talvez eu não devesse existir, mas existia na memória de todos. Até dos passantes anônimos, que nunca mais esqueceram o acidente de moto. Eu parasito mentes com minha imagem sofrida. Meu terror sendo arremessado a uma velocidade de 69 km por hora, minha ascensão aos céus, meu sangue no asfalto…. Tudo ainda está preso na cabeça de quem viu meu corpo voando por seis metros acima do chão e caindo feito um boneco de pano no meio de uma pista de asfalto fresco. A negatividade de minha existência infecta mentes incapazes de me esquecer por causa de psicodélicos pesadelos com minha tragédia pessoal, tudo é quase como ser o Freddie Krugger…
[…]
Segundo dia de novembro chegou. 02/11. Adotei-o como aniversário. A necrópole não estava tão cheia antes do Sol nascer. Peguei uma flor murcha no jardim e parti para mais um ano de desculpas na cova maternal. Sento em frente a uma miserável placa de latão sem fotos, cemitérios modernos abandonaram o charme dos mausoléus para se tornarem um arquivo público de cadáveres apodrecidos. Um imenso departamento da putrefação humana: placas e grama, no máximo uma foto para identificar o cliente. Sentado sobre a grama verde, repito duas mil e três vezes a única coisa digna a se dizer: Desculpa!
A manhã vai se formando, pessoas vão aparecendo. A placa está há nove anos sem limpeza, não dá pra ler o nome dela. Nunca fui ao seu enterro, mas sabia que ela estava ali pelo sobrenome “Lima Rigueira” no mausoléu da família. Gente, muita gente. Afinal, só temos um dia no ano para desarquivar esse tipo de informação memorial. Levantei em tom de despedida, e depois agachei para resolver um detalhe: tirar o barro que consumia a placa funerária, aquela merda estava bastante velha. Esfregando o polegar aos poucos, a data de nascimento vai aparecendo. Um erro inexplicável! Meu aniversário não deveria estar ali…
Ouço vozes familiares. Virei e vi todos os parentes esquecidos reunidos, inclusive mamãe. Passaram dois ou cinco minutos, jogaram algumas flores em cima do mausoléu e partiram. Pela falta de choro e tempo dedicado, sou uma memória semiesquecida. Daquelas que doem e nem valem à pena lembrar…

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E. Mattüs
Lembranças mofadas numa Gaveta Cerebral

Sentei na sala de estar observando fotos de pessoas honoráveis, honrosas e felizes na coluna social. Não lembrava direito nem da viagem de ônibus, minha memória ficou embaralhada muito tempo. Sinto-me a raiz da desgraça humana. Talvez eu não devesse existir, mas existia na memória de todos. Até dos passantes anônimos, que nunca mais esqueceram o acidente de moto. Eu parasito mentes com minha imagem sofrida. Meu terror sendo arremessado a uma velocidade de 69 km por hora, minha ascensão aos céus, meu sangue no asfalto…. Tudo ainda está preso na cabeça de quem viu meu corpo voando por seis metros acima do chão e caindo feito um boneco de pano no meio de uma pista de asfalto fresco. A negatividade de minha existência infecta mentes incapazes de me esquecer por causa de psicodélicos pesadelos com minha tragédia pessoal, tudo é quase como ser o Freddie Krugger…
[…]
Segundo dia de novembro chegou. 02/11. Adotei-o como aniversário. A necrópole não estava tão cheia antes do Sol nascer. Peguei uma flor murcha no jardim e parti para mais um ano de desculpas na cova maternal. Sento em frente a uma miserável placa de latão sem fotos, cemitérios modernos abandonaram o charme dos mausoléus para se tornarem um arquivo público de cadáveres apodrecidos. Um imenso departamento da putrefação humana: placas e grama, no máximo uma foto para identificar o cliente. Sentado sobre a grama verde, repito duas mil e três vezes a única coisa digna a se dizer: Desculpa!
A manhã vai se formando, pessoas vão aparecendo. A placa está há nove anos sem limpeza, não dá pra ler o nome dela. Nunca fui ao seu enterro, mas sabia que ela estava ali pelo sobrenome “Lima Rigueira” no mausoléu da família. Gente, muita gente. Afinal, só temos um dia no ano para desarquivar esse tipo de informação memorial. Levantei em tom de despedida, e depois agachei para resolver um detalhe: tirar o barro que consumia a placa funerária, aquela merda estava bastante velha. Esfregando o polegar aos poucos, a data de nascimento vai aparecendo. Um erro inexplicável! Meu aniversário não deveria estar ali…
Ouço vozes familiares. Virei e vi todos os parentes esquecidos reunidos, inclusive mamãe. Passaram dois ou cinco minutos, jogaram algumas flores em cima do mausoléu e partiram. Pela falta de choro e tempo dedicado, sou uma memória semiesquecida. Daquelas que doem e nem valem à pena lembrar…

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