Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
E. Mattüs
E. Mattüs, ou simplesmente Mattüs – como é conhecido no submundo das artes e agitos psicoquímicos -, é natural de Palmeira dos Índios em Alagoas e habita o underground maceioense há mais de uma década. A figura surgiu na literatura através do universo dos fanzines, sendo editor do grotesco zine marginal “Spermental” (2006-2013), “O Novo Pagão”, “Histórias pra Belzebu Dormir” e colaborador dezenas de outros zines com malucos de todo o país. O monstro também é roteirista/produtor da degenerada “Scoria Filmes”, produtora de filmes trash/experimentais nascida há mais de uma década e com cerca de 10 trabalhos; dentre eles, o curta “O Panorama da Carne” (2013) e o média metragem “Surf Kaeté” (2015). Não satisfeito em destruir a dignidade da literatura e do cinema, Mattüs ainda participa do projeto antimusical “Power of The Nóia”, que está lançando em 2016 seu sexto disco recheado de insucessos.




Papa Defunto

          Sempre que tenho notícia de um velório me vem à memória dos belíssimos funerais interioranos. Tudo começava com o caixão chegando na casa do morto, os familiares se abraçavam, café aguado, as bolachas de água e sal sempre acabavam logo. Um pires com um limão partido embaixo do caixão para afastar os perfumes nefastos da carne morta, quatro velas compridas e coroas de flores espalhadas pelos quatro cantos da sala de estar. Todo mundo fuxicando a vida do morto na porta da residência: alguns viram santos (mesmo levando uma vida hipócrita e mesquinha); corruptores do mundo que levaram para a morte a alcunha de cidadãos honrados e dignos de saudade. Outros, simplesmente, completam seu ciclo existencial rápido – geralmente furiosamente – e quase que, imediatamente, após o enterro, são esquecidos por quase todos os que compartilharam de sua existência penitente, enquanto ser vivente.

          O Padre chegava numa moral de rei, rezava uma micro missa medonha dando boas recomendações da alma do morto ao seu messias. O féretro era arrosqueado, uma procissão começava com ele em cima de um carro metálico, geralmente empurrado por quatro homens. Viúvos ou viúvas, pais, mães, irmãos, filhos e filhas sempre amparados por um ente próximo. Óculos escuros dominam os rostos, moda gótica nos tecidos. O Hit “Segura Na Mão de Deus” é tocado 33 vezes durante a procissão fúnebre. Uma figura se destaca guiando o enterro: quase como uma espécie de maestro funéreo, ele guia o caminho que a procissão deve seguir. Nunca soube o nome formal de tal profissão, talvez nem devesse saber, pois o apelido de “papa defunto” é sublime demais para um cargo profissional. Acho que este miserável deveria ganhar alguma comissão da família do morto, assim como aquelas velhas carpideiras derramando seu choro artístico. Cortejo chega à necrópole.  As grandes portas metálicas – imitação pobre de portões medievais – já estavam abertas, todos entram e começa uma batalha pelos melhores lugares do espetáculo. Eu sempre me acomodava nas catacumbas mais altas para ter a melhor visão. Era lindo ver como, após todos os familiares estarem acomodados, a tampa do caixão era novamente aberta para uma choradeira final. Os mortos quase sempre aparentavam não ter pressa, sempre expressam sossego. Muitas declarações de amor e saudades, Jesus ou algum outro porteiro é invocado para abrir o portal e acompanhar o defunto em sua viagem. O caixão era novamente lacrado e os cânticos religiosos mais nefandos recomeçavam. O ataúde descia devagarinho suportado por duas ou três cordas dispostas paralelamente e seguradas pelos coveiros com a ajuda de viris homens ultramachos procurando matrimônio em enterros. A terra também cai suave e bem devagar, o ataúde vai se apagando nos amontoados de grãos marrons.

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E. Mattüs
Papa Defunto

          Sempre que tenho notícia de um velório me vem à memória dos belíssimos funerais interioranos. Tudo começava com o caixão chegando na casa do morto, os familiares se abraçavam, café aguado, as bolachas de água e sal sempre acabavam logo. Um pires com um limão partido embaixo do caixão para afastar os perfumes nefastos da carne morta, quatro velas compridas e coroas de flores espalhadas pelos quatro cantos da sala de estar. Todo mundo fuxicando a vida do morto na porta da residência: alguns viram santos (mesmo levando uma vida hipócrita e mesquinha); corruptores do mundo que levaram para a morte a alcunha de cidadãos honrados e dignos de saudade. Outros, simplesmente, completam seu ciclo existencial rápido – geralmente furiosamente – e quase que, imediatamente, após o enterro, são esquecidos por quase todos os que compartilharam de sua existência penitente, enquanto ser vivente.

          O Padre chegava numa moral de rei, rezava uma micro missa medonha dando boas recomendações da alma do morto ao seu messias. O féretro era arrosqueado, uma procissão começava com ele em cima de um carro metálico, geralmente empurrado por quatro homens. Viúvos ou viúvas, pais, mães, irmãos, filhos e filhas sempre amparados por um ente próximo. Óculos escuros dominam os rostos, moda gótica nos tecidos. O Hit “Segura Na Mão de Deus” é tocado 33 vezes durante a procissão fúnebre. Uma figura se destaca guiando o enterro: quase como uma espécie de maestro funéreo, ele guia o caminho que a procissão deve seguir. Nunca soube o nome formal de tal profissão, talvez nem devesse saber, pois o apelido de “papa defunto” é sublime demais para um cargo profissional. Acho que este miserável deveria ganhar alguma comissão da família do morto, assim como aquelas velhas carpideiras derramando seu choro artístico. Cortejo chega à necrópole.  As grandes portas metálicas – imitação pobre de portões medievais – já estavam abertas, todos entram e começa uma batalha pelos melhores lugares do espetáculo. Eu sempre me acomodava nas catacumbas mais altas para ter a melhor visão. Era lindo ver como, após todos os familiares estarem acomodados, a tampa do caixão era novamente aberta para uma choradeira final. Os mortos quase sempre aparentavam não ter pressa, sempre expressam sossego. Muitas declarações de amor e saudades, Jesus ou algum outro porteiro é invocado para abrir o portal e acompanhar o defunto em sua viagem. O caixão era novamente lacrado e os cânticos religiosos mais nefandos recomeçavam. O ataúde descia devagarinho suportado por duas ou três cordas dispostas paralelamente e seguradas pelos coveiros com a ajuda de viris homens ultramachos procurando matrimônio em enterros. A terra também cai suave e bem devagar, o ataúde vai se apagando nos amontoados de grãos marrons.

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