Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
E. Mattüs
E. Mattüs, ou simplesmente Mattüs – como é conhecido no submundo das artes e agitos psicoquímicos -, é natural de Palmeira dos Índios em Alagoas e habita o underground maceioense há mais de uma década. A figura surgiu na literatura através do universo dos fanzines, sendo editor do grotesco zine marginal “Spermental” (2006-2013), “O Novo Pagão”, “Histórias pra Belzebu Dormir” e colaborador dezenas de outros zines com malucos de todo o país. O monstro também é roteirista/produtor da degenerada “Scoria Filmes”, produtora de filmes trash/experimentais nascida há mais de uma década e com cerca de 10 trabalhos; dentre eles, o curta “O Panorama da Carne” (2013) e o média metragem “Surf Kaeté” (2015). Não satisfeito em destruir a dignidade da literatura e do cinema, Mattüs ainda participa do projeto antimusical “Power of The Nóia”, que está lançando em 2016 seu sexto disco recheado de insucessos.




Prédio Caixão

Dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Uma favela futurista burocraticamente apelidada de “Conjunto habitacional”. Cohab. No Cordeiro que não é de Deus fica o meu lar. Eis-me aqui com a vida atolada numa construção barata. Olho para cima e vejo tudo sendo devorado por infiltrações e, caso apareça chuva, sempre fica aquela impressão de esperar o inesperável. Quem sabe o teto vire chão e eu seja transformado no recheio de um amargo sanduíche de concreto. O Sol nasceu e resolvi começar o dia ouvindo The Doors. Só Jim e sua trupe conseguem fazer com que eu sinta desejo pela vida. Tenho 33 anos e faz 33 dias que perdi o carinho e cuidado maternal. O médico parecia inventar a doença, era um daqueles nomes clínicos impronunciáveis por leigos. Uns falavam em colapso pulmonar, outros em necrose intestinal causada por um carcinoma selvagem. A única coisa que posso afirmar é que tudo começou numa dor abdominal após seu aniversário e, em menos de vinte dias, minha mãe partiu de sua cama para a central de funerais do Santo Amaro. Trinta e três anos de cuidados para que eu não fraquejasse perante a vida e aquela que me criou estava reduzida a um presunto coberto de flores plásticas.
É incrível como, em pouco mais de um mês, a imundície tenha se apoderado de minha vida e moradia. A pingueira bate no lixo, as baratas trafegam buscando sua redenção kafkiana e um cheiro azedo que sem incenso ultrapassa a podridão. Minha namorada não aparece desde o velório. Ela se chama Camilla e brigamos após o funeral de mi madre. Sua mente estava possessa pela chama do crack. A pedra a deixou em forma, mas tornou-se caro doar parte de meus trocados para que ela alimentasse o vício. Resolvi elevar uma briga de rotina a uma discussão extrema, ganhei alguns arranhões e a ameaça de que o desquite não ficaria assim. Mas quem vai acreditar nas promessas de um viciado? Numa hora dessas, Camilla pode estar fazendo companhia a sua ex-sogra. O seguro desemprego me deu mais três meses de paz. E pode ter certeza que não passei um ano como assistente de eletrônica para sustentar o vício de uma microburguesa autodestrutiva.
Minha vida se resume ao delivery de quentinhas, pizza e som no mais alto volume. Se o silêncio existe em meu lar é porque, provavelmente, estou prestando atenção na vida dos vizinhos. Falando nisso, esta madrugada eu ouvi uma discussão dos moradores de cima, a esposa estava pensando em denunciar o mau cheiro provindo de meu apartamento. O marido achava radical demais e preferia conversar. Admito que minha memória lida de uma forma péssima com as sacolas de lixo, mas me denunciar pra sindica é pesado. Sem mãe e sem Camilla, eu fui tomado pela imundície. Sou uma mera vítima dos fatos! Viver no térreo, pelo menos, aliviava a barra. Ninguém reclamava dos dias de pogo solitário no quarto ou bêbados do pé fundo, daqueles que fazem os vizinhos de baixo achar que está rolando um terremoto em sua moradia.

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E. Mattüs
Prédio Caixão

Dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Uma favela futurista burocraticamente apelidada de “Conjunto habitacional”. Cohab. No Cordeiro que não é de Deus fica o meu lar. Eis-me aqui com a vida atolada numa construção barata. Olho para cima e vejo tudo sendo devorado por infiltrações e, caso apareça chuva, sempre fica aquela impressão de esperar o inesperável. Quem sabe o teto vire chão e eu seja transformado no recheio de um amargo sanduíche de concreto. O Sol nasceu e resolvi começar o dia ouvindo The Doors. Só Jim e sua trupe conseguem fazer com que eu sinta desejo pela vida. Tenho 33 anos e faz 33 dias que perdi o carinho e cuidado maternal. O médico parecia inventar a doença, era um daqueles nomes clínicos impronunciáveis por leigos. Uns falavam em colapso pulmonar, outros em necrose intestinal causada por um carcinoma selvagem. A única coisa que posso afirmar é que tudo começou numa dor abdominal após seu aniversário e, em menos de vinte dias, minha mãe partiu de sua cama para a central de funerais do Santo Amaro. Trinta e três anos de cuidados para que eu não fraquejasse perante a vida e aquela que me criou estava reduzida a um presunto coberto de flores plásticas.
É incrível como, em pouco mais de um mês, a imundície tenha se apoderado de minha vida e moradia. A pingueira bate no lixo, as baratas trafegam buscando sua redenção kafkiana e um cheiro azedo que sem incenso ultrapassa a podridão. Minha namorada não aparece desde o velório. Ela se chama Camilla e brigamos após o funeral de mi madre. Sua mente estava possessa pela chama do crack. A pedra a deixou em forma, mas tornou-se caro doar parte de meus trocados para que ela alimentasse o vício. Resolvi elevar uma briga de rotina a uma discussão extrema, ganhei alguns arranhões e a ameaça de que o desquite não ficaria assim. Mas quem vai acreditar nas promessas de um viciado? Numa hora dessas, Camilla pode estar fazendo companhia a sua ex-sogra. O seguro desemprego me deu mais três meses de paz. E pode ter certeza que não passei um ano como assistente de eletrônica para sustentar o vício de uma microburguesa autodestrutiva.
Minha vida se resume ao delivery de quentinhas, pizza e som no mais alto volume. Se o silêncio existe em meu lar é porque, provavelmente, estou prestando atenção na vida dos vizinhos. Falando nisso, esta madrugada eu ouvi uma discussão dos moradores de cima, a esposa estava pensando em denunciar o mau cheiro provindo de meu apartamento. O marido achava radical demais e preferia conversar. Admito que minha memória lida de uma forma péssima com as sacolas de lixo, mas me denunciar pra sindica é pesado. Sem mãe e sem Camilla, eu fui tomado pela imundície. Sou uma mera vítima dos fatos! Viver no térreo, pelo menos, aliviava a barra. Ninguém reclamava dos dias de pogo solitário no quarto ou bêbados do pé fundo, daqueles que fazem os vizinhos de baixo achar que está rolando um terremoto em sua moradia.

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