A linha da vida - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






A linha da vida

        Marcelo havia acordado, e ainda zonzo de sono, uma imagem o fez arregalar os olhos: a linha da vida de sua mão aparecia cortada por outra linha. Desesperou-se, pois acreditava piamente em quiromancia, e via a morte interrompendo sua vida abruptamente antes do fim que deveria ser. E sim, conhecia bem sua própria mão para saber que aquela linha nunca estivera ali.

        Naquela manhã não conseguiu tomar café: pegar uma faca para passar manteiga no pão parecia assustadoramente ameaçador; tirar o rótulo do iogurte, daquele metal fino, podia fazer um corte em sua mão que o faria esvair-se em sangue – é bizarro, mas existem mortes bizarras; não tinha copo de plástico, e copo de vidro, quebrando, sabe-se lá onde os estilhaços podem parar… Era melhor não tomar café.

        Pensou em ligar para alguém, mas lembrou das notícias de mortes por causa do celular ter estourado na cabeça da pessoa. Tirou tudo de casa da tomada, para evitar um curto-circuito e eventual incêndio. Deitou-se na cama para não levantar e acabou dormindo. Quando acordou, de bruços, percebeu que poderia ter sufocado caso vomitasse, já que estava tonto de fraqueza, por não ter comido o dia inteiro. Levantou-se e foi tomar um banho para manter-se acordado. Já nu, lembrou-se que passar sabonete, com a água, podia fazê-lo escorregar e acabar morrendo ao bater a cabeça na parede ou no registro do chuveiro. Melhor não tomar banho. Queria comer algo. Olhou a geladeira, desligada, e não se sentiu confiante para pegar nada lá que não o pudesse matar. Sair de casa, nem pensar: assalto, sequestro-relâmpago, bala perdida. Voltou para a cama e cercou-se de travesseiros para que não pudesse virar de bruços.

        Foi acordando e voltando a dormir… Fraco. Acordando e voltando a dormir, sem levantar. Sua geladeira, que havia deixado levemente aberta, estava com moscas e vermes nas carnes, fungos, totalmente tomada por vida podre. Marcelo estava um caco, magricelo, com olheiras profundas e sem levantar da cama, quase atrofiado pelos dias em que passou imóvel. Olhou mais uma vez para a palma da mão. O sulco que cortava a linha da vida estava mais forte, marcado profundamente, e com um formato peculiar. Reuniu todas as suas forças e levantou-se, com dificuldade. Caminhou trôpego até a cozinha. Pegou um facão e olhou-o, reflexivo. Realmente, era o mesmo formato do corte na linha da vida: a lâmina do facão. Esfaqueou sua barriga até não mais conseguir. Esvaiu-se em sangue, cuspiu sangue, e jogou o facão longe, caiu sentado na cozinha. Em poucos minutos moscas varejeiras pousavam em sua ferida. Marcelo não tinha forças nem para espantá-las. Sorriu, e a cabeça foi caindo, próximo à geladeira.       

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Fabiano Soares
A linha da vida

        Marcelo havia acordado, e ainda zonzo de sono, uma imagem o fez arregalar os olhos: a linha da vida de sua mão aparecia cortada por outra linha. Desesperou-se, pois acreditava piamente em quiromancia, e via a morte interrompendo sua vida abruptamente antes do fim que deveria ser. E sim, conhecia bem sua própria mão para saber que aquela linha nunca estivera ali.

        Naquela manhã não conseguiu tomar café: pegar uma faca para passar manteiga no pão parecia assustadoramente ameaçador; tirar o rótulo do iogurte, daquele metal fino, podia fazer um corte em sua mão que o faria esvair-se em sangue – é bizarro, mas existem mortes bizarras; não tinha copo de plástico, e copo de vidro, quebrando, sabe-se lá onde os estilhaços podem parar… Era melhor não tomar café.

        Pensou em ligar para alguém, mas lembrou das notícias de mortes por causa do celular ter estourado na cabeça da pessoa. Tirou tudo de casa da tomada, para evitar um curto-circuito e eventual incêndio. Deitou-se na cama para não levantar e acabou dormindo. Quando acordou, de bruços, percebeu que poderia ter sufocado caso vomitasse, já que estava tonto de fraqueza, por não ter comido o dia inteiro. Levantou-se e foi tomar um banho para manter-se acordado. Já nu, lembrou-se que passar sabonete, com a água, podia fazê-lo escorregar e acabar morrendo ao bater a cabeça na parede ou no registro do chuveiro. Melhor não tomar banho. Queria comer algo. Olhou a geladeira, desligada, e não se sentiu confiante para pegar nada lá que não o pudesse matar. Sair de casa, nem pensar: assalto, sequestro-relâmpago, bala perdida. Voltou para a cama e cercou-se de travesseiros para que não pudesse virar de bruços.

        Foi acordando e voltando a dormir… Fraco. Acordando e voltando a dormir, sem levantar. Sua geladeira, que havia deixado levemente aberta, estava com moscas e vermes nas carnes, fungos, totalmente tomada por vida podre. Marcelo estava um caco, magricelo, com olheiras profundas e sem levantar da cama, quase atrofiado pelos dias em que passou imóvel. Olhou mais uma vez para a palma da mão. O sulco que cortava a linha da vida estava mais forte, marcado profundamente, e com um formato peculiar. Reuniu todas as suas forças e levantou-se, com dificuldade. Caminhou trôpego até a cozinha. Pegou um facão e olhou-o, reflexivo. Realmente, era o mesmo formato do corte na linha da vida: a lâmina do facão. Esfaqueou sua barriga até não mais conseguir. Esvaiu-se em sangue, cuspiu sangue, e jogou o facão longe, caiu sentado na cozinha. Em poucos minutos moscas varejeiras pousavam em sua ferida. Marcelo não tinha forças nem para espantá-las. Sorriu, e a cabeça foi caindo, próximo à geladeira.       

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