Ceia de Natal - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Ceia de Natal

Noite de 24 de dezembro. Mesa farta. Jorge conversa com Noeli, sua sogra. Guilherme, filho de Jorge e neto de Noeli, brinca com Renato, seu primo, e conseqüentemente, sobrinho de Jorge e neto de Noeli. Os primos param perto da mesa e roubam pedaços de tender fatiado, colocando rapidamente na boca, para ninguém ver. Renato, o mais novo, cospe um belo pedaço mastigado no chão, e começa a sentir ânsia de vômito, o que chama a atenção dos presentes. Jorge interrompe sua conversa para dar a bronca:

– É, seu merdinha, quis roubar, agora come!! Tá vendo, olha a criação que o babaca do Pedro dá pro filho dele…

Dona Noêmia, mãe de Jorge e de Pedro, defende:

– Você já olhou o Guilherme? Tá com a boca cheia… problema de criação também?

Jorge vira as costas para a mãe e vai pegar mais uma cerveja. Elisa, mãe de Renato, finge que não ouve a provocação do cunhado e vai limpar as mãos do filho com um guardanapo.

 

*

Beto revira os poucos sacos de lixo que encontra nas ruas, vazias pela festa e pela chuva rala que caía. Prometeu à família que levaria comida para casa. Graça, sua esposa, aguardava com Letícia, a filha do casal, de 4 anos, famintas, quase dois dias sem comer uma refeição digna (que ao menos viesse em um recipiente).

Homem correto e tímido, Beto não tinha a desenvoltura para pedir comida nas casas, mesmo sabendo que estranhamente, nessa época do ano, as pessoas tendem a ser mais benevolentes. Acredita que o tal espírito natalino realmente pudesse o ajudar, mas não gostava de ser o “pedinte”; preferia procurar comida e contar com a sorte de alguém o ver nessas condições e oferecer algo.

Graça e Letícia tentam aquecer-se cobrindo-se com trapos de pano dentro de casa, um barraco simplório, que ao menos lhes servia para proteger da chuva.

A sorte não estava ao lado de Beto.

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Fabiano Soares
Ceia de Natal

Noite de 24 de dezembro. Mesa farta. Jorge conversa com Noeli, sua sogra. Guilherme, filho de Jorge e neto de Noeli, brinca com Renato, seu primo, e conseqüentemente, sobrinho de Jorge e neto de Noeli. Os primos param perto da mesa e roubam pedaços de tender fatiado, colocando rapidamente na boca, para ninguém ver. Renato, o mais novo, cospe um belo pedaço mastigado no chão, e começa a sentir ânsia de vômito, o que chama a atenção dos presentes. Jorge interrompe sua conversa para dar a bronca:

– É, seu merdinha, quis roubar, agora come!! Tá vendo, olha a criação que o babaca do Pedro dá pro filho dele…

Dona Noêmia, mãe de Jorge e de Pedro, defende:

– Você já olhou o Guilherme? Tá com a boca cheia… problema de criação também?

Jorge vira as costas para a mãe e vai pegar mais uma cerveja. Elisa, mãe de Renato, finge que não ouve a provocação do cunhado e vai limpar as mãos do filho com um guardanapo.

 

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Beto revira os poucos sacos de lixo que encontra nas ruas, vazias pela festa e pela chuva rala que caía. Prometeu à família que levaria comida para casa. Graça, sua esposa, aguardava com Letícia, a filha do casal, de 4 anos, famintas, quase dois dias sem comer uma refeição digna (que ao menos viesse em um recipiente).

Homem correto e tímido, Beto não tinha a desenvoltura para pedir comida nas casas, mesmo sabendo que estranhamente, nessa época do ano, as pessoas tendem a ser mais benevolentes. Acredita que o tal espírito natalino realmente pudesse o ajudar, mas não gostava de ser o “pedinte”; preferia procurar comida e contar com a sorte de alguém o ver nessas condições e oferecer algo.

Graça e Letícia tentam aquecer-se cobrindo-se com trapos de pano dentro de casa, um barraco simplório, que ao menos lhes servia para proteger da chuva.

A sorte não estava ao lado de Beto.

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