Ceia de Natal - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Ceia de Natal

*

Beto desistiu de pedir, desistiu de catar lixo (provavelmente, só amanhã as sobras das ceias estarão à disposição dele e dos urubus), e estava voltando para casa. No entanto, o espírito natalino tem dessas coisas, ao passar por uma rua escura, enxergou um ponto iluminado, onde um saco preto refletia uma luz acobreada, uma mistura de cores que ficou realmente lindo, e o vento que batia no saco, fazia-o tremular, e a luz movia-se, em um movimento belo que enchia os olhos de Beto de emoção.

Ele decidiu que esse seria o último saco a ser visto. Sim, tinha esperança, talvez ele pudesse levar algo para comerem em casa, mesmo que fosse pouco. Aproximou-se do saco de lixo, abriu-o lentamente, e percebeu que era pesado. Ao abrir por completo e trazer o interior do saco à luz alaranjada, percebeu que havia fartura: carne, diversos pedaços! Beto chorou. Cheirou para ver se estava muito podre, embora soubesse que mesmo podre, serviria para ao menos matar a fome de Graça e Letícia, e dele também. Pois nem podre estava, podia sentir o cheiro: fresquinha! As lágrimas escorriam por seu rosto, ele não conseguia conter-se: certamente um presente do céu! Agradecia mentalmente, não sabia se ao espírito de natal, ao açougueiro que havia colocado aquilo ali, ou à entidade a quem era enviado o despacho: agradecia a todos! Fechou a sacola e partiu para casa, agora revigorado, feliz, forte. Nada mais o incomodava.

Beto conseguiu a ceia de Natal da família!

 

*

Dona Noêmia, Fausto, Noeli, Guilherme, Renato e Elisa continuam esperando Pedro, o marido de Elisa, e Angélica, a esposa de Jorge. E Jorge está lavando uma enxada, sem pressa alguma.

FIM

 

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Fabiano Soares
Ceia de Natal

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Beto desistiu de pedir, desistiu de catar lixo (provavelmente, só amanhã as sobras das ceias estarão à disposição dele e dos urubus), e estava voltando para casa. No entanto, o espírito natalino tem dessas coisas, ao passar por uma rua escura, enxergou um ponto iluminado, onde um saco preto refletia uma luz acobreada, uma mistura de cores que ficou realmente lindo, e o vento que batia no saco, fazia-o tremular, e a luz movia-se, em um movimento belo que enchia os olhos de Beto de emoção.

Ele decidiu que esse seria o último saco a ser visto. Sim, tinha esperança, talvez ele pudesse levar algo para comerem em casa, mesmo que fosse pouco. Aproximou-se do saco de lixo, abriu-o lentamente, e percebeu que era pesado. Ao abrir por completo e trazer o interior do saco à luz alaranjada, percebeu que havia fartura: carne, diversos pedaços! Beto chorou. Cheirou para ver se estava muito podre, embora soubesse que mesmo podre, serviria para ao menos matar a fome de Graça e Letícia, e dele também. Pois nem podre estava, podia sentir o cheiro: fresquinha! As lágrimas escorriam por seu rosto, ele não conseguia conter-se: certamente um presente do céu! Agradecia mentalmente, não sabia se ao espírito de natal, ao açougueiro que havia colocado aquilo ali, ou à entidade a quem era enviado o despacho: agradecia a todos! Fechou a sacola e partiu para casa, agora revigorado, feliz, forte. Nada mais o incomodava.

Beto conseguiu a ceia de Natal da família!

 

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Dona Noêmia, Fausto, Noeli, Guilherme, Renato e Elisa continuam esperando Pedro, o marido de Elisa, e Angélica, a esposa de Jorge. E Jorge está lavando uma enxada, sem pressa alguma.

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